Ora, pois, pousar em Açores

Lisboa, 28.04.73 -Sábado

          Sábado.Vamos às compras, guiados por lembretes, tendo a indicação da encomenda e do parente ou amigo que a fizera, girando pelos andares das Galerias Lafayette. Zora Seljean já nos ensinara como situarmos nos extensos andares, observando que não deixassemos de passar os olhos nas barracas da calçada do shopping.

          Sim, o camelô, em toda a parte, é um quebra-galho da loja que não comercia com produtos apresentando pequenos defeitos ou perfumes duvidosos.
Despedimo-nos dos amigos da Embaixada e do Consulado e flanamos pelo centro até o jantar, vindos do Museu Britânico onde havíamos permanecido até o final da tarde.

          Faríamos a conexão em Lisboa para o regresso à pátria, mas o vôo até o Brasil estava adiado por cinco horas. José Paulo Viana sugeriu passá-las em passeio pela cidade.

          Sem perder tempo; quando confirmado o atraso, deixamos a bagagem no depósito, guiando-nos para as Portas de Santo Antão n.73. O taxista indicara o bar-restaurante Cafreal, bem na esquina onde tivera começo a Revolução do Século XIV, conduzido ao trono D. João I.

          Alguns autores identificam-na como burguesa, mas, sem dúvida, é um exagero. Certamente a classe média apoiou o filho bastardo de D.Pedro I, o Cru, mas o seu maior herói foi D.Nuno Álvares Pereira, em cujo poema A Coroa, da Mensagem,  Fernando Pessoa nos indaga: Mas que espada é que, erguida, faz esse halo no céu?

          Voltei ao passado à medida que o táxi rolava pela madrugada, passando pela Praça do Comércio para estacionar no Largo de São Domingos junto ao lado esquerdo do Teatro D.Maria, onde até a subida de Pombal funcionara o Santo Ofício.

          Haja grandeza naquele espetáculo de sangue que significaria as Quinas com os príncipes D. Duarte, D. Fernando, D. Pedro, e o Timbre com o Infante D. Henrique, o Navegador. Algumas restrições, na verdade, mas em seus pormenores; tenho-nas quando visito a Capela Imperfeita do Mosteiro de Batalha.

          No entanto, para nós, brasileiros, cinco são os versos do gênio já citado: Em seu trono entre o brilho das esferas, com seu manto de noite e solidão, tem aos pés o mar novo e as mortas eras –o globo mundo em sua mão.

          Trinta anos transcorridos e a noite era bela a valer, nítidas as estrelas do mirante da Glória. A possibilidade de rápido vir de Sacavem ao Centro Histórico, pisar naquele calçamento vetusto e rever o ressaio, atordoou-me por minutos, confundido pelas saudades.

          Senti que estava hipnotizado pela subjetiva distância do tempo. A surpresa entre fatos relembrados quando visto o local. O casario é o mesmo, há sinais de algumas lembranças, o espaço parece o mesmo, mas é ilusão do presente, porque se o tempo é outro, o espaço o acompanhou e tornou-se diverso. Perguntei-me se estava no presente de um passado.

          Já pisara na laje simples que esconde o esqueleto do poeta T.S. Elliot, agora revejo paredes brancas do Mosteiro que protege, como no passado, as Praças pombalinas. O estilo, de quando em vez, é profanado por um moderno sem feição que possa caracterizá-lo como adequado. Ele não existe, apenas ocupa o vazio do presente.

          Andamos pela Rua Santo Antão até a porta da casa de pasto e alojamo-nos no fundo, convidando o motorista que encomendara a bacalhoada.

          Depois, voltar e esquecer minha querida Lisboa e os velhos tempos da Guerra.

          Ora, Passado, que tens a me contar daquele conjunto diário de boatos e informações que jovem eu buscava desvendar com meus camaradas? Já era alvorada, quando tentava retornar ao presente e resposta alguma recebia de minhas indagações encanecidas.

          Em nosso diálogo, realçavam-se alguns pormenores trazidos de casualidades tanto no Chiado, na Brasileira, quanto do Largo de São Domingos.

          Lisboa era um saco de gatos, falara-me alguém, o mais discreto dos parceiros, o que justificava não perceber de imediato o que refletia qualquer evento estranho ou pergunta de pessoa qualquer. O meu sotaque de brasileiro era, naquelas alturas da guerra, o instrumento que me obrigava a responder em pronúncia portuguesa.

          Claro, tanto um quanto outro, exprimiam-se em péssimo espanhol. Eu convivia com meu avô materno, que era minhoto, mas a minha frase era às vezes percebida pelo gerúndio e modo de colocar os pronomes.

          Aquela maneira de falar: por favor, pode informar-me onde estamos? O alfacinha assustava-se de imediato: “Vosmecê é brasileiro!”.

          Pela Avenida da Liberdade éramos levados a disfarçar os gestos, porque a intuição nos comunicava o risco permanente da súcia de espiões do Eixo.

          Contava a José Paulo a odisséia durante entendimentos dos ingleses com Oliveira Salazar e seus assessores a fim de que permitisse o uso das pistas de aviões aliados em Açores.

