Na arena de César

Roma, 21.04 .1973 – Sábado

          Como em processo de metempsicose, no cansaço que nos chega às vezes de súbito, aqueles anos de guerra deixaram-me as marcas que eu sentia em sonhos na variação produzida pela interferência de outros impactos.

          Em noite como a de ontem, sexta feira santa, em arena que me parecia o Coliseu em ciclo de vida, veio-me a idéia; nosso grupo recebera do Comando de Ocupação a ordem de trégua voltada para observar área onde imigrantes e prostitutas promoviam rixas freqüentes.

          A razão consistira em que lá o Serviço Inglês havia detectado a presença de alguns brasileiros comprometidos com os nazistas infiltrados entre os boêmios.

          Era próximo do Centro Histórico na Galeria da Piazza d’Esedra. Mas decidimos a caminhar pelo Foro Romano. Lá permanecemos por meia hora, iniciando o retorno sem perder atenção fixada no alvo de nossas observações. 

          No Templo de Júlio César e na Casa delle Vestali demoramos pouco tempo porque alguém passara e nos olhara de modo desconfiado.  Dois minutos depois três estampidos.
 
          Lançamo-nos ao chão sem revidar e ele correra. Ordens são ordens, exclamava Richard com freqüência. Que ordens, indaguei-me? Na manhã já tínhamos andado pelo Palatino até quase o impossível.
No segundo ciclo de meu ginásio, configurara-se a sucessão dos punhais inclusive o último de Brutus, que o teria dado a Cassius para dele servir-se como instrumento do suicídio.

          Posteriormente na adolescência, tanto em Suetônio quanto em Plutarco, percebi que naquele episódio de tragédia concluía-se o lado oculto da conspiração. Somente Antônio e Otávio poderiam ser excluídos do conluio. Nem o Próprio César, talvez, como o nosso Getúlio Vargas de seu suicídio.

          Também me teria impressionado o juízo de H.G. Wells em seu pincelar a figura de Júlio César como pessoa. Fora rude em seu retrato, não levara em conta o que revelava a obra sobre a Gália, sua forma concisa de expor e o frio observador dos hábitos e costumes dos povos colonizados. Em seu projeto de vida estava um escritor ao arrepio de um estabanado estadista. Mas por meios pelo menos autoritários.

          Tocava-me também o simbolismo da previsão fatídica efetivada por alguém a desafiar o futuro ou que dos murmúrios houvesse sabido alguma coisa.

           Júlio César, durante algum tempo do golpe em curso, exibindo a naturalidade, buscava a freqüência do Foro Romano, o que fazia sem afetação em companhia dos amigos do período das guerras, transitando a pé pela Via Sacra.

          Do discurso de Marco Antônio, durante o funeral, tratava-se tudo da intuição shakespeariana do complô, quando se expuseram os amigos leais e os conspiradores impelidos por frustrações.
Na missão de 1944, curta e agitada, lá imaginava estar com os companheiros e não esquecera que Richard recitou trechos candentes dirigidos a Brutus, mas já tinha lido vários textos, passando a interpretar  que a morte de César naquelas circunstâncias seria o renascer de nova Roma, uma vez consideradas as posições de Otávio enquanto em vigilante comando.

          Naquele momento, minha reflexão cessava, porque se dera semelhança de comentários vazados do Quirinalle ao Senado, no trajeto cotidiano de César por aquele centro nervoso de Roma, deixando prever sinais de energúmenos até a tragédia. A advertência da mendiga em sua passagem, levando-lhe o vaticínio dos idos de março, não pode significar intuição e sim proposital aviso de algum partidário forçado a juntar-se à conspiração.

          Meu diálogo, como que vindo da sala escura, teria outro surto em virtude da possível substituição de César no Poder por Marco Antônio e Otávio. Duas criaturas diferentes; o primeiro citado, Caio Júlio, político que se deixou levar pela ambição após o retorno, deixando no Rubicão a marca de seu projeto para a derrubada da República.

          E tais enganos, visíveis no trajeto de artifícios e corrupção, iriam paradoxalmente ganhar o acordo com a massa sob o pretexto de outra vez despertar a moralidade de Roma republicana.

          No espaço que cortara, incluído o percurso para a morte, ali em nosso chão inexistia outra resposta em seu traçado posto no propósito estratégico, nele não previsto o silêncio de Brutus. Ou talvez a indisfarçável discrição. Esta teria sido a variável astuta de talvez dar cabo ao provável déspota.         

          Que dizer de seu próprio filho, de seu caráter? E da admiração mesmo que nutria por César? Tal probabilidade desafia as hipóteses dos contemporâneos. O próprio Shakespeare foge à interpretação, deixa o leitor rodar em torno da tragédia.

          Seriam dois trajetos, o primeiro vinculado à velha sociedade que ainda procedia da monarquia, o segundo, o processo que chegara ao arbítrio e à corrupção, como em todas as chamadas democracias. Enfim, todos conduziriam a história no mesmo sentido por motivo da incerteza quando chegasse a avalanche dos chamados bárbaros.

          A sorte estaria lançada para a opção autoritária a ter de confrontar-se com a substância jurídica a poucos metros do dever social. O mesmo que em nossos dias. Nas orações de Cícero percebe-se que Roma poderia seguir os passos do ideal grego próximo ao curso democrático.

          Como não deixaria Otávio de manifestar-se! Jamais se é jovem para esperar. Exemplo houvera com a figura de Alexandre, o Grande, da Macedônia. De forma que  Alea jacta est é apenas o brado de ambição e aventura lançado à posteridade. Não fosse o fato concreto, à pergunta sobre a possibilidade de não ter havido êxito na conspiração por conseqüente atuação de outra variável que apagasse o papel de Otávio, por certo iria ocorrer sucessão de tiranos. Pois tanto César quanto Otávio conheciam o temperamento esquizóide da gens Júlia. 

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Published in: on agosto 2, 2008 at 4:18 pm  Deixe um comentário  

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