Após muitos verões

Lisboa, 28.07.73 – Sábado

 
          Embarque no Rio às seis horas da tarde. Escala no Recife. Tentava ler, mas a turbulência perturbava. De olhos fechados, partia para encontrar-me com José Carlos Pereira Fonseca Guimarães no Porto a fim de tomarmos decisões quanto a imóveis de seu clã, cujos inventários tramitavam desde os anos setenta do século XIX.

          Joaquim da Fonseca Pereira Guimarães obteve o formal da partilha dos bens que deixava a oito filhos, prosseguindo-se o sucessório por quatro gerações no século passado, em geral, de minhotos residentes no Porto e em cidades vizinhas.

          Parentes meus próximos, os Novaes, apresentaram-me o primo distante José Carlos em 1968, o qual articulara número expressivo de seu ramo para receber os correspondentes quinhões após extinção do condomínio.

          O que me surpreendeu depois de levantada a genealogia dos ramos em número de oito, é que todos assinavam os mesmos sobrenomes, inclusive a recente linha dos tetranetos do patriarca Joaquim, que no Brasil residiu, faleceu e deixara bens imóveis no centro da cidade.

          Mas o que me espantou ainda, e muito, era o número de herdeiros e de famílias outras vindas em razão de matrimônios que se entrelaçaram durante três séculos  Imaginei, então, que em quatrocentos anos expressiva parte da população minhota seria habitada por primos a assinarem Pereira Fonseca Guimarães.

          Não foi fácil enumerá-los em ordem de sucessores, pois em quase todas as gerações os prenomes também eram, com raríssimas exceções, os mesmos.

          Extraordinário exemplo de tradicionalismo e sentido sadio do clã, procedente, segundo pesquisas, do espírito dos visigodos no tempo de D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal, nascido em Guimarães no século XII.

          Guimarães vem do germânico, genitivo de guimara; o primeiro elemento é o gótico weig, significando luta; já o segundo é mahrs, cavalo, daí, cavaleiro combatente, conforme a reflexão de Meyer-Lübke. Estão, pois, na etimologia as raízes do clã, o que batia com a figura física de José Carlos.

          Interesse outro que me dizia respeito é que conheceria os parentes de meu avô de linha materna, que chegara ao Rio de Janeiro no meado dos anos setenta do Século XIX.

          Mais ou menos a par da genealogia dos Alves, Novaes e Freitas no Minho, saberia também pelos primos distantes em Lixa, Guimarães, Felgueiras, Amarante e Porto.

          Em conclusão, tudo ocorria na transição entre a era moderna (l789) e contemporânea (l914), ou seja, Século XX. 

          O lado paterno de minha mãe procedia de Lixa. O materno, dos Funchais, era de raízes árabes, vindos no século dezessete da Ilha de Madeira. Já Garcia, meu bisavô, tinha origens ibéricas, Galiza e Minho.
 
          Afinal sentia-me ansioso para desbravar os liames a mim tão caros em razão do caráter de meu avô, do carinho que sempre me prestara. Porém, por tradição familiar, a maior figura procedia dos Novaes, sobrenome de baixa latinidade, Nobales.
         
          Ela, D. Cândida Novaes, da velha nobreza rural, desafiou o orgulho da família para casar-se com descendente de celta, meu bisavô, cujos bisnetos conheceria em Leça do Balio, próximo ao Porto, duas louras de olhos azuis muito parecidas com minhas tias brasileiras Áurea e Maria de Lourdes, nascidas na Mata Mineira.
 
          Chegara em vôo da Varig às dez horas da manhã, hospedando-me no Americano, na rua Primeiro de Dezembro, 73.

          Estava-se em pleno passado, no tempo da Revolução Industrial Inglesa, aquela que o Marquês tentou, mas não conseguiu em razão das emigrações, enfim, digamos, da falta de recursos humanos, financeiros e culturais.

          Convencido de que seria o começo de amizade a meu querido Portugal, com a mesmo trajo amarrotado pela viagem, saí para o Rocío, cujas lembranças já pareciam sonhos de tempos idos e vividos.

          Sábado, passado o meio dia, pouco movimento nas praças e em suas transversais na Baixa erguidas por Pombal após o terremoto do Setecentos. Girei pelos quatro cantos, despertando a memória de pessoas nunca mais vistas, com exceção de meu cunhado que por ali estivera comigo rodando e me fazendo mergulhar em decênio para mim distante.

          Já passava do meio dia até o ponto que cheguei; era quase um quilômetro, casa de pasto denominada Choupal, indicação de meu instinto, onde encontrei um vinho – Pompilho, das Caves dom Teodósio, que não bebia, creio, desde os anos quarenta.

          Acabei a refeição e para o lado da Praça Pedro IV caminhei, antes cruzando a  Rua Augusta. Quando o cansaço veio de vez, resolvi-me a jantar no Arameiro, encontrado e reconhecido subitamente ao primeiro olhar.

          Retornei, entrando pela Estação do Rocio adentro, questionando o passado: onde estaria a jovem que conhecera em 1944, desaparecida com aceno que me parecera melancólico, cabendo indagar-me o que teria ocorrido.

          Pois, em nosso primeiro e último encontro, despedimo-nos sem embaraço, sem assédio qualquer de minha parte, à porta de sua casa, tendo ela se definido com os quatro versos de Florbela Espanca.

          Anos depois, li-o por inteiro, encontrando na primeira estrofe o significado definitivo do adeus.
         
Só uma razão justificava-lhe o sentido. Quando saímos do evento, eu fiz qualquer pedido que ela desvendou em sua percepção daquele tempo de guerra. Mais ou menos a poetisa profetizara: Altiva e couraçada de desdém, vivo sozinha em meu castelo: a Dor: passa por ele a luz de todo o amor…E nunca em meu castelo entrou alguém.

          Algum erro eu praticara, que poderia comprometê-la naquela situação tão crítica para a sua pátria? Estaria naquela ocasião sendo vigiada pela Pide? Não houvera sentimento de risco que explicasse sua suspeita a respeito.

          Prossegui solitário pela Avenida, retornando depois pelo lado contrário até as Portas de Santo Antão. Era um impulso da saudade, daquele passeio corrido.

          A estátua do Marquês de Pombal, bem no centro do trajeto, confere ao visitante o privilégio de percorrer quase mil anos de história. 

          Durante a refeição, como em prece, aguardara o manifestar de minhas dúvidas quanto ao destino de Portugal, preso ao tradicionalismo salazarista que o tornara monolítico em seus preconceitos às reformas e nada me vinha em resposta.

          Caminhei até o Mirante e retornei pela escadaria, esquecendo de descer pela Garrett em direção ao Largo de São Domingos.

          Por fim parti para o Hotel, não encontrando no percurso, viva alma e por acaso; um velho aproximou-se, dirigindo-me a palavra em tom de profecia. Venha sempre cá e receberás a mensagem que procuras.

          Quando fiz menção de dar-lhe uma nota de cinqüenta escudos, recusou-se a recebê-la com simples sinal da mão. Era ao lado do Cafreal, na esquina que me levava à Avenida ”Faça desse lugar um sino eterno”, disse e caminhou em direção à Praça.
         
          Sentia-me cansado, passava de uma hora da manhã, retornei ao Hotel a fim de fazer as habituais ligações ao Brasil e cair na realidade fria das coisas.

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Published in: on setembro 6, 2008 at 3:54 pm  Deixe um comentário  

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