          Nossa participação era de observar e lograr entender o possível. Necessário pôr em foco o alvo. Eles trabalhavam com muita discrição, do mesmo modo que os agentes da Pide, mas o Professor Oliveira Salazar, espécie de Primeiro Ministro, ouvia dos seus informantes tudo para nós desastroso com o domínio alemão do Atlântico.

          Nada podia transpirar daquele assunto e nossa tarefa era desinformar o que era feito por agentes criativos. Uma das infâmias comuns consistia em atribuir aos americanos o afundamento de nossos navios mercantes. Era oportuno então informar o homem do povo de que nossas embarcações eram de bauxita necessária à produção militar dos Estados Unidos e que seria incompreensível que a ação submarina agressora fosse de encontro às suas próprias necessidades de minérios.

          Em tarefa de simples observação muitas vezes vinha o esclarecimento sobre o domínio do Atlântico e a curta autonomia de vôo dos aviões que pudessem afundar os submarinos.

          A habilidade do nosso Ministro do Exterior Osvaldo Aranha revelara-se nas instruções e os ingleses a tomavam seriamente.“Os portugueses, seus filhos e netos estão certos de que só com a ajuda lusitana, quanto a Açores, podem-se salvar as frotas de navios mercantes e, por conseqüência, a morte de inocentes marinheiros”.
A esse argumento, Salazar visivelmente se emocionava e avaliava a crueldade dos atos nazistas de represália.

          Na verdade, a única notícia que trouxemos para refletir dizia respeito à vacilação do Primeiro Ministro em razão do receio de retaliações alemãs contra o povo português.

          Por coincidência, convidado por uma jovem, participei de um evento social na Avenida da Liberdade, quase junto à Estação. Lançamento de livros e tornamo-nos interlocutores, enquanto conversávamos sobre literatura. Vinham e iam as apresentações. 

          Perguntando-lhe a opinião sobre o Governo, confessou-me ser admiradora do Primeiro Ministro por sua honestidade e firmeza, esclarecendo que trabalhava em consultório do seu médico.

          Sem que nada dissesse, acrescentou que nos últimos dias o Professor Salazar passara por extrema depressão, tentando vencer o stress e o fazia orando noites seguidas, razão por que o doutor estava preocupado.

          Sem qualquer outra pergunta, considerei estranha a informação de jovem estudante, dela ouvindo que o Professor, como o chamavam, andava a mortificar-se rezando com seu terço e refletindo a fim de receber espécie de revelação.

          Deixei-a na residência e acordei os companheiros para transmitir-lhes os dados que indicavam por certo a permissão pedida. A decisão do Governo, afinal, ocorreu às onze horas, dois dias depois, transmitida aos Embaixadores do Brasil, da Inglaterra e dos Estados Unidos, no que se referia à utilização militar do aeroporto de Ponta Delgada.

          Por incrível que pareça, os anos correram e no final do século, outras circunstâncias fizeram-me conhecer uma neta do médico, contando-lhe eu a respeito do que ocorrera há trinta anos passados e dela obtendo confirmação de que, em criança, conhecera a auxiliar do seu avô.

          Então, trinta anos depois, retorno por aquela mesma hora, à Avenida da Liberdade, à Estação do Rossio, e no horário previsto da madrugada seguimos no mesmo táxi para voltar ao avião de retorno.

          Churchill, em seu livro de Memórias da II Grande Guerra, narra os episódios dos ataques em todo o Atlântico, inclusive em agosto de 1942 no litoral norte do Brasil, onde os alvos mais atraentes eram os navios que levavam bauxita para a industria aeronáutica americana, bem como o fluxo de petroleiros que partiam para o Oriente Médio. Entre os afundados incluía-se o Lacônia que levava para a Inglaterra dois mil prisioneiros de guerra italianos.

          Muito de leve faz menção ao Brasil. Porém Salazar deixou consignada que quando da concessão das facilidades que do Governo Britânico recebeu, soube emprega-las em função da segurança de Portugal. Tratava-se de armas para qualquer emergência. Mais tarde, sobre a mesma matéria, dirigindo-se à Assembléia Nacional em 26 de novembro de l943, o Primeiro Ministro deixou claro que se o Brasil soubera conciliar a sua beligerância com a neutralidade portuguesa sem a menor quebra da estima fraternal, só haveria de despertar na alma brasileira a maior simpatia.

          A possibilidade de Adolf Hitler invadir Açores e Madeira levava Salazar a teme-la, circunstância que o conduzira à vacilação inicial, por fim superada nos dias de seu abatimento. Não há dúvida de que a presença do Brasil na pressão conjunta para fazê-lo liberar Ponta Delgada a pousos e decolagens de aviões de caça, constituiu o lastro da vontade e decisão para que os portugueses dessem apoio ao Governo, como, então, pudemos sentir nas reações do povo em Lisboa e Porto.
         
          Hoje, sessenta e seis anos decorridos, posso juntar as partes quebradas de uma peça de porcelana e entender os traçados luso-brasileiros para resolver o quebra-cabeça do problema do Atlântico.E concluir que coubera a Osvaldo Aranha e Salgado Filho, com o apoio logístico de Antônio Ferro em Portugal,o bom êxito de nossa política externa, que Churchill não acrescentou em suas Memórias.

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Published in: on agosto 30, 2008 at 3:49 pm  Deixe um comentário  

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