A operação Suserano

Londres, Brighton,Wight 04.08.73, Sábado

Da janela de meu quarto, via Londres na madrugada. Igual a de outras cidades, mas diversa porque é a capital da Inglaterra, onde as pessoas recolhem-se mais cedo do que em Paris e Milão. Lisboa também é morta ao chegar a plena noite.

Hoje já é o sábado de minha última jornada da viagem. Amanhã estarei em casa, encontrando os meus suportes da vida, minha companheira, minha doutora. Criatura a entender-me no silêncio, quando me fixo nos exercícios do Ensino. A meu modo, certamente, que não se concebe a “personnalité” de densidade misteriosa, às vezes proustiana, diante do mundo sensível.

A seu lado, não estou só, partilhamos o tempo em sua invariância da finitude e não da eternidade.

Por que não cogitamos até os setenta anos acerca da morte? (Interrogo sem a hipótese da angústia como revelador existencial).Prefiro a solução dada por Sartre de que jamais o jovem recusa-se a ser um exemplo da lei físico-burocrática da morte ou para si a evidência da mortalidade genérica não o convence quando entre em jogo “a própria morte”.

Na velhice ela é uma resignação a priori, penso eu, simples mortal, não é o pensar filosófico, em razão de não haver como fazê-lo, se não existe nenhuma prova da sua existência, nem da nossa. Enfim, o seu inconcebível é substituído pelo projeto da vida que nos foi quase possível realizar, seguindo para as calendas gregas.

De minhas viagens, onde acordado me sinto quando possível, as estrelas no céu, nem eu próprio sei, ao tentar dormir, se estou triste ou não, curioso ou desinteressado na perspectiva do dia seguinte.

Agora, só, vejo o pátio do colégio, que fica abaixo do meu andar no Holiday Inn, em seu descanso da madrugada, pois às sete horas da manhã sou despertado pelos pequenos bárbaros que não entendem a função do repouso e de cujos confrontos subjetivos não nos esquecemos no curso das coisas. Amanhã, domingo, não haverá os alunos na balbúrdia do recreio.

Tomo de meu lápis para o registro do espaço daquele chão a dormir a fim de não esquecê-lo e gravá-lo no meu cansaço do dia.

Certo estou de que o observador perceberá que volto à infância por minutos e minutos para o correr de infinito anos há meio século atrás, de tê-lo de novo comigo como reencontro, no exemplo de Carlos Drummond, do velho álbum de fotografias desvanecidas.

Pelas sete da manhã, Hannibal me chamou da portaria, lembrando-me o passeio que à véspera nos resolvemos fazer de carro. Uma visita ao sul a fim de ver o Canal Inglês, de onde na invasão do dia D partiram os combatentes para a queda de braços com o Reich.

Dormira nada, mas me sentia disposto para ouvi-lo e perceber como o Mestre reagia ao passado reencontrado. Iríamos almoçar em Brighton e, como em gravuras, eu ouviria as suas revelações a respeito da invasão da França entre Havre e Cherbourg.

Tudo começara com o maior segredo, desinformações e disfarces. Sabia-se que o fato tinha de acontecer, mas não por aquela rota.

A lógica da lógica indicava o desembarque pelo estreito de Dover, a partir de simulações e alguns sinais que vazassem até o serviço de espionagem adversário.

A atuação aérea fazia crer, nos vôos de reconhecimento, que a operação seria pela rota mais próxima ao continente. Eram evidências tais, que a circunstância tornara-se transparente.

E assim se deu o engodo inicial. A partir daí eu ouvia de Hannibal que as forças de assalto evitavam trocar idéias sobre o que tudo aquilo significava, porque nem suposições se deviam falar e os próprios combatentes tinham consciência de que no caso o silêncio era de ouro.

As distrações não deixavam que os soldados pudessem entender a tática que fazia partir de pontos imprevisíveis pela distância e do modo extravagante para visar ao bombardeio prévio da Normandia.

Quis evitar perguntas, porque fiquei certo de seu silêncio quanto aquilo que ocorrera naquela barcaça que o levaria com os companheiros ao pedaço de praia jamais identificada por ele no pós-guerra. Bem que lá procurara o chão em que seus pés se apoiaram e onde seu corpo se lançara sob o fogo das metralhadoras.

Tinha de compreender as lembranças daqueles dois dias de espera que se entrelaçavam, misturando-se em seus instantâneos mentais, porque os fatos posteriores de combates sufocavam o que passara anteriormente.

O binóculo que usava dos locais próximos e além de Wight, ponto extremos a que chegamos, revelava as cartas do baralho, sacudidas em suas dúvidas até o momento em tomamos o carro e retornamos do passeio.

A distância em que nos achávamos, tomando como referência Portsmouth, convencera-o de alguma coisa importante em seu esforço de pinçar detalhes quanto às horas que passavam, causadas pelo mau tempo, como o de agora, além das incertezas quanto à sintonia necessária entre o luar e a maré.

Assim voltamos, dois contemporâneos do dia mais importante da Segunda Grande Guerra, vivendo o passado de nossas apreensões. Lamentei que o prezado Mestre estivesse a sofrer por um Irmão que naqueles instantes lutava pela mesma causa, sem a bravura dos heróis da operação Suserano.

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Published in: on outubro 11, 2008 at 3:44 pm  Deixe um comentário  

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