Uma fatia do futuro…

Basiléia-Paris, 24.04.73 – Terça-feira

           No Hotel, encontrei dados que anotei durante a viagem até aqui.  Reli-os e corto pormenores de pouca monta.

           Quando o trem parte ao rumo dos grandes lagos, a periferia milanesa exibe-se como em qualquer país latino. Os edifícios acompanhando a via férrea, mostram-se em parâmetros quase ibéricos, exibindo roupas estendidas em varais de áreas devassadas e a presença de moradores distraídos em janelas e varandas. Milão é comprida e as fábricas se mostram em sua arquitetura por dizer padronizada.  

           Ao longo da ferrovia os carros parecem competir em velocidade com os vagões e os vencem ou os acatam de acordo com os sinais convencionados.

           As locomotivas buscam e conseguem obedecer aos horários. Só se atrasam em caso de greve que só ocorre no território italiano.

           Atravessamos a fronteira, o inspetor passa a fim de receber os bilhetes e os inutilizando. A composição prossegue, cortando celeremente as estações menores. Nas plataformas, figuras que se mostram como soldados imóveis. Não há quase ruído em trens de ferro, tanto italianos, quanto suíços. Porém a pressa requer janelas cerradas.

           A paisagem exibe-se disposta como um quadro impressionista. Traduz certo sabor que se vê nas telas de Van Gogh.  Campos e campos cuidados, plantados, expostos, fazendo-nos crer que o projeto do artista antecede o trator e outras máquinas agrícolas.

           Estamos cortando uma fatia do futuro, penso. Para nós, latino-americanos, tempo de difícil realidade. Há causas e fatores de fácil compreensão, que justificam a ordem, produto de ética e cultura. Outros que ignoramos e com os quais não atinamos.

           A velocidade obedece muitas vezes o apito da locomotiva. Dele logo nos esquecemos como grito desnecessário.

           As aldeias, estas, registram a sonolência que, em tese, nega o trabalho, mas que aqui apenas o esconde.  Nascem como se fossem meninas em uniforme de feriado.

           Agora, as neves reaparecem. São as primeiras montanhas que repontam no percurso. Marcadas por tinta branca, como em aviso de primavera, em protesto pelo aparecimento de ciprestes.

           A máquina parece aumentar a marcha. Por que? Não sabemos. Com certeza para o cumprimento dos relógios. Imperativos da cultura. Horários verdadeiros, jamais artifícios de sustar ou adiantar os ponteiros. As idas e chegadas sempre são exatas e formalmente autênticas. A composição chegará às l3 horas e 9 minutos, diz o fiscal, consultando o indefectível instrumento do qual somos reféns.

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Published in: on agosto 9, 2008 at 5:34 pm  Deixe um comentário  

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