Roma, cidade aberta

Roma, 19.04.1973 – Quinta-feira

          No Aeroporto Leonardo da Vinci após vôo tranqüilo. Com José Paulo Viana tinha partido à meia-noite, e sem reserva de Hotel, pedi ao motorista a indicação de algum na Città Véchia.  Meu cunhado, engenheiro que se comprometera com a equipe a instalar a discagem telefônica direta entre Brasília e Rio de Janeiro, assim o fizera às vésperas da mudança da capital. Era então, no meado dos cinqüenta, o maior desafio do Presidente J.K.

          Da casualidade de nosso pedido ao motorista nasceu o meu relacionamento com Guido Ludovicci a perdurar até o presente. José Paulo, de passagem para Alemanha, e eu ao encontro de Hannibal.

          O táxi rápido alcançou Piazza Venezia na altura do Bolo de Noiva, mas usual comício dos comunistas impedia a passagem ao nosso destino, levando-nos o motorista a outro percurso para via Cavour pela Fori Imperiale e, desse modo, antecipava-se à massa humana que ainda não alcançara o trajeto via IV Novembre, onde se situava o hotel. Bandeiras vermelhas com a foice e o martelo já despontavam no tempo de tirar as malas e entrar no albergo.

          Enquanto se manifestava o protesto pelo atentado contra os filhos de Mattei, tivemos tempo de passar pela gerência, ser atendidos por Guido, subir aos cômodos, telefonar, lavar-se e trocar de roupa para sair.

           Senti quando em minha frente se mostrara o Mercatto Traianei e no instante mesmo do reconhecimento, minhas lembranças iluminaram-se de súbito como outras que se exibiram desbotadas como se fossem de velhos filmes, reminiscências de mocidade.

          Falei a José Paulo da estranha coincidência de cruzar memórias antigas com regresso confuso àquele instante.

          Por ali rodara e rodara, Roma sombria e atemorizada. Como ocorrera em Paris, após o resgate aliado, soldados e oficiais nazistas estavam homiziados em residências de colaboracionistas. Escondidos e cientes da derrota, defendendo-se à bala quando descobertos.

          Já era plena tarde quando eu e José Paulo resolvemo-nos a chegar à Coluna Traiano, atravessando a rua, e sair da turbulência de manifestantes tardios, parecendo subir a Nazionale, visando ao Quirinalle.

          Por algum tempo em pé de frente aos fundos do Mercato admiramos os holofotes lançando as luzes sobre pedras espalhadas naquela longa avenida então intensa de movimento.

          Confundiam-me as circunstâncias. Havia duas realidades como na visita ao Castelo de Hamlet em Copenhague. Em torno do diálogo de Heisenberg e Bohr sentíamos que o Príncipe da tragédia de Shakespeare criava uma falsa realidade que se sobrepunha a outra provável e desconhecida.

          Então, nesse momento, ao ver do presente de que no trecho de ruínas escondido pelo Mercato levavam-me a lembrar o discurso de Marco Antônio diante do corpo de César ali assassinado.

          Era intromissão do poeta e dramaturgo inglês, milênio e meio depois, me fazendo sobrepor-se à realidade nova dos holofotes e viver outra, falsa, saída de ficção durante a passeata por onde desfilavam milhares de pessoas convictas de nova era, suposta perfeita em sua arquitetura social.

          A imaginação caía sobre meus passos, os mesmos pés de agora descendo da viatura para exibir nossa identidade aos aliados, libertadores da cidade eterna. Aqui, mesmo distante ao busto de César, quase colado às muralhas do Palatino, fomos abordados rapidamente por um tenente que também nos esclareceu que a partir do Coliseu devíamos tomar precaução quanto ao fogo amigo.

          Em nossa tarefa de pesquisa não podíamos estar fardados em razão do risco que a viatura despertava.  Roma já resgatada dos ocupantes tedescos, nós, vindos de tão longe, cruzamos por aqui sem consciência do que em verdade ocorrera.

          As duas visitas a Roma parecia terem-se encontrado, a primeira de 1944 me fazia lembrar que tudo era subjetivo, as imagens iam e vinham em minha cabeça e se desordenavam em razão de não estarem inteiramente conjugadas a nossas atribuições. A de agora, eu conseguia gravar passo a passo porque o suspense da primeira e o interesse histórico da segunda juntavam-se no presente.

          Dessa vez, a figura do Imperador Trajano me vem com o agregado de quase trinta  ano Seu tempo fora de liberdade, quando se reuniram, segundo as palavras de Tácito.

          A si próprio duas coisas eram incompatíveis: o principado e a liberdade. Mas aquele Príncipe espanhol, de hábitos simples e austeros, mostrava-se soldado também, cultor da disciplina e voltado aos delírios das conquistas. Já liberdade atingia-se pela outorga, pela graça do Príncipe e não pelo Poder.

          Se tu queres que sejamos livres, o seremos, dissera Plínio, o Moço, talentoso adulador daquele tempo.

          Para ser grande e respeitado, cumpria não esquecer as brutalidades, o espetáculo do circo. Trajano, que em baixo perambulava, só e desacompanhado, sem traços de afetação, amando as coisas simples, prezando ser tratado por Mestre, estava a pouca distância do Coliseu, onde os dálmatas padeciam os horrores da derrota.

          Ali estavam eles, em relevo, na Coluna do primeiro Antonino.

          O Mestre Hannibal me aguardava no hall do Trajano e conversava com Guido. Conseguira localizar-me por recado que lhe deixei por telefone.

          Sentamo-nos, abordando novo encontro em Basiléia na próxima semana. Minha vinda eu a fizera com propósito de apenas passar por Milão e tomar o trem da manhã para seguir diretamente ao mesmo lugar.

          Afinal, estaria eu no dia 23 para o encontro com os irmãos da Ordem. Trouxera as anotações para o comunicado sobre Ouspensky em seu exame do Ensino.

          Enquanto isso, fomos girar pelo centro histórico em todas as imediações. E assim o fizemos. Poucos conheciam Tácito e Plutarco quanto Hannibal.

          Este nome tinha-o na palma de minha mão. Incontestavelmente púnico.  Nome de  tio paterno, o primogênito do meu avô, e pesquisando sobre quatro séculos, encontrei quase uma dezena deles que passei a considerar do ramo familiar de meus antepassados na Itália Meridional.

          Porém devia haver uma razão histórica, talvez suponho que o ressentimento quanto à vitória romana sobre Cartago.

          Jantamos próximo ao Hotel. As picaretas da Prefeitura abriram nos primeiros anos do decênio de trinta, bela avenida, via dei Fori Imperali que conduz ao Coliseu, expondo as ruínas de extensa rua nos fundos do Mercado. Os holofotes ora lançam sobre as pedras solitárias, grandes e pequenas, oito metros de profundidade, a invocar o pretérito dos Antoninos. As colunas destacam-se na noite deste encontro com Roma.

          O restaurante que escolhemos chama-se Úlpia e de sua janela vejo a de meu quarto de hóspede. Havíamos de debruçar após a refeição na amurada e a Cidade Antiga estava abaixo dos meus olhos. Sinto-a à distância de trinta séculos.  

          Tudo aquilo há um quarto de século lembrava-nos o fim do Império dos Césares ou em termos nietzschianos o nascimento de nossa atual tragédia.

          Subimos, depois de andar e andar, até o Coliseu.

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Published in: on julho 26, 2008 at 6:50 pm  Deixe um comentário  

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