Tentativa de buscar a causalidade

Paris-Londres, 27.04.73, Sexta-Feira
 

          Ao voltarmos para o descanso, decidi partir para Londres. Três horas de vôo, das oito, quando decolamos, a onze da manhã.  No Beverly Hills encontrei José Paulo me aguardando e lá também hospedado. Após tomar com o mesmo um chá na Regent Street, segui até a Embaixada para ver os amigos e com Selene, Olinto e Zora almoçamos em restaurante italiano na Edgware Road. Após a caminhada subimos ao escritório do contador de Olinto a fim de discutir questões de seu jornal. Nova caminhada pelos arredores e visita ao Hyde Park. À noite, reunimo-nos para o jantar, bem próximo ao Hotel. A fadiga tomara-me de assalto.

          Não sei bem a razão, mas abordei a minha visita a Cluny considerando o espaço-tempo da reduzida globalização dos finais do século XV aos meados do seguinte. Eu me deixara fixar na arena do Renascimento. Como em caso de um encontro, as personagens ligavam-se à atmosfera original do Quatrocentos.

          Talvez tivesse ocorrido ruptura qualquer que desencadeasse o processo político, artístico, religioso e militar.
Nisso me definira desde a visita que fizera ao Palácio Sforza de Milão, também ligada aos tempos recentes do fascismo, manifestados na derrocada de Mussolini, a que assistira de longe.

          Não eram circunstâncias ocasionais, porém jogo de cartas que se fazia estagnar para prosseguirmos o mesmo tom invariável do modo musical usado, às vezes, como área barroca.

          Eu não me envolveria no enredo se em minha chegada a Milão ignorasse o Palácio e visse o fantasma de Maximiliano a rondar a conjura de Henrique VIII, da Inglaterra, Jorge V, da Espanha e Francisco I, da França, observando o globo terrestre e vendo que ele crescera com os descobrimentos dos caminhos marítimos e descobertas da das Américas.

          Por todos lados desabava a Idade Média, sorrindo Maquiavel de seus paradoxos e assertivas, fixadas em seu princípio dicotômico. Ética versus Estética.

             Antônio Olinto interveio, sustentando que a história do planeta sempre apresentara ligações intraduzíveis.

          Hoje, em novo milênio, agosto de 2008, sinto que as colunas sempre são as romanas da era de Augusto.

          Há séculos intermediários como o Quatrocentos, mas constituem o processo de acumulação de força para o que vem do salto qualitativo dos Descobrimentos Marítimos: Renascimento e Reforma.
         
          O Trezentos é a transição entre a Idade Média e os Tempos Modernos. Seu retrato é a Divina Comédia, de onde Dante sutiliza as crenças passadas, os símbolos e os mitos, desenhando-os em versos, desenhados à bico de pena por Gustavo Doré. Portanto, foi o tempo dos fraticelli, das místicas, das consciências vaporosas, atônitas com o que a geração nova da Escolática discutia em seus trabalhos. Todas as supertições passadas se esvaíam naqueles tempos.

          As descobertas marítimas foram como ondas periódicas, vindas pelo périplo africano, graças às excursões portuguesas e genovesas, árabes e espanholas; o presente cultural do Oriente, da China e da Índia é que se mantinha encoberto do furor da ortodoxia católica.

          O salto qualitativo tem paradoxalmente data final dos Quatrocentos, quando o barroco nasceu em Florença. A Renascença serviu de trapézio, tendo em vista não só a feição estética que encobre a obra dos artistas, mas, ainda, a audácia dos cientistas, de Galileu, Servet, Leonardo da Vinci etc. Cada salto está preso a um tempo, exibido na universalidade, podendo, entretanto, ser dissecado em suas raízes relativamente históricas.

          Quantos equívocos se dão no desenvolver das idéias que se tornam exteriorizadas, que de uma equação ou princípio, se chegue ao passo material articulado com as doses empíricas, causais ou casuais. A pessoa é simples máscara e dela nascem as idéias, os atos, não sendo estes necessariamente lógicos. No palco que definimos, de princípio, todos os atores eram homens comuns, Tanto George V, quanto Francisco I revelavam-se parecidos, adversários, entretanto, dos Sforzas, pai e filho, e de outra figura, Henrique VIII, tanto oportunista e flexível, quanto místico e imprevisível no curso da comédia ou da tragédia.Enfim, os indivíduos nada influem nos acontecimentos, estes, sim, é que os levam para destinos cruéis ou comuns.

          Há, em verdade, o processo histórico, caótico em razão do princípio da incerteza. Ele se constitui por conjuntos, que se tecem no espaço-tempo com as suas variáveis e invariâncias. A ditadura impõe o tirano, a monarquia, um rei cruel ou sensato, a república, um tipo qualquer de carismático, que atua como feiticeiro em meio a uma centena de corruptos e homens de bem, mas que formam os conjuntos da chamada Nomenclatura. Sempre existiu a Nomenclatura: no passado, o patriciado, a nobreza, os cortesãos e em nossos dias, o político, o adulador dos palacianos, os burocratas, enfim toda uma elite que os estudiosos classificam de líderes articuladores, expressão de Voegelin, bem como as eminências pardas e oportunistas. 

          Eis o quadro, uma dezena de conjuntos em cada nação, donos do poder e de recursos financeiros, servidos por forte proteção dos instrumentos de coerção social. Mas se partirmos do ponto de vista de que o real é o racional, temos que aceitar a realidade, a qualidade, a quantidade como inseparáveis enquanto conjuntos.
         
          Os matemáticos que conceberam e aperfeiçoaram a moderna teoria dos conjuntos marcaram com segurança as invariâncias de cada qual e pelo instrumento da foice ou da cicuta, da fingida lealdade ou, na melhor das hipóteses, dos projetos logísticos e tecnocráticos, fixaram as suas dinâmicas transcendentais. Entre elas estão a ordem, a correspondência, a contradição, enfim forma de dialética não hegeliana, aceitável porque formal, e se funda na evidência instintiva do homem de aprender com os dedos as quatro operações aritméticas. Em toda essa arquitetura, digamos de conjuntos, temos a considerar que não é ainda simples, mas provável a possibilidade de esboçá-los em termos experimentais, e armarmos no processo histórico as situações, ajustar os modelos ou transformá-los por meios materiais ou ideológicos, a fim de localizar o poder, perdê-lo, abrigar-se na conciliação com aliados e violência contra os opositores do momento. Ou incluí-los no processo da complementaridade.

          Na reflexão de Georg Cantor, fugindo de aplicações concretas, os conjuntos devem apresentar-se no triângulo ser-tempo-movimento. Trata-se da mecânica de Galileu e Newton, segundo a fórmula E=Hv onde E é o quantum de energia medido, v, a velocidade da emissão e h, a constante de Planck ou invariante física. Todas se enquadram no triângulo, já por nós referido. Indicam, pois, alteração no modo de ser de qualquer coisa. Aplicado ao problema histórico o raciocínio matemático, temos a considerar que todas as particularidades dos acontecimentos devem ser tomadas em função do tempo, importando no campo real o momento de inércia, de um lado, e o momento da força, de outro. Só se mostram quando temporalizados. Em conseqüência, sempre observamos as forças e, portanto, os fatos, atuando em função do tempo conforme a fórmula: momento é igual ao produto da massa pela velocidade.

          Na hipótese histórica do Século XVI, o avanço cultural da Renascença e o religioso da Reforma, criaram-se três personagens que se temiam. Carlos V pelo poder territorial de que dispunha seu reino; Francisco I, que se declarava cordial, era católico, porém também lhe temia o poderio. Henrique VIII apresenta-se como envolvido entre o Papa e Lutero. Protegido em razão de reinar em ilha fortificada pelos mares, representava a inércia cantoriana no triangulo do tempo que já se mostrava vitorioso diante do progresso geral. Nesse quadro, a posição do rei da Inglaterra decidiu o embate entre os dois outros monarcas, já preparando o terreno do século seguinte para a Rainha Isabel.

          Jorge V jogara no tempo com maior velocidade, que se tornava mais intensa em Milão, ao derrotar Maximiliano. Sua decadência deveu-se às razões emocionais atravessadas pelas memórias da mãe oligofrênica e profundos sentimentos católicos.

          Digo ao leitor que a visão geral pode ser desenhada dessa forma, mas milhares e milhares de variáveis simplesmente impedem o retrato para permitir a matematização do problema. Mas no fundo da reflexão, nenhuma outro sistema substitui a doutrina de Cantor com o socorro de Planck. Pena não conseguirmos ajustar as forças da quantidade, a dificuldade de localizar a correspondência, enfim aqueles estorvos que tornam a incerteza dotada de sua dinâmica. Portanto, só nos resta o pedido de perdão do diletantismo que faz lembrar o velho mecanicismo vulgar do século dezenove.

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Published in: on agosto 22, 2008 at 6:17 pm  Deixe um comentário  
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