Reunião de mineiros

Londres, 13-12-72 – Quarta-Feira

          Às duas horas de tarde pousamos no Heathrow e de táxi sigo para o Holliday Inn próximo ao prédio onde residem Antônio Olinto e Zora. Desde os começos dos anos quarenta, ambos meus amigos e afilhados de casamento.

          Não me parecia ter seguido com rigor as instruções do médico em Paris e já devia ter retirado os pontos, e fazer novo curativo, se necessário. Meia hora de descanso, desci com destino à Embaixada, onde Olinto desempenhava a função de Adido Cultural. Próximo, apenas à pequena distância, estava o consultório do Dr. Batyra, que fez o necessário, considerando-me curado. Com simples esparadrapo livrou-me de prosseguir com as explicações do tombo. 

          Senