As cidades do Norte

Lixa, Guimarães, Felgueiras, Braga, Citânia, Bom Jesus do Monte
31.07.73, Terça-Feira.

          O carro rodava pelas estradas do interior. A alma das coisas, as criaturas da província olhavam-no habituadas, mas com a discreta maneira da gente local. Senhoras vestidas de negro, viúvas inconsoláveis, moças de expressão natural, sem pinturas e com os cabelos presos, saias compridas até os tornozelos e que lhes disfarçavam as formas me fazendo correr pelas lembranças das leituras da puberdade, dos romances de Camilo, Júlio Diniz até a chegada da escola realista.

          Uma ou outra moça era fausse maigre. Necessário observar a cintura para vê-la que não mentia.

          Vinha-me a lembrança de Saint-Hilaire em suas viagens a Portugal e ao Brasil, a propósito da mulher do interior naquela sutileza de mostrar a graça, disfarçando-se com o recato às vezes exagerado. Fiz as restrições, quando o li, no que toca de ser ela reprimida pelos pais e irmãos.

          Nosso José de Alencar pareceu-me na época de sua leitura o observador melhor quanto à brasileira em geral, seguindo as regras lusitanas. Mas a pintura portuguesa de Joaquim Lopes apresenta-se mais acadêmica nos pormenores como a tela Feira Minhota e ainda João Reis, em mesma escala, a respeito da postura feminina e sua tranqüila discrição.

          Jamais os pés em nudez para desespero dos fetichistas. Ao contrário dos modelos do Renascimento, em especial Rafael, inspirado em seus antecessores. Nada de ausência de meias, provavelmente em razão de tornozelos.

          Eu comentava com os meus novos amigos como tudo aquilo me vinha à alma, como se fotos do interior mineiro viessem ao nosso encontro.

          Chegamos a Lixa bem antes das dez horas, visitando a família e partindo para a casa defronte de D. Emília Novaes, lá à espera. Recordações em atropelo escapavam de minha consciência em plagas próximas e distantes.

          D. Emília, década de trinta, residindo no interior de Minas, me seguira de menino a adolescente, amiga de minha mãe, comadre de meus tios maternos.

          Acabávamos de passar por Guimarães, percorrer o Castelo, sentir o hálito de Portugal a nascer sob a égide de um Príncipe que seria o seu primeiro rei. A pé, caminhamos, sentamo-nos no pequeno bar e José Carlos me indicou na calçada do outro lado da rua: lá a seguir está um primo vosso, um Alves. Estava a muitos metros e deixei de conhecê-lo.

          Quando passamos por Felgueiras e Fafe percorria o território de antepassados maternos. A mais importante figura da família fora Cândida de Novais Alves, minha bisavó, cujo marido lhe daria o sobrenome de Freitas.

          Os Novais eram da nobreza local e com brandura não se mostraram satisfeitos quando um sentimento inesperado levou a minha bisavó apaixonar-se por um Freitas, de raiz celtibera, muito antiga, mas remediado em sua pequena quinta. Para agravar o orgulho dos Novaes havia um parentesco próximo no Século XVII com os cristãos novos dos Carvalhos, antepassados do Marquês de Pombal.

          Porém cederam, e curiosamente meu avô, que emigrara, trouxe os primos para o Brasil, onde todos se entregaram com bom êxito ao comércio de café.

          Então na ida passamos por Felgueiras e fui apresentado a Alves e a Novaes que conheceram o meu avô em suas visitas a Portugal, sendo a última em 1929. Interessante que percebi que os Novaes ainda mantinham pleno conhecimento da genealogia, enquanto os Alves me pareceram indiferentes àquela preocupação.

          Lixa, Borba de Godim no Oitocentos, pequena aldeia, vestida de passado. Aqui nasceu Leonardo Coimbra, o filósofo, presente na geração de pensadores portugueses do século XX. Pequena cidade, mas movimentada em sua rua principal por ser atalho de diversas passagens para aldeias e vilas próximas.

          Em nossa chegada, paramos na quinta, onde meu avô nasceu, descendo diante da casa a fim de lembrar-me do que me contava a propósito de infância. A pé percorremos toda a área de parreiras. José Carlos me levou até a casa, habitada por conhecidos. Naqueles quartos o velho Freitas até os treze anos morara com os pais e meio século depois, de 1903 a 1905 lá vivera a minha mãe.

