Assuntos Patrulhados

Porto-Londres, 02.08.1973 – Quinta-Feira

          Levanto-me pelas oito da manhã, visto-me e saio após o café. Meu último dia no Porto leva-me a correr a cidade. Estou só. Por Rua Santa Catarina, detenho-me na Praça D. João I e outra vez passo pela Avenida dos Aliados. Ao meio dia almoçamos todos no restaurante Varanda, junto à praia. Deixaram-me no Hotel após 4 horas, pois tive de ver o Forte e o navio encalhado.

          Sentei-me numa das cadeiras do Aeroporto a fim de aguardar o aviso de embarque. Abri meu caderno e devia ordenar os pontos de Comunicação. Matéria muito pensada fazia-se mister o roteiro. Mas a experiência de tudo que ouvira nos trajetos percorridos, me fazia deduzir que o sistema salazarista agonizava.

          Em resumo, apenas conhecera o litoral até Braga ao norte, de O Porto a Leiría, mas a ligação com as famílias Fonseca Guimarães e os Novaes facilitaram-me conhecer os Ramalhos, entre os quais o pai das esposas de José Carlos e João, advogado e bem informado, me confidenciou já existirem grupos militantes no norte dispostos a virar a mesa. Tanto José Carlos quanto João, do mesmo modo, posto que discretos, tinham feito o serviço militar em Angola, sendo que o último voltara ferido em combate com os inconfidentes.

          Não ocultavam, todavia, que a situação era delicada pelo fato de serem os conspiradores, acadêmicos das Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, convocados para servir o exército na chamada colônias Africanas.

          Em todos os contactos, com perguntas que fizera aos mais bem informados, manifestava-se, como em lamentação, quanto ao desencanto de Portugal não se modernizar, com a tese de que Marcelo Caetano insistia em seguir os rumos antigos tradicionalistas e coloniais.

          O depoimento que ouvira quando do segundo percurso, feito por Adelino, tio de José Carlos, acrescia que os militares já admitiam que das províncias ultramarinas viriam os próprios líderes.

          Quanto à minha ida a Londres, era inevitável e confirmara no Hotel meus bilhetes. Necessário atender Hannibal no sentido de encontrá-lo e havia outra tarefa curta relativa às impressões sobre os ingleses.

          Era preciso expor a minha Comunicação a partir de itens que facultassem o entendimento dos irmãos da Ordem. Hanibal me pedira para realçar a parte das experiências, e de início, dizer alguma coisa sobre a situação da hipnose ao modo do ensino esotérico. No primeiro tema citado, tratava-se de ponto de vista que adotara com base em sonhos. Que eram, afinal?

          Com alguns amigos, desde o decênio de sessenta, dediquei-me à troca de idéias com Karl Weismann e outros interessados na matéria.

          Basicamente, na juventude estudara Charles Richet e Renée Soudre em seus tratados de Metapsicologia.

          Posteriormente, iniciamos experiências com base em práticas. Não estava, em verdade, a fim de separar as espécies que constituíam as chamadas ciências ocultas, que, afinal, não eram nem ciências, muito menos ocultas. Nós a chamávamos ciências desconhecidas.

          Mas na área da hipnose, chegávamos a certas conjeturas que mereciam debates na Ordem. Agora fora intimado pelo Mestre Hannibal de apresentá-las com mais pormenores em razão de solicitações internas de irmãos neurologistas.

          O que mais complicava as minhas pesquisas era a ortodoxia de Karl Weissmann quanto aos estudos de Freud com relação aos sonhos. Sua discreta relação com o próprio cientista dava-lhe autoridade. Paradoxalmente, ele passara pela terapia hipnótica, deixando-a depois.

          Sem dúvida, meu amigo Weissmann era alemão e dominava não só o próprio idioma quanto o português. De forma que, fixado na psicanálise e no hipnotismo, acreditava reduzirem-se-lhe embaraços teóricos.

          Honrado com a dedicatória de um dos seus livros sobre a matéria, não queria meter-me em assunto de que era apenas pesquisador.

          Ademais, o interesse pelo campo dos estudos teóricos saltara sobre as pretensões da Psicologia que se desfaziam por motivo de divergências entre seus clássicos. Uma série de mestres confrontava-se em batalha que nos fazia lembrar as vacilações kantianas em torno do que era ou não dualismo e monismo. Havia ou não outra ciência diversa da procedente de Aristóteles até Einstein?

