O imaginário simbólico lusitano

Lisboa, 29.07.73 Domingo

          Tudo silencioso, quando acordo e me levanto. Eu me animo quanto à lembrança dos anos quarenta. Dois oficiais ingleses, meus companheiros na missão de que pouco sabia, aquiesceram seguir-me pra necessário lazer. E indo de táxi até o Castelo São Jorge, lembrados de que era domingo, descemos com vagar, observando o passado, os miúdos a correrem pelas ruas estreitas de Alfama, os nomes estranhos que lhes soletrava antes da versão.

          Já quase meio dia e meia, quando retornamos para Praça da Limeira, decidindo-nos almoçar, cujo prato escolhi pelo nome original: bacalhau ao murro.

          Tudo aceitavam os ingleses e provavelmente o relatório que produziriam para o Setor de Controle não iria referir-se a séculos pretéritos. Bem, disse quando nos levantamos, vimos o sítio da judiaria, e passamos os olhos na da mouraria. Este último parecia ter sofrido um bombardeio.

          Hoje, estou só e nada mudou nos últimos trinta anos. Minha visita após o almoço no Escorial, estava atravessada pelo sentimento pessoano. O poeta tudo fizera para que Portugal não saísse de suas Mensagens. Curiosamente, os heterônimos são espíritos gêmeos.

          Sentara-me na saleta da entrada, pedi ao gerente uma folha de papel pautado e o vinho do porto que sempre me apetecia, traçando o meu estado de espírito naquele dia último em Lisboa. Era o que a nostalgia me ditava

Quero estar e não estar presente e distante na Praça da Figueira.
Subir pelo Chiado e longe desejar o retorno, na visão derradeira.
Se volto ou não, se permaneço, se as pedras ficarão, se eternas
vão marcar lembranças indeléveis, pouco importa.
Caminho só e mudo, quando muito na estranha direção de intento carregado.
Súbita vontade de abandono, de apagar as luzes, de recuo no tempo,
Seja para frente, ao futuro, em novas aventuras, ou seja, ao tempo imaginário
na mesma cor da tarde falecida, da noite fatigada.
Enfim, no giro da mesma estreita e gasta trajetória.
Perturba-me o passado pela Glória, na íngreme subida com amargura;
No ritmo do sonho em escalada, cá na esquina em que despontam
A Praça, o poeta, o castelo, o derrotado.
Aqui o sentimento de tristeza no traço de um presente, luz e vida,
Se seguir e voltar, hoje ou depois.
E desço para o Tejo em curva caminhada pela deserta Alecrim, rua
em dia que foi e que será.

          Sobrara linha apenas do almaço sobre a mesa e datei o dia 29 de julho de 1973. Véspera da partida final ou transitória.

          Em Portugal projeta-se em nós a compulsão da portugalidade. Há qualquer força do destino envolvido em névoa, como a Ouverture da ópera de Verdi. Tomemos a geração de Coimbra ou Conferências do Cassino.

          Eça de Queiroz escandalizou a classe média com o Padre Amaro, a elite burguesa com o desafio do Primo Basílio, a própria nobreza ao modo do sarcasmo do naturalismo, mas o que nos alivia a alma é o retorno do Príncipe à velha quinta em troca do esnobismo parisiense.

          A volta discreta à saudade, ao tradicionalismo em condição de fantasia e o valor da lembrança que dele veio se aproximando desde a Ilustre Casa Ramires até A Cidade e as Serras.

          O irreverente Antero de Quental, dos desafios à fé, ateu e revolucionário a converter-se e, sobrepujando o discípulo de Coimbra, a matar-se no silêncio da praça mística de Ponta Delgada. Aqueles que retraíam, buscando a política como Teófilo Braga, a história, como Oliveira Martins, a esmerada forma poética como Guerra Junqueiro, traziam sempre na parede, como em quadro, o tempo de acadêmicos, invocando a presença de Antero, supostamente o mais forte deles, entre os Vencidos da Vida.

          E os demais. Porém todos a reprimir a aspiração à força misteriosa que vem do princípio dos princípios, juntada à razão como a denominou o espírito inconfundível de Antônio Quadros. Para ser claro, os atlantes, antes dos lusitanos, seus descendentes, celtizados, e depois romanizados, formadores da cepa arcaica.

          Em nossa vez, a geração de setenta do Recife dispunha de Tobias Barreto que, como ator, desempenhava o papel de chefe de escola, mas ele próprio e os discípulos do tempo não se radicalizaram porque lhes faltavam os mitos necessários e apegaram-se ao que era avanço nas ciências e duplicidade na filosofia. Tobias a querer conciliar monismo e dualismo, Sílvio no evolucionismo leve de Spencer, recorrendo à polêmica exagerada.

          O Direito, que, afinal, é meio de vida, nem ciência, nem pensamento, serviu-lhes precariamente de trapézio para a forma legal e única de sobrevivência.

          Já agora sou outra pessoa, não mais quase adolescente daqueles anos de guerra, passo pela Brasileira, como por encanto coloco-me ao Balcão e peço uma bica, observando que a xícara servida era a mesma da Rua do Catete no Rio, apenas o açúcar era mascavo.

          Só, no jantar em homenagem a tarde que como relâmpago atravessamos de taxi, tomo o vinho verde tão natural em leveza, gelado a exigir, como preâmbulo, três taças de vinho do Porto.

          Sempre foi assim, disse-me o garçom em resposta, quase a imitar o velho do Restelo, cujo discurso gostaria de tê-lo de memória. “Quando chegam aos sessenta anos, estão a lamentar a cirrose dos prazeres da juventude”.

          Faria desde aquele dia sólida amizade àquele moço que numa futura viagem não mais o encontrei para advertir-me, sabendo que morrera de tuberculose.

          Estou cansado, mas vou ao Sacavém para confirmar minha ida amanhã ao Porto, encontrando quase a fechar as portas do Leão D’Ouro para viver a minha solidão no passado. Antes, porém, girei a procurar o velho e não o achei.

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Published in: on setembro 13, 2008 at 4:30 pm  Deixe um comentário  

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