          Sentira, então, em minha consciência, a condição material do tempo atingindo-me o corpo, fazendo-me pulsar o coração, confundir-me o sentimento na unidade do espírito-corpo. Em seguida, circulamos por baixo das parreiras, estando já em condições de recuar quase um século para reconhecer no que via coincidirem as referências passadas de meu avô a respeito da infância na quinta dos Freitas.

          Depois, ocorreu a visita ao sobrado da família Fonseca Guimarães, conhecido por todos como Casa da Cruz. A mesa posta para o chá que nos aguardava, o pão de Lot de Felgueiras, as perguntas das moças.

          O referido pão de Lot, Loth em hebraico, espalhara-se por toda a Europa, chegara ao Brasil e carregava nos braços a economia da cidade. Visitamos a Fábrica, passara da etapa do estilo caseiro, para o industrial. Máquinas inglesas centralizavam o enorme bolo, que mantinha, no ritmo da produção vinícola, o orgulho industrial de todos.

          Após o almoço com D. Emília e Antônio Novaes, eu e João partimos para Braga, levando Maria da Glória e Adelino, tio de José Carlos que conhecera meu avô e minhas tias em 1929, quando da visita à Lixa. Revezamo-nos na direção, de quando em vez parando em alguma aldeia.

          Adelino foi a primeira pessoa que me confidenciara de que no Porto havia grupos a reunirem-se e participando da conjura para a derrubada do Governo e a democratizar Portugal no modelo dos sistemas democráticos. Rompendo com o meu espanto diante de sua indiscrição de conspirador, falei a José Carlos que dirigia o carro, se havia procedência ou se aquilo era sonho do indiscreto.

          Nada sei a respeito com segurança, a não ser os boatos. Mas creio que os dias do salazarismo estão contados.

          Em Citânia, apesar de certo abandono, saímos para subir a colina onde as moradas celtas sofreram devastações durante séculos. Eram de pedras e fechadas quanto a perigos das eras das migrações de lígures, suevos e visigodos.

          O destino seria Braga, a Sé, onde as pedras de seu portal se desgastaram. O jovem Padre que nos acompanhara na visita dava os pormenores daquele monumento de fé. Contei-lhe da expressão no interior do Brasil a respeito da antiguidade da Sé. Seu rosto iluminou-se e observou, fitando-me os olhos com suave agradecimento, “é a mais antiga Catedral da Europa”.

          Guardava referências do sertão aonde os portugueses levaram refrães do período da mineração. Uma delas, inesquecível, que definia a duração de reformas nas Igrejas como “obras de Santa Engrácia”.

          Um dia as faremos aqui, acrescentou ele, se demolirmos a parede da sacristia que está a guardar riquezas do tempo de D. Fernando, o Formoso.

          Pelos finais da tarde sentimos que o apetite chegara e João lembrou-se de certa casa de pasto em Bom Jesus do Monte e para lá partimos, sendo eu vencido, pois queria ficar mais tempo em Braga, em sua praça.

          Afinal, Leça do Balio, a visitar a casa de José Carlos. A Rua Gondivai era a mais longa da cidade, a principal, de onde se seguiam vários caminhos, inclusive o mais curto para o Aeroporto.

          Só pelas tantas voltei para o meu quarto, levado com a recomendação de sairmos cedo no dia seguinte.

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Published in: on setembro 20, 2008 at 4:13 pm  Comments (1)  

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  1. Olá Paulo,

    li seu relato sobre sua viagem pela região da Lixa e reparei que você conheceu membros da família Novaes.
    Bem, eu sou neto de Esther Novaes, dessa mesma região, que veio para o Brasil com os pais Antonio Pinto Novaes e Aurelina da Conceição Pinto Bastos. Talvez sejam todos da mesma família.
    Gostaria de saber se você ainda mantém contato com eles. Caso positivo, seria possível me passar algum nome? Eu gostaria muito de conhecer minha família de lá e sua ajuda poderia ser um bom começo.

    Deixo meu e-mail para contato: virgiliogalvao@hotmail.com

    Grato,

    Virgilio Galvão


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