Museu Britânico e a despedida

Londres, 16.12.72. Sábado.

          Passei o dia no Museu Britânico. Visão geral que pode ser útil, sobretudo para despertar o espanto diante do acervo acumulado. Em vôo de pássaro, é preciso cuidado quanto ao julgamento. O juízo sobre uma peça egípcia ou persa, de um busto romano ou de quadro renascentista quase nos desintegra em primeira impressão. Sujeito à ação dos sentidos, recebe o observador o impacto do objeto com as indicações postas abaixo.

          Em seguida, os neurônios mobilizam-se naquele conhecimento recolhido em várias situações no tempo e agregam tudo aquilo que é cultural vivido sobre a obra em si. É preciso, naquele cotejo, reduzir os passos, parar, sentar-se e arrumar o passado com os dados disponíveis. Trata-se, afinal, de exercício de lembranças.

          No final da tarde, o que se vê, embaralha-se. Observei, durante o jantar, que não seria capaz de comentar por mais de meia hora o que vira naquele museu enorme. Concluí por admitir que em semanas e meses de freqüência, nossos olhos passariam a destacar cada coisa em seus devidos lugares e arrumá-los em nossas cabeças.

          Jantamos no bairro chinês, bem movimentado na sexta-feira noturna. Zora explicava os mistérios dos temperos. Solicitei ajuda de talheres ocidentais porque a minha mão ainda se mostrava atingida pela demorada imobilidade.

          De súbito, velhas recordações vieram-me nítidas do distante decênio de quarenta em seu segundo ou terceiro ano.

          Sentamo-nos em lúgubre black out que se fizera por toda a baía da Guanabara visto que a notícia de submarinos alemães em nossa costa vazara até a população.

          Do grupo de amigos, Osvaldo Alves, Rubem Braga e Camilo Soares, eu era o único em serviço de guerra, mas não podia comentar do assunto. Copacabana às escuras e quase junto ao Forte, em bar próximo ao Posto 6, falávamos sobre política seguindo desinformações vindas por meio da Liga de Defesa Nacional.

          Dez anos depois viria o matrimônio de Olinto e Zora com a sucessão de outros que incluíam o celebrado em Pleno Oceano Atlântico. Diante de tantas provas de amor, em solenidade oficial, fomos padrinhos e madrinhas no Juízo Civil em cartório de Copacabana. Eu,  Ronald Levinson e nossas respectivas esposas.

          Um casal assombroso na amizade aos amigos, nos hábitos simples, com o ânimo de trabalho.

          A visita a Westminster, só, por toda a história da Inglaterra. Não senti o tempo passar, o silêncio é gélido. Pisava incomodado sobre os mortos com certo constrangimento, assustado quando os meus pés passaram sobre T.S. Elliot. O poeta que primeiro me fizera entender o que é o tempo, há anos e anos, ainda colegial.

          Fora um sacrilégio, refleti, enquanto outra personalidade surgida de súbito justificou-se que aquela presença invisível era homenagem nobre que o povo inglês podia a mim fazer.

          Às quatro horas o táxi me apareceu para seguir até o aeroporto. No entanto, oito horas de atraso aguardamos para o embarque.

Anúncios
Published in: on julho 19, 2008 at 4:25 pm  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2008/07/19/museu-britanico/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: