Até onde se punham os Romanos

01.08.1973 – Aveiro, Conimbriga, Coimbra

Quarta-Feira

          Rodamos desde cedo por aldeias diferentes, descendo para locais que nos pareciam singulares, rápidas visitas às velhas igrejas e capelas. João ao volante não me deixara dirigir. Notei que Maria da Glória perdera o constrangimento e passara a falar-me, excluindo o tratamento de senhor doutor.

          Nosso rumo estava no litoral da Beira, com a graça de estreita e bela lagoa, barrada por comprida restinga como a nossa de Marambaia, cheia de pequenas ilhas que se situam juntas a Aveiro. Ao traçarmos a reta para a vizinha Beira Alta alcançaríamos Viseu, mas nosso destino é litorâneo, tendo Coimbra como alvo.

          Almoçamos em Costa Nova, próximo à praia. A aragem do mar soprava sobre a cidade com certa irritação. O peixe é trazido do mar ainda sob protesto e o vinho verde é obrigatório, pois forte é o domínio do Douro, que já ficou para trás.

          O Mondego, relativamente caudaloso, atravessa o centro histórico onde veremos Santa Clara, a Velha, por ele atingido no primeiro andar, tornando-se inatingível.

          Após uma volta pelo centro histórico, seguimos para Coimbra, antes visitando Conímbriga, a poucos quilômetros.

          As ruínas da cidade romana foram exumadas no começo do século e não dispunham de qualquer apoio turístico, salvo o chafariz da praça central que fora restaurado e, pois, podíamos vê-lo como no tempo das milícias romanas.

          Mas tão sedutora a visita, que a pé circulamos por suas ruínas, vendo sempre ao redor as muralhas imponentes que a defenderam até o dia da destruição pelos suevos.

          Estou no passado romano, abrangendo o fluir do tempo entre Augusto e Adriano. Já os antecessores do último perceberam que Roma devia reduzir a extensão do Império a fim de defender-se das migrações de tribos mongólicas e vândalas que, cada vez mais, ocupavam territórios desde o leste balcânico ao norte da África.

          Esses povos nômades, convencionalmente chamados de bárbaros, não visavam a conquista em si, a submissão pura e simples dos habitantes; tratava-se de revolução social disfarçada, que não nutria preconceitos, acatando a miscigenação. Em verdade, também enfrentavam resistência feroz. Havia chefes sofisticados, como Átila, poliglota, cheio de si a ponto de esnobar belas romanas, permitindo que seus soldados repetissem-lhes o refrão: “por onde o meu cavalo passa, as ervas não crescem mais”.

          O romano, em sua casa de campo, via aparecerem como em sonho, aquelas lindas louras de cabelos soltos, descalças, sumariamente vestidas, em companhia de crianças e adolescentes, a deixarem transparecer com naturalidade que pediam água ou alimento. Satisfeitas sorriam, e logo outro grupo de homens maduros e jovens, também estranho do ponto de vista da etnia, aproximava-se de cajados que pareciam meros instrumentos de defesa contra animais selvagens.

          Ali não estavam para ataques ou agressões, pediam primeiramente, em forma de amparo, o local para o repouso.

          Outras vezes, ao contrário, eram poucas dezenas de tribo que se fixavam para posse a fim de ocupar abrigos ou buscar qualquer caverna onde se defendessem. Lembram-nos a contingência em nosso tempo: os nordestinos expulsos pela seca e miséria, descendo para as metrópoles do sul e buscarem nos morros das cidades os pontos em que pudessem constituir a sua favela.

          Vinham, do mesmo modo pelas estradas, os mineiros punidos pela depressão dos anos trinta, considerando-se os grupos interligados pela solidariedade da sobrevivência. Jamais houve esbulho sob as circunstâncias apontadas, sendo que o revide só nascia diante de ação repressora.

          Como já me habituara em outros espaços, encontramos a velha Conímbriga apenas com funcionário que ligara o chafariz, enfim, o último governador da cidade.

          O mesmo sentimento do passado remoto que me atingira em Roma e Milão alcançava-me na extremidade ocidental portuguesa.

          Imagino o que foram aqueles dias em que os suevos derruíram muralhas remanescentes da cidade, pois já houvera outras tentativas de invasão, para obterem a rendição, submeterem as tropas de ocupação romana, consideradas pelos flavianos inexpugnáveis.

          O espaço-tempo em que me encontrava com os companheiros de agora era quântico para a minha consciência porque eu os via do ponto de vista de outro sentimento a fluir de um Poder, cujo símbolo vinha de Júlio César, quando os romanos apenas começavam a temer aquelas migrações sem fim, que chegavam como ondas para a sobrevivência.

          Não havia mais, ali, sítio latino ou forte romano; era para mim o ponto final de ocupação desordenada que dominara até o século V.

          Necessário aceitar que aquelas pedras em profusão, resultado do confronto, só se entendiam em função de Roma e sua decadência, vivendo os anos finais da velha opulência e brutalidade e cuja síntese só foi captada pelo estoicismo de Marco Aurélio, ponto final de tudo.

          Em minha consciência desenvolvera-se a idéia do holismo relacional e me sentia então o elo que se conjugava com o fim do imperialismo romano e o nascimento de novo continente, nascido onda quântica, com todo aquele amontoado de materiais destruídos pelo que seria simplesmente a massa. Tudo uma só ímpeto, idêntico fenômeno, não complementarizado, na concepção da física de Niels Bohr, mas condensados no entendimento de Bose-Einstein ou modelo mecânico-quântico da consciência.

          Este último citado, o criador da relatividade, exprimiu-se certa feita que a concepção quântica sugeria-lhe um sistema de ilusões maquinado a partir de pensamentos incoerentes.

          Lucrécio, poeta romano, discípulo de Epicuro, sentiu, de modo transcendental, a conjugação. Sem nada saber da partícula e da onda, menos ainda da existência do elétron, sentiu-as entrelaçadas por raízes comuns e não poderiam ser separadas sem resultar em desastre ou em mistério eterno. Os dois, onerados por vida comunitária, pelos movimentos de interação, fazem ensejar que a chama da consciência se acenda em nossa carne.

          Dessa forma, instruído pelo poeta, e amparado por intuição de Danah Zohar, dava eu o passo a frente naquilo que queria entender quanto à importância do desempenho daquele sítio em dois fatos históricos inteligíveis na atemporalidade.

          Naquele solo que então pisava, desde milênio e meio de anos, se deixara sepultar pelas cinzas das estrelas, e só no século XX apareceu tão próximo a Coimbra do Novecentismo como símbolo de nova era.
Marcava-se novo traço para outro destino. Tinha início o Portugal de sempre enquanto nele se processa uma paidéia a partir de atlantes, lusitanos, celtas e recebendo as tribos suevas, visigóticas, islamitas e clãs judaicos, criando a cepa arcaica em contínua linha étnica de atual homogeneidade.

          O Império português seria, pois, igualizador, dirigindo-se aos padrões que herdavam da romanização e do cristianismo, as virtudes do idioma com as vistas voltadas para a paternidade greco-romana. O material humano é mongólico ou germânico, notadamente visigótico, sem ter perdido a essência das coisas, vinda civilização perdida na última tragédia da era do gelo ou glacial.

          Prosseguimos em nosso alvo, até a Universidade, apenas com curta parada para a visita a Sé. A tarde avançara e no campus onde o monumento em memória de D. Diniz, demoramo-nos para ver da amurada a visão de Coimbra atual no crepúsculo que chegava.

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Published in: on setembro 27, 2008 at 4:27 pm  Deixe um comentário  

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