          Desde que Jacques Monod formara sua equipe de pesquisadores, insinuando-se no terreno do próprio evolucionismo polêmico, a sua curiosidade intelectual chegou até nós, discípulos então de nosso professor Hélio Gomes que nos atraía para aulas no Instituto Médico-Legal, chamando a nossa atenção para tipos de estudos à maneira francesa do grupo de Georges Dumas, organizado em seus dois volumes do Tratado.de Psicologia.

          O próprio, que participou seriamente, H Delacroix, C. Blondel, A. Rey, H. Wallon e outros engajados que nos atraíam literariamente, mas já na década de cinqüenta O que é a Vida, de Schrödinger nos fez ver o trabalho conjugado de pesquisadores e o salto que ia ocorrer no campo da fisiologia.

          As funções sistematizadas da vida mental ali estavam em torno de Janet, Ribot e Piaget, contribuindo todos para a escola freudiana, incluindo os discípulos rebeldes no nível de Adler e Jung.

          Pena é que nos sentíamos frustrados por falhas de nosso curso ginasiano, sem dúvida por motivo explicável de que a reforma de ensino de Francisco Campos não dera sinal de que o segredo da vida estava além de sua preferência pelas chamadas Ciências Naturais.

          Comigo, a tentativa de Augusto Comte pecava pelo formalismo de dois princípios discutíveis, ou seja, da complexidade e da generalidade.

          Eu tinha a noção de que a literatura constituía a base da antropologia cultural, que não se distanciava da Filosofia. Desse modo, a matemática não devia figurar na classificação das ciências porque ela é a própria ciência. Ademais, as disciplinas Física e Mecânica se confundiam, do mesmo modo que a Química que abrangia a Biologia.

          Tudo mais eram matérias, que não podiam irmanar-se à ciência. Seriam discípulas. Por exemplo: economia, direito, sociologia. Quando muito eram companheiras de viagem, como no caso da econometria, história e moral.

          Era isso. Espécie de sistema planetário com o astro no centro de onde comandava os planetas girando ao seu redor, acompanhando-o em direção à constelação de Hércules. Em alguns casos dominava satélites dóceis já vestidos de gelo. Enfim, a gravidade comandava as rotas no universo.

          Se eu me aventurara a entender assim o tipo de classificação, não me envaidecia, nem me sentia paranóico, pois não se abafam idéias, sejam de quem seja.

          Quando já maduro, rasguei em certo fim de semana, todas as razões que me levaram a pensar a tese nesses termos. Acatei a voz interior que me dizia: “quem és tu para tentares uma coisa dessas?” Era a forma interrogativa que me fez calar.

          Não podia haver melhor motivo para silenciar um pretensioso. E acrescia que tinha descoberto a matéria que não constara de meu ginásio, nem da Medicina Legal que estudara ao final do curso de Direito.

          Tratava-se da Genética que alavancava com furor entre os interessados em medicina e filosofia. Tudo se devera a Jacques Monod. Era naquele começo do decênio de cinqüenta: herói da resistência, cientista e filósofo, maestro notável e abriria o atalho para as futuras descobertas da Genética.

          De um modo geral, eu acompanhava em revistas científicas os debates oriundos das experiências em torno da hereditariedade. Daí meu interesse à possibilidade de serem os sonhos combinações desencontradas de fatos reais oriundos de vivências de antepassados, independentemente da ordem cronológica. Mas não desejava prosseguir no campo das hipóteses e sim era preciso esperar mais alguns anos para que a Genética seguisse em seus saltos. A descoberta do memes seria o primeiro patamar, DNA, o segundo.

          Deitei-me tarde e me pareceu estranho recordar que pela manhã andara pelas ruas d’O Porto, de nosso almoço de despedida no Varanda e ora, pronto para dormir, acabara de vir ao encontro com brasileiros aqui residentes como Juca, diplomata e pintor, Selene, meus amigos Zora e Antônio Olinto, e o dr. Schatz, figura interessantíssima.

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Published in: on outubro 4, 2008 at 4:47 pm  Deixe um comentário  

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