Os arquivos do estranho

Milão-Basel,  23.04.73 – Segunda-feira

          Hoje, muito cedo, despedimo-nos de Roma. Naturalmente as pessoas dormiam, deitaram-se tarde após os dias da semana. Na porta do Mercatto, manhã clara como o espaço daquele sítio que a possui por milhares de anos. A chuva que caíra forte pela madrugada resumia confortante serenidade.
 
          Aguardamos o carro e seguimos para o Aeroporto, passando pela Piazza Venezia, onde poucas pessoas se dirigiam a Via Del Corso.

          Assim são as madrugadas; as ruas despidas, o silêncio do tempo e o vazio do que vai ocorrer durante a procissão das horas. O espaço parece estar à espera de milhares de fatos que ainda irão ocorrer. Bem aqui, um carro a dar súbita parada, o guarda de trânsito ainda não assumiu o posto de regência da orquestra desafinada de ruídos.

          Roma ainda se prepara para uma nova jornada, como o faz há três mil anos desde Rômulo até o dia de hoje, de minha partida a outros locais. Alguns milhões de criaturas vão para o preparo do trabalho em conjunto, desordenadamente rotineiros, em fábricas, escritórios, lojas e bares. Introibo ad altare dei, no dizer de James Joyce, após esforços do sono ou do sonho que nos levam ao mistério do passado.

          Tanto as pessoas inseridas no pólo da vida ativa, quanto aquelas que já se ergueram após certo arremedo imperativo de cobrirem os seus que vão para as trincheiras do dia a dia. Todos se espreguiçam antes do esforço instintivo ou da corneta do despertador.

          São cinco da manhã, as ruas estão vazias, o Mercedes Benz de Guido desce a via IV Novembre e seguimos em frente para o aeroporto.

          Magoa-me partir, e pormenores de um quarto de século me espreitam, misturam-se à nostalgia. Estranha a postura das colunas no tempo: as ruínas molhadas do Foro Romano de mim se despedem, dando-me a impressão que injetavam em minha pessoa a frustrada previsão do futuro com os flashs do vivido.

          Habituado tanto a partir cedo, quantas vezes cruzei ruas e ruas abandonadas, mas città vechia revelava-se de modo afligente.

          Às sete da manhã o aparelho seguia para Milão em vôo de meia hora. Pedi ao motorista que me levasse à Estação Ferroviária, passando pela Piazza Duomo. Apenas a fim de que a visse sem as proteções exigidas pela obras que se fizeram da fachada.

          Comprei o bilhete, quase perdi a viagem e fui observando de trem a trajetória de despedida da portentosa Milão.

           Albano me aguardava na estação de Basiléia, tomou-me as malas antes que as entregasse ao facchino.

          “Não é preciso, e só atravessar a rua, você vai hospedar-se no Victoria National.”

          Era hora de almoço e o encontro na Ordem teria começo pelas 22 horas.  Levara meu trabalho na mala pequena e nem a desfiz, seguindo para a nossa costumeira caminhada enquanto trocávamos opiniões.

          Há poucos meses cá estivera e agora tudo se mostrava sem qualquer mudança. Enquanto passava pela portaria para qualquer informação, um senhor tranqüilamente dirigiu-se  à Gerente, que me pediu licença e o atendeu com informação de que a pessoa procurada ainda não chegara apesar de reserva feita uma semana antes.

          Ele despediu-se, pedindo-me em italiano a desculpa pela leve suspensão do atendimento. A atendente mostrou-se constrangida, em seguida revelou-me que se tratava do Presidente da República Suíça. Fiquei surpreso, ao contrário de Magdo, bem como Hannibal que de mim se aproximaram.

          O Chefe do Executivo estava só, assim viera sem qualquer oficial de gabinete, não havia seguranças e ele próprio dirigia o Mercedes Benz do ano anterior. Tanto me lembrei do Brasil com o exagero da corte de besteirinhas em circunstâncias como aquela.

          Já me era familiar a sua avenida central que nos levava à ponte sobre o Reno onde lanchas e cisnes flutuam vagarosamente. Paramos à espera que víssemos passar o battello com os passageiros acomodados e voltados à apreciação da paisagem.

          Seguimos depois à esquerda acompanhando o casario pelo rumo que Nietzsche quase sempre passava a fim de dispor as suas idéias geniais e reuni-las no conjunto de previsões, dando corpo a conceitos aparentemente extravagantes.

          Hannibal aceitou minha sugestão de que girássemos pela Universidade para sentir-lhe o espaço de angústia até o ano derradeiro de lucidez. Era o seu tempo em, vindo-me à lembrança de Malraux, o filósofo também, entre aquelas paredes, sentiu crescer com ímpeto a sua esquizofrenia.

          A figura de Lou Andréas Salomé empresta ao final do drama o toque misterioso daquela ligação sem sentido inteligível. A sua presença que a ferira tão profundamente desde o encontro primeiro em altar lateral da Igreja de San Pietro em Roma.

          O comportar daquela criatura, em cujo espírito saía o fogo a deflagrar o delírio de filósofos e poetas, estivera como sombra naqueles corredores e especialmente em seu cômodo, creio, quando anunciara ele a morte de Deus.

          O sadismo daquela semideusa o conduzira ao desapontamento, queimara todos os limites da esperança, fizera nascer-lhe o delírio permanente. Sumia-se o viço e desgraçadamente ocorria a glória de Wagner em Baireuth, no ano de Parsifal.

          Hannibal quebrou o que havia de místico girando em meus pensamentos. A sugerir que em qualquer encontro com Krieger, nosso companheiro da Ordem, movêssemos uma pedra a fim de julgar com o seu conhecimento o elo que possa existir nas três fases da reflexão do filósofo.

          No meu diálogo ao passado, entre aquelas paredes sólidas, eu gostaria que o presente me desse motivos da sua visão do Iluminismo e da Crítica dos Valores, que se antepõem aos termos kieergardianos. Mas só Nietzsche poderia fazê-lo sem a esquizofrenia. “O homem é algo que deve ser superado”, proclamara e essa profética aspiração não pode, nem deve partir do existencialismo e da fenomenologia.
 
          Ainda permanecia confuso quanto à nossa conversa de almoço. Hannibal dissera na oportunidade de retornar ao assunto que o objetivo de nossa ordem não se afastara da inclusão da ciência no campo das mudanças mentais do Homo Sapiens. O desencontro entre o que era emocional e o que era intelectivo parecia sempre ir de frente a uma trincheira  de soldados sinceros armados de humanismo.

          Hannibal, por viver entre Basiléia e Milão, tinha o hábito de subestimar qualquer debate por motivo de não ser o parceiro gourmet. Qualquer pequena divergência não só lhe tirava o apetite sadio como acrescentava maior serenidade. Digamos que se alimentasse emocionalmente e discutisse de modo só intelectivo. O pensar que ficasse vagando à toa, e deixasse que o vinho combinasse com o prato escolhido como benção de paz.

          Saímos percorrendo a Basiléia, completando distante volta para chegar ao meu abrigo. Sugeri que me deixasse levar até a sua casa a fim de facilitar a organização de nosso Colóquio e voltaria de táxi para repouso.
 
          Porém lá fiquei com outros confrades e o descanso se fez na varanda a observar as pessoas que passavam, os raros carros e sentir, enfim, a relativa tranqüilidade.

          Minha intervenção passou o limite de tempo em razão de apartes oportunos, pois se tratava de comentar o livro de Guy Tarade – Les Dossiers de L’Étrange – publicado há poucos anos, contendo material obtido no Centro de Elementos Desconhecidos de Civilização, de Paris. Tarade também consultara o Círculo Francês de Pesquisas Científicas, enfim, a leitura que fizera há anos, suscitara em minhas observações elementos que considerava importantes a nossos objetivos.

          Hannibal, ao intervir, vinculou curiosamente alguns temas ao Livro de Gurdjieff – Encontro com Homens notáveis – destacando a tão conhecida frase do Mestre: “Life is real only then, when ‘I am’”(algo como, “A vida é real somente quando ‘Eu sou’”).

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Published in: on agosto 9, 2008 at 5:25 pm  Deixe um comentário  

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