Debates sobre o estranho

Londres, 03.08.73, Sexta-feira

          Realizando o nosso encontro em Londres, Mestre Hannibal me passaria, em ato de consideração, o dirigir dos trabalhos. Seríamos dezoito, ao todo, os participantes do Colóquio.

          Pela manhã saímos, e com Antônio Olinto flanamos pelo centro financeiro, aguardando Pedro Gomes e seu filho para almoçar no Marco Pollo.

          Reminiscências do Brasil e de O Globo, onde era ele, então, o editorialista admirável, que substituíra notável escritor, Moacir Padilha, por motivo de grave enfermidade.

          Ambos redigiam, em seus respectivos estilos curtos e enxutos, as sutilezas que saíam do espírito da matéria que ora fustigava sem rancor ou discretamente exaltava aquele que radicalizasse ou banalizasse o coreto. Em casos especiais, quando não valia a pena definir-se, apelavam os irmãos Marinhos ao amigo Jorge Serpa para redigir os termos da concórdia. O dr. Roberto irritava-se com facilidade, seu irmão Rogério, o fino conciliador.

          Depois andamos por toda o centro financeiro, não dando a menor importância à chuva que caía intermitente, mas suportável. Alcançamos a foz do Tâmisa e durante o percurso, Olinto nos explicou que havia em mira fundar um jornal que apresentasse o Brasil à geração acadêmica inglesa.

          A idéia em si era boa, pensava eu, mas deveria caber ao Itamarati incumbir-se do assunto de sua responsabilidade. Pedro Gomes achava arriscado em face do momento político, embora a gestão econômica apresentava-se invejável.

          Jantamos mais cedo na Villa dei Cesare, e às dez horas, encontrei, e segui com Hannibal para a sede da Ordem. Refletira sobre o que dizer do Império Britânico. Hoje, em auto-crítica, considero a opinião superficial.

          Às vinte horas, em casarão amplo e antigo, sentamo-nos todos para a reunião.Os irmãos, em sua maioria, eram cientistas ingleses no campo da Física e Genética, sob forte influência didática de Schrödinger em sua versatilidade, mas especialmente interessados no tema da consciência e a realidade.

          Abri, como esperava, os trabalhos, expondo o que pensava do lema saxão de que todo trono se apóia em três pilares: o padre, o guerreiro e o trabalhador. Um milênio havia transcorrido, o guerreiro e o sacerdote uniram-se na guerra e na fé, a figura nova do trabalhador chegou ao palco onde a ética, a tecnologia e o sindicato juntaram-se na Ilha.

          Enfim, fitando os olhos em seis irmãos ingleses, acrescentei como complemento o ponto de vista de que o cientista será o guerreiro do futuro, o trabalho ganhou seu advogado permanente na luta pela sobrevivência, sendo que a ética evolve na própria tradição monárquica.

          A História nos fornece os elementos que explicam a atualidade britânica. Quando os saxões chegaram, impondo o sistema patriarcal, cujo princípio de co-propriedade era comum a todas as raças indo-européias, definia-se o futuro, fixava-se o projeto de Nação. Trouxeram os velhos costumes germânicos, já de fundo feudal e cristianizado.

          Invadida a ilha pelos normandos, no século XI, advém um povo que desenvolvera a literatura e a arte e vivendo sob instituições relativamente aperfeiçoadas. Procediam eles do mesmo tronco teutônico, já tendo alcançado o período militar e feudal. Porém, tendo no sangue a energia ardente.

          Aos dois elementos, sistema patriarcal, impregnado da ética católica e organização militar, de feição normanda, seria acrescentada, na era mercantilista, a organização do trabalho.

          Os velhos sistemas da Inglaterra, assinalara o clássico MacLeod, nunca foram abandonados pelos novos, foram sempre apoiados e reerguidos por estes, de sorte que os primeiros permaneciam sempre viçosos e recentes, crescendo uns com os outros como bojos das grandes árvores.

          Assim são os ingleses, desde as origens até os dias atuais, passando pelas diversas casas monárquicas, desenvolvendo, no estilo saxônico, a justiça social e os direitos individuais.

          Hoje chega ela à era da tecnologia, investe os seus recursos na ciência e na cultura. Com seus valores, ora parte a fim de privilegiar a área de serviços científicos.

          Após a meia-noite, entramos no debate teórico sobre a hipnose exposta pela ótica da Ordem, dispensada a nossa preocupação com o intento de como, muitas vezes, as experiências não se ajustavam à ordem teórica do que sabíamos ou pensávamos que soubesse.

          Principalmente no que dizia respeito às ligações da hipnose com a telepatia e a presciência, ou seja, o dom da previsão.

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Published in: on outubro 11, 2008 at 3:43 pm  Deixe um comentário  

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