A Ópera e o Capitólio

Roma, 22.04.1973 – Domingo

          Levanto-me cedo e já encontro Hannibal à minha espera para uma visita a pé até Campidoglio. Subi a escadaria até a Piazza. Visita ao Museu Capitolino, detivemo-nos diante do Tabularium e caminhamos até Tarpéia. Então chegamos às origens de Roma. Achei-a diferente do que lembrava da noite com os companheiros do passado.

          Observando os desenhos onde se punha Marco Aurélio galopando seu corcel, um vulto de mulher desesperada circulou em torno de nós, atônita, buscando pela descida à sua esquerda, ao lado da Igreja Santa Maria D’Aracoeli e não pela escadaria.

          Quando os conspiradores ainda aguardavam as vitórias de Bonaparte e o conseqüente socorro a Roma, daquele palazzo hoje aberto ao público para visita, chefiava a segurança pública o raivoso chefe de polícia, Scarpia, que acabara de ser morto pela bela Floria Tosca que fugira de nós como alucinada.

          Nada disso ocorreu, pensei em minha pesquisa subjetiva, como o fizera no Castelo de Hamlet, no salão milanês dos Sforzas, mas sentia como na frase perturbadora que acompanha a ópera de Puccini.

          Ele bem montou aquela fuga da amante, deixando o cadáver de Scarpia em sala de onde se ouviam os ecos da tortura em Cavaradossi. Julgava-se ela certa de que evitaria o fuzilamento, voando até o Castelo Sant’Ângelo, levando consigo a falsa ordem de libertar seu amante, escrita diante do ardil que lhe fizera a toscana para fugir ao assédio.

          A tragédia, também inexistente, a fizera percorrer até o Castelo à margem do Tevere sem ouvir a despedida nostálgica da vida e do romance resumidas enquanto brilhavam as estrelas.

          Voltamos ao Palazzo Senatorio e por todo o itinerário caminhamos sem pressa. Depois, tomamos o táxi até S. Pietro in Vincoli para ver Moisés de Miguel Ângelo.

          Ei-lo em seu enigma, há tanto aspirava a conhecê-lo.

          Afinal, as Igrejas e lembrou-se Hannibal de S. Giovanni in Laterano que devia estar a nosso alcance.

          Descemos a Cavour para o almoço, mas subimos por rua estreita com uma romana construção de pedra da era traiana e encontramos Antonio’s quase próximo ao Castelo cuja torre punha-se frente ao Quirinalle. Tínhamos chegado ao Hotel.

          Expliquei a Hannibal que meu diálogo com os fatos passados dava-se como variáveis encobertas nos mesmos sítios Alguns resultados me satisfaziam nos atalhos do espaço-tempo se considerássemos o eterno retorno de Frederico Nietzsche.

          Retornamos outra vez ao Campidoglio. Escapara-nos maior atenção a Marco Aurélio em seu cavalo que se punha no centro da Praça. O traço central constituído de quadrados e outras figuras geométricas dava um realce que acentuava o sentido militar do cavaleiro no trote clássico. Ali ficara por ter sido encontrado em ruínas no século XVI e Miguel Ângelo pode situá-lo no fundo entre os palácios. Subimos as amplas e elevadas escadarias de S. Maria D’Araracoeli.

          O que me intrigava era nela sentir o rochedo tornado um forte onde Sibilla Tiburtina teria feito a Otávio a predição do nascimento de Jesus. Tão aspiradas as suas palavras pelo inconsciente do povo romano que no século de Augusto dar-se-ia também a predição.

          Vazia lá chegando na tarde, não atinamos com o horário e lá fomos ficando para entender o amplo sentido de seu espaço de agora. Ao sair, o portão estava fechado e girando pela sacristia e por outros cômodos viva alma encontrávamos. Por fim após percorrê-la em todos os seus cantos pequena porta lateral à esquerda abriu-se e pisamos o chão de lama recente, como beco arborizado até a saída para outro espaço verde que parecia estar ali há dois mil anos. Por ai escapara a bela toscana na tarde em que Napoleão perdera uma batalha.

          Minha pergunta esvaíra-se no súbito deixar Santa Maria D’Aaracoeli. Não fora capaz de entendê-la e do ponto onde nos achávamos só; a Piazza Veneza vestia-se de  ares modernos.

          O que mais desejava naquele sábado era a ida a S. Pietro in Vincoli e já era quase quatro horas quando lá chegamos, subindo a escadaria do acesso pela via Cavour.
 
          Alcançamos o fundo onde Moisés sentado, não se deixava interrogar e com a tábua da lei presa ao corpo, apenas apoiada pela mão, olhava para as tribos e refletia, sem dúvida, sobre o que fazer.

          Acontecia em domingo romano e a pé como peregrinos do passado marchamos para o Vaticano. Milhares de pessoas punham-se desordenadas a nossa frente e olhando para trás ainda víamos outra pequena multidão que nos parecia seguir.

          Assistimos à Missa celebrada pelo Papa. Pergunto-me porque o faço sem a crença necessária. Estou, no entanto, preso à fé coletiva, cercado na Praça junto ao Obelisco, porém me sentindo a fração que atravessou distâncias e distâncias para estar ali vendo-o na janela, orando em idiomas diversos. A sonoridade mística do latim entremeava os vocábulos diferentes que pareciam estar saindo de seu ventre. Não sendo católicos, o contágio daquele belo espetáculo nos atravessou.
 
          Que sou, indagava-me e as células nervosas de meu self revelavam-se sarcásticas. Tu foste babilônico, judeu, sefardita, italiano e agora resides em país que ainda não se vestiu e provavelmente a miscigenação, o sincretismo religioso na imitação dos romanos em sua decadência, hão de mudá-lo ou os seus filhos ou a seus netos para outra massa sem forma de idéias e sonhos.

          Mas o espetáculo me atinge e também a meu companheiro. Assim é Roma e do ponto de vista de sua existência histórica ainda pode contar com o Vaticano e a Catedral São Pedro. Esta guarda o tesouro maior da arte sacra.  Logo à esquerda, quando entramos pela via central, a vimos em seu mármore branco diante da romaria que lá se postara comovida. Há quanto tempo conhecia Paulo VI. Bem me recordo que ouvia, quando menino, sobre suas idéias avançadas.
 
          Há pelo menos cem mil pessoas na Piazza. Ele ergue-se na janela ao lado esquerdo da Catedral, e o sol, que chega às suas vestes prateadas, passava a exprimir-se o que fora o passado de sua vida. Dele diziam, então, que tolerara o nazi-fascismo e taxavam-no de reacionário desde os tempos de cardeal em Milão.
 
          Descemos a via de la Conciliazione. Comentávamos a Capela Sixtina e a Grotte Vaticane. Hannibal aventou uma verdade: a nossa relativa capacidade de reter tanto volume de beleza que as lembranças se tornarão confusas em futuro breve.

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Published in: on agosto 2, 2008 at 4:23 pm  Deixe um comentário  

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