A discrição Inglesa

Londres, 05.08.73, Domingo.

           À noite, Richard Hunt levou-me até o Aeroporto de Gatwik para o embarque. O tempo melhorara após o meio dia, de forma a ensejar algumas visitas a pontos históricos. Deslumbrante, e eu só a concentrar minha atenção no self-remembering, enfim, tudo me levava à descontração.

           O dia a dera à sugestão de Hannibal de longo passeio, que comigo traçou o roteiro. Comentou a observação do Ensino de que a lembrança do passado, apenas virtualizada, nos faz lembrar o chamado passeio singular em que os pormenores sempre aparecem como lembrança objetiva, ou seja, aquela que jamais se torna encoberta.

           Contou-me, enquanto dirigia, o retorno do tempo vivido, mas sentido de ângulo distante do real, nítido em razão do passado no espaço que entrara em colapso.
 
           Torre de Londres, a Catedral de São Paulo, o Palácio do Parlamento, National Gallery, os palácios reais de Saint James e Buckinghan seriam os mesmos no futuro?

           A Abadia de Westminster, a mais importante em virtude dos mortos de sobrecasaca por mim pisados com sentimento de culpa, relembrei, recordando-me do que já ocorrera quando da primeira visita que fizera às suas naves.

           Almoçaríamos, depois, a fim de avaliar o acervo apenas fotografado por nossas retinas, faríamos o bosquejo de três colóquios para o ano próximo, em datas que por telefone combinaríamos, chamadas que dele partiriam do Iraque e Irã.

           Desculpei-me dos poucos dias que permaneci em Londres, limitando a minha estada apenas ao conjunto e transeuntes.

           Meus passos comportar-se-ão alheios ao sacrilégio de pisar sobre as lousas dos jazigo. Figuras mortas há milênio, rainhas no soberbo destaque de seu caixão ora sóbrio, ora artístico, próximo a súditos do seu poder e remotos ou posteriores cardeais. Outras personagens são para o Observador, conhecidas por apresentação do Passado de agora e sobre os epitáfios deixamos o respeito, porque os nossos olhos fitam-no em conjunto?

           Em minha ignorância do todo em si, do todo verdadeiro, sem as contribuições dos historiadores, fico a imaginar como resolver a equação do milênio que se formou até o presente, passando pela Carta Magna, pela ação de Cromwell, pondo no cadafalso o monarca impertinente, pelo confronto com a Espanha levando-lhe a América, por fim, contendo Bonaparte e Adolf Hitler, ousados em demasia em desafiar o seu saber político.

           Que dizer do segredo da combinação de tantas variáveis que poderiam, sem formalismo algum, invocar a sua força a fim de açoitar aquela Ilha que jamais temera, dando em cada século a prova de orgulho e frieza.

           Era isso que eu perguntava a cada sepulcro que se punha a meus pés. Que explicação? Maquiavel, Bossuet, Ratzel, Marx, Gobineau e Danilewski?

           O ora Observador já se tinha inclinado, há vinte e cinco anos, pelo fator econômico ungido artificialmente ao geográfico.

           Naquela presença, então, naquele espaço único de todos, que resposta me dariam sobre os açoites de Deus?

           Retornando outra vez, devagar, pareceu-me que aqueles mortos homenageados com justiça me falavam em tom uníssono que o culturalismo seria a única porta para o entendimento relativo daquela dúvida.

           Subitamente lembrei-me de Ralph Aldo Emerson, cujas leituras as fiz há um quarto de século, deslumbrado pela prosa a propósito dos ingleses. As maneiras britânicas, bem antes do período sombrio da Primeira e Segunda Guerra.

           English Traits ainda conservava o sabor de frutas frescas. O Novecentos escondia a verdade declarada no convencionalismo, mas as frases e confissões não eram do tipo de Oscar Wilde e nem do rigor científico de Aldous Huxley, a franqueza de Lawrence e o protesto de James  Joyce, muito menos o sombrio sentimento das grandes escritoras, de Catarina Mansfield e Virginia Wolf. Mantinham elas a tradição feminina do bem escrever e da sobriedade.

           Aquela garra – em inglês uma palavra feia: gluck – para representar o galo bretão que luta até a morte. Garra disfarçada no desinteresse de tudo, e impassível negligência. Emerson escreveu que cada inglês bebe, come, barbeia-se e veste-se, gesticula de seu próprio modo, preocupado apenas em não incomodar o próximo, já que busy com o seu próprio momento.
 
           Hoje em dia, tão idênticas maneiras. Não dizer que o cidadão que se acha a meu lado, age com indiferença ou desdém, está apenas ocupado – sorry – e não vê os vizinhos. Em síntese, com seu modo típico de expor, resumiu Emerson: in short, every one of this islander is an island himself, safe, tranquil, incommunicable (em suma, cada um desses ilhéus é uma ilha, ele próprio, salvo, tranqüilo, incomunicável).

           Naquelas velhas lembranças de leituras, não conhecia de perto os ingleses. Por duas vezes o filósofo americano visitou a Inglaterra e suas observações são atualizadas. Mas os conheceu bem em sua pátria.

           Não esqueço de seus pormenores que me retrataram o convencionalismo britânico. As observações são autênticos sacramentos, valem como um contrato. Por exemplo, sem a apresentação formal, o inglês ignora-lhe o nome, etnia, o idioma.
 
           Feita, porém, muda-se o quadro, dando-nos o econômico sorriso e o cartão de visita. Este último já é um aval da amizade. Tudo, cordialidade medida, sincera. Aliás, parecidos conosco, os mineiros, segundo Alceu Amoroso Lima, nosso Tristão, que observou a circunstância, ainda aditando o domínio de si mesmo, um dos traços que deles molda o brasileiro britânico.

           Assim saí da Excursão apressada já preocupado com os amigos que eu fizera aguardar-me para um chá de despedida.

           A viagem pela Westminster completara, dessa vez, meu rápido encontro que então julguei convincente graças aos fantasmas que virtualmente se apresentavam tranqüilos em suas sepulturas.

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Published in: on outubro 18, 2008 at 4:33 pm  Deixe um comentário  

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