A nobreza do Quinhetismo

Paris, 25.04.73 – Quarta-feira

          Encontro-me em Paris. Vôo sem turbulência. Era cedo e um táxi me levou ao Le Grand Hotel. Rápido o serviço, apesar da hora, e na Gerência estava o recado de Michael Field que viajara a Londres e voltaria na quinta feira.

          Instalado no quarto 1403 tive a impressão de que era o cômodo mais amplo e, do mesmo modo, o de banho. Não era fácil esquecer-se do tombo quase fatal.

          Decidi rever o Museu de Cluny. Em verdade houvera falhas em minha única passagem por seus salões.

          Era época conturbada, chovera demais naquele dia distante e achei de bom alvitre  fazer senão nossa missão.E nada anotara, pois habitualmente retínhamos as informações como confidenciais.

          A visão das velharias pelo diletante em matéria de antiguidades sempre proporciona juízos sobre os museus em sua estrutura e organização, porque sem preparo especializado, pormenores se perdem, uma vez que as antiguidades convivem com o passado de diferentes maneiras. A percepção, por sinal, reflete-se sobre nossa concepção do que sabemos sobre a cultura, o povo e circunstâncias sociais de suas origens.

          No caso de Cluny, sobretudo. O Museu está diante de mim após descer do carro. Tão próximo ao Sena, à Catedral de Notre Dame, mesmo ao próprio ar acadêmico do momento.

          As termas romanas, séculos e séculos depois, palácio real nos séculos XV e XVI, parece contemplarem o burburinho do Boulevard Saint Michel, onde moças e moços perambulam à procura dos bares e seus gurus intelectuais.

          Da época galo-romana tudo quase se perdeu. Lutécia, antiga cidade da Gália, foi destruída pelos chamados bárbaros e das ruínas nasceria Paris. Ainda que incendiada, o monumento conservou a estrutura do salão de banhos frios. A poeira dos séculos havia de cobrir as muralhas do passado e só em nossa era as escavações trouxeram-lhes de volta.

          Apenas há meio milênio um grupo de abades fez erguer junto às ruínas romanas a construção gótica de um hotel, hoje uma das raras reminiscências da Meia Idade francesa.

          Certos episódios enfeitam o passado. São numerosos, por seu salão de festas, nossos índios lá dançaram, exibindo-se como curiosidade dos descobrimentos marítimos para o divertimento da nobreza estupefata.

          Em um dos aposentos, a Rainha Mary Tudor, irmã de Henrique VIII da Inglaterra, adolescente, com as suas vestes brancas de viúva real, foi surpreendida em companhia de um jovem duque.Talvez tenham maldado, suspeita má, porém mesmo já morto, a honra de seu marido, Luís XII, devia ser preservada e seu sucessor Francisco I que a obrigou a casar-se com o amante, devolvendo-a para sua pátria.

          Sua vida está inserida na era da Renascença. Demoro-me naqueles salões, também me retornando a Milão, onde Maximiliano Sforza deixara que Da Vinci fizesse-lhe o retrato e tanto se envolvesse nas vidas de Carlos V e Francisco I. Emaranhado de intrigas e traições naquele Século XVI.

          No tabuleiro de xadrez, chocavam-se os reis, as rainhas, as torres e os cardeais, e nesse jogo de disputas estava, de um lado, Carlos V, rei dos Países Baixos, da Borgonha, da Espanha com suas colônias na América, candidato à coroa por vontade de seu avô, Maximiliano Sforza, vinculado por casamento aos Habsburgos.

          Francisco I, rei da França, opôs-se, apoiado pelo Papa Leão X, tudo em razão do poder que ficaria concentrado nas mãos de Carlos V, obtendo ele também o sim de Henrique VIII que, em verdade, o considerava grande amigo.
 
          Os historiadores argumentam, com provas cabais, que toda o confronto cercara-se de suborno ou força do poder financeiro, como nos exprimimos em nosso tempo.

          No jogo figuravam os maiores banqueiros e especuladores da época, em especial os Fuggers da Europa. Lavagem de dinheiro, formação de quadrilhas, sonegação fiscal e, subornos envolvendo chefes de gabinete, líderes dos feudos, das cortes no grande palco da época, e vazamento de informações aos antepassados da mídia.

          Salvava-se apenas o Legislativo, que ainda não existia.

          Resumo da ópera: Carlos V passou a ser espécie de articulador inteligente, mas para complicar o último ato tornou-se sincero partidário do Vaticano no confronto que se travava contra a Reforma.

          A oeste já reinava Francisco I, vencido na primeira refrega, afinal, em razão de maior necessidade de recursos, pois faliram os bancos dos Fuggers, situação lamentável, uma vez que não havia banco central.

          A rivalidade prosseguiu com o restabelecimento da força de Francisco I, que repetia o seu lema: “pode tudo ser perdido, exceto a honra”, acrescentando os cortesãos: est modus in rebus, sunt certi denique fines ou “há uma medida em todas as coisas, existem afinal certos limites”.

          Todo o libretto só se percebe em virtude do dito: a história sempre se repete. O que não explica a fúria de que se tomou ao saber do adultério da Rainha Mary Tudor, já na viuvez.

          A unidade do Museu está mantida, bem cuidada, tendo em vista os anos quarenta, com as testemunhas dos tapetes, esculturas correspondentes.

          Ali estou eu, só, refletindo sobre a importância da história para nossas perspectivas existenciais. Percorro o salão inferior, subo as escadas, olho ao redor, as pedras, sem nada dizer, sentindo distante de mim tudo o mais que Paris representa em matéria de beleza.

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Published in: on agosto 15, 2008 at 6:43 pm  Deixe um comentário  

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