Primeira visita

      Londres, 14-12-72 – Quinta-feira.

           Consultando o fuso horário, fiz as ligações para Ana Elisa e para Minas. Precisava organizar as minhas coisas até o cansaço jogar-me na cama.

           Tomei o café da manhã com Olinto. O apartamento estava repleto de livros e quadros. Na sala a óleo o retrato de Zora que lhe fez Portinari no meado dos anos quarenta. 

           Após andar a manhã inteira, por volta da uma hora sentamo-nos para o almoço em restaurante do bairro chinês. 

           De Londres, que dizer? A movimentação, que não é nervosa, as pessoas circulam sem muita pressa, gente diversa, singular no aparente desinteresse pelo próximo, Negros, indianos e turistas são naturalmente reconhecíveis. 

           Mas não serão conclusões apressadas, eu me indago? Afinal, hoje conheci a cidade. Ela sempre escapara de minhas saudosas missões dos anos quarenta.

           Mas houvera o Cineac, uma vez por semana. Jornais alemães, espanhóis, norte-americanos. Londres castigada com bombas vindas do continente, aperfeiçoadas por Von Braun durante o clímax da guerra. Eram lembranças que por anos adormecidas vinham-me à razão diante de duas realidades históricas, a presente e a passada.

           Dirigimo-nos depois a Foyles e Dillons, então de taxi, uma vez que os músculos não mais atendiam nosso esforço.  Comprei livros que procurava e saímos duas vezes para o repouso nos pubs, cujos conhaques faziam voltar o ânimo.

           Aquela gente avaliava-se pela idade. Eu a via dirigindo-se aos ônibus e carros, rápido percebia-lhe a idade: um quarto de século mais dez anos e classificava a massa entre os heróis e os não-nascidos. Trinta e cinco anos de diferença ainda constituíam a maior parte dos primeiros. A geração nova, entre doze e 30 anos, vestia outro trajo, sorria diferente, olhava para o semelhante que passava e provável que a consciência nele se fixava de modo a reprovar a guerra.

           Curiosamente lamentamos os conflitos brutais entre seres humanos que não se conhecem, que não se ofenderam pessoalmente. Mas, desse modo, motivados por indignações justificadas. Em confronto conosco estão os adversários, sentindo-se também dispostos, ofendidos ou humilhados, por represália ou ainda moralmente obrigadas a matar ou morrer.

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Published in: on julho 19, 2008 at 4:18 pm  Deixe um comentário  
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