As razões da coincidência

Paris, 26.04.73 – Quinta-Feira

            Seria para mim dois dias de lazer, pois as obrigações profissionais limitavam-se a dois encontros. Jairo Costa comigo marcara o primeiro, que dependeria de um telefonema seu no final da tarde.

          Passei pelo escritório do Daily Telegraph, saí com Michael Field e após o almoço no Clube dos Correspondentes de Imprensa, decidimo-nos a correr as livrarias da Rivoli, caminhando despreocupados, como se estivéssemos no Rio dos anos pretéritos, bem pretéritos.

          “Paulo”, ele comentou quando cruzamos a Castiglian, “foi no Brasil, levando em consideração todos os países em que estive como correspondente, que fiz as melhores amizades de minha vida, ocorrendo idêntica coisa com Giuliana”.

          Os amigos comuns eram lembrados por Michael com nostalgia do período que conosco conviveu durante os almoços no Terrasse do Edifício Central e na Parreira do Vizeu, da Rua Senhor dos Passos. Ora com Gilberto Paim e Carlos Tavares, outras vezes com Newton Rodrigues, Paulo Francis, Osvaldo Peralva e Antonio Paim.

          Deixei-o pela sobretarde na porta da sucursal do jornal a fim de voltar e ainda passar pela Varig e remarcar minha ida até Londres.

          Já passava das dezoito horas quando, por coincidência, retornando em direção a Opéra, senti que me chamavam de outro táxi. Era Jairo, acenando a fim de que parasse no congestionamento.

          Por incrível que pareça, era hora de meu contato telefônico com Jairo Costa e eu me atrasara, assim como ele próprio a vir do Aeroporto de Orly. Não dava para acreditar que isso ocorresse em hora do rush. No congestionamento das dezenove horas, em Concórdia, quase no local onde a Revolução Francesa fizera as suas atrocidades conhecidas, gritei-lhe que ia para o Hotel aguardar o seu telefonema.

          Prosegui até Opéra, lamentando que comigo não estivesse presente o Mestre Hannibal, que há meio século estudava o tema das razões da coincidência.

          Ao jantarmos no La Coupolle perguntei a Jairo sobre o que falara ao motorista que o trouxera do Orly. Respondeu-me que nada dissera a não ser o endereço do Hotel onde ficaria hospedado, estando seguro, porém, que o rumo natural se alterara em razão do tráfico próximo ao túnel.

Anúncios
Published in: on agosto 15, 2008 at 6:47 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2008/08/15/as-razoes-da-coincidencia/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: