Apolo e Dionísio

Roma, 20.04.1973 – Sexta-feira Santa.

          Dia propício a caminhadas, despedi-me de José Paulo durante o café da manhã. Guido sentou-se conosco no salão do fundo onde funcionava o restaurante. Contou-nos a história do palazzo desde a reforma que o sítio sofrera no século XVII. Mas estava em minha pasta a velha gravura que comprara em feira de livro próxima à Galleria da Via Del Corso.

          Parecia ter sido a reprodução de desenho do local tomado da calçada do Mercatto mas visando a Collona Trajana. Seu histórico devia-se à Piranesi Arcchittett dis. inc. cujo texto retratava o lugar após os reparos feitos pelo Papa Sisto V em seu plano de reforma de Roma, nos finais do século XVI.

           À direita, meio escondidas por ruínas, as Igrejas de S. Maria di Loreto e Nome de Maria. Ao Centro ergue-se a Coluna de Trajano com os desenhos à bico de pena. As pedras do Mercatto amontoavam-se nos pontos em que o quadrado da Praça se põe diante do local onde Miguel Ângelo viveu por muitos anos e esculpiu Moisés, hoje em S.Pietro in Vincoli.

          Seria a nossa primeira visita pela manhã e vazio estava tudo naquela sexta-feira santa de 1973 entre o Campidoglio e o Quirinal, bem no final da via IV Novembre. Giramos como morcegos ao redor da Coluna. E em meu refletir imaginei suposições em torno de Miguel Ângelo que naturalmente não escaparam a Vasari, o seu maior biógrafo.

          A casa tinha duas portas, ambas de frente para o então chamado Matadouro dos Corvos. O quarto de Miguel Ângelo dava–se para a rua. Era a morada junto ao pedestal da Coluna, bem onde nos púnhamos com quinhentos anos de diferença.

          Meu diálogo com o passado trazia a presença do grande florentino ao centro da Praça com as ruínas abandonadas de minha gravura.

           Mesmo assim o trânsito de pessoas que se dirigiam ao Quirinalle, inclusivamente figuras do patriciado a passar diante de nosso espaço-tempo relativo, para ver nas janelas do Palazzo dos Colonnas a sombra de Vittória, a própria beleza, protegida como noviça pela Igreja Católica Romana.

          Buonarroti comigo foi educado sob o teto de meu pai, disse o Papa Leão X, que certa feita ali, sem aviso, o visitou, e Miguel Ângelo, esculpindo em sua oficina, não sabendo o que fazer diante de quase um irmão. Ambos se criaram no Palazzo Vecchio, mas em nova condição, o muro do respeito erguera-se  entre os dois adolescentes. O primeiro, filho de Lourenço, o Magnífico, o segundo, gênio, descoberto por Guirlandaio, adotado pelo maior protetor das artes em Florença.

          Quantas coisas devia fazer naquela alvorada do Quinhentismo. Nada a justificar estar ali presente, a viver tão chegado aos Tempos Modernos!

          Que fazia o gênio florentino na sobretarde de sol? Descia dez degraus de escada e a subia outra vez em frente, o que o obrigava a passar pelo portal do Mercatto diante do futuro Hotel para depois dobrar à esquerda e outra elevação levá-lo ao Qurinalle, Preferia, desse modo, não alongar o trajeto.

          Certa vez, em dia de domingo deu-se o encontro formal com Vittória Colonna, no crepúsculo quando, convicto da versão feminina de uma santa, segundo os ocultos admiradores de Savanarola. Tomou o caminho oposto da via de Cavalli, descendo-a e vendo-a junto a grupo.

          Vittória levantou-se e deu alguns passos a seu encontro, Os olhos verdes o fitaram e murmuraram: Acolho-o Buonarroti, como a um velho amigo, pois as suas obras me falam. E definiu-se de modo sombrio: disseram-me que o Senhor conheceu o Frei Savanarola. À vaga resposta, dizendo que sim e não, o florentino respondera que desejaria tê-lo ouvido antes de sua execução.

          Estranhamente passou-me ao interesse o que teria ocorrido se a Santa Madre Igreja houvesse moderado as suas atividades militares. Lutero deixaria de levar à Sua Santidade o desafio da Reforma?

          Quando deixamos a Coluna subimos, eu e Hannibal, pelo mesmo trajeto.

           Ao passar pelo Hotel Trajano acenei a Guido que estava à porta recebendo outro hóspede. Subimos pelos sítios onde então estavam os banhos de Constantino, seguindo pela direita até a escadaria ampla onde havia os jardins do Convento de São Silvestre. Tanto gostaria de saber que não era por suas aspirações de mudanças que a proteção chegara aos extremos da época. Houvera uma verdade naquele diálogo, atualíssimo, quando Miguel Ângelo suscitou as violências das pregações, provocando a destruição de obras de arte, às vezes pelos próprios artistas como o fez Boticelli.

          Fazia mil pedidos de perdão à Vitória ao dela receber a mais profunda das justificativas: Ninguém limpa o coração humano, varrendo-lhe a mente.

          Queria Vittória Colonna justificar a repressão e a alienação dos justiceiros como irrecorrível imposição da verdade estabelecida por dogmas em nome da liberdade?

          O que me fazia pensar naquelas versões, especialmente a de Arthur Gobineau em sua obra sobre a Renascença, estava na dicotomia de Apolo e Dionísio, seguindo o confronto entre a Ética e a Estética no pensiero confuso das mulheres. As duas estranhas criaturas que me vinham à cabeça eram Vittoria Colonna na primeira metade do século dezesseis e Lou Andréas Salomé meio milênio depois; a primeira apolínea e a segunda dionisíaca. As duas criaturas que nos permitem compreendê-las são também dois gênios ferozes: Miguel Ângelo e Frederico Nietzsche.

          Chegamos à Fontana de Trevis com centenas de turistas lançando em suas águas tranqüilas a moeda de pedido simples: a volta um dia àquele local, à admiração àquelas figuras de deuses autoritários da crença pagã, quando a estética massacra as convenções e o belo impera sem aceitar o diálogo. E minha lembrança retornou ao encontro que Fellini gravou em Dolce Vita aquando do encontro de Mastroiani com Anita Ekberg. Que se banhava vestida naquelas águas passadas.

          Afinal,sentimo-nos famintos da excursão que fizemos pela Piazza d’Espagna a fim de encontrar o restaurante. Guido nos dera cartões para dois, que eram fechados a turistas. Retornando da Piazza Del Popolo pela via Del Corso, almoçamos próximo a Navona, usando um dos cartões de apresentação com um sinal que me parecia esotérico.

          Durante o Jantar falei-lhe sobre minha compulsão em consultar o passado. Ouvi-lo em razão de minhas próprias dúvidas.Não me agrada em nossa cultura a adoção quase generalizada da alienação atual, procedente do ponto de vista de que somos alheios do universo, destacados, digamos, do evolver independente da totalidade, como que se lhe fôssemos estranhos, subprodutos de forças autônomas, alheios,  a forças superiores à nossa frágil inteligência.

          Se foi superado o sentimento convencional do ser humano, é mister rever o relacionamento entre matéria e consciência sob o prisma da Física a fim de que possamos associar-nos com o universo. Do ponto de vista dos fatos, o que expomos procede de relatos que se tornam congelados com o tempo, ganhando os fatos gravados por versões, material inerte que não compõem o processo contraditório do diálogo, a fim de que a aspirada complementaridade entre o ser e o passado não se torne banal.

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Published in: on julho 26, 2008 at 6:58 pm  Deixe um comentário  

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