Porto e adjacências

Lisboa-Porto, 30.07.73, Segunda-feira.

          Acomodo-me em poltrona no salão de embarque do Aeroporto, uma pessoa se põe diante de mim com pergunta direta:
          “És brasileiro, não?”.
          Respondo que sim em meu sotaque mineiro.
          “Eu, do mesmo modo, retornou ele, mas o reconheci pela maneira descontraída de observar, de vestir-se, sem o formalismo daqui. Sou engenheiro cá trabalhando, meu nome é Gilberto Bodin”.
          “Muito prazer, respondi, estou de passagem e vou até o Porto”.

          Então, a voz feminina anunciou pelo alto-falante o portão para o meu vôo e lhe estendi a mão para a despedida. Falamo-nos e não mais nos encontramos.

          Parto às llh10 e desembarco cinqüenta minutos depois. Guardo, até hoje, uma tira de papel com os dados do meu destino: Rua das Doze Casas, nº 12, Hotel Castor. Nele me hospedei no aposento 357, de onde via a cidade fervilhando de gente.

          Estava só para o almoço, pois José Carlos tivera serviço importante a fazer em seu local de trabalho. Quase vazia a sala de refeições, tomei o porto e pedi a truta com Dão tinto, e fiquei a relembrar o trajeto do Aeroporto.

          Atravessei a cidade em táxi vagaroso, o motorista amável e o meio dia pleno davam-me a impressão de muita atividade.

          Porto é antigo, de ruas estreitas, casario regular, parte pré-pombalina, o que lhe imprime autenticidade com seus sobrados de azulejos, as igrejas a sucederem-se. Lembra-nos São Luís do Maranhão e centro historio do Rio: a Rua do Mercado, o Beco do Bragança e ruas próximas ao Largo de S.Francisco.

          Saí para pela tarde até a Praça dos Aliados, ampla, belíssima, e pus-me a lembrar meu avô, que dela tanto falava quando de suas lembranças. Ia eu a reparar as fachadas dos prédios, do século dezessete e porventura anteriores.

          O que a Avenida das Nações Aliadas me transmitia, em seu panorama era o espetáculo que fazia lembrar o Rio de minha infância e adolescência, nos finais dos anos trinta e durante os quarenta; os cafés com mesas para os fregueses, onde as pessoas se punham, tomando o copo d’água, abrindo o jornal e a ver distraídos os transeuntes a caminharem apressados nas calçadas.

          Sentia-me descontraído, a avaliar aquela suave inclinação que vinha do belo palácio da Bolsa. Enfim, o Porto tão falado em minha cidade natal, de onde a colônia portuguesa em geral procedia.

          Encontrava-me ora em seu berço, nos arredores que cercam a Sé, impávida, testemunha de mil anos de história de lutas, desde a expulsão dos árabes até a vitória do liberalismo em seu sistema constitucional.

          Nesse ponto nos encontramos politicamente para seguir caminhos diversos com sentimentos idênticos de repúdio a preconceitos, e cada qual sofrendo a obstrução de outras ferozes limitações da Contra-Reforma ao desenvolvimento econômico, à economia de mercado, inclinados ambos os povos ao nacionalismo.

          Retornei pela Rua Santa Catarina, congestionada pela hora do rush, sentindo o pulsar daquela gente que voltava ao trabalho da tarde.

          Pelas seis horas, José Carlos chegava ao Hotel em companhia de João, seu irmão, e da esposa Maria da Conceição, nascida Ramalho, sobrinha neta de Alice, irmã de meu avô.

          Visitamos a Sé, girando de carro até o pátio de onde saíra a estranha cruzada portuguesa. Lá demoramos pelo valor simbólico do marco de onde partiram os templários. Fechara-se àquela hora, após a missa.

          A Catedral, estilo gótico-renascença apresentava-se imponente, comovedora em razão daquele colosso, em sua fachada lateral. Mas senti bastante não ter podido lá entrar a fim de ver a imensa riqueza arquitetônica. O tempo corria e jantamos em restaurante de cuja altura se via toda a cidade iluminada.

          Pelo começo da tarde, caminhara pela rua da Alegria, que segue até o Douro. Amanhã iremos à cidade de Lixa, comunica-me José Carlos, cujo nome me traz à lembrança as referências da família em quadros sucessivos do tempo a se perderem na caminhada da vida.

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Published in: on setembro 20, 2008 at 4:07 pm  Deixe um comentário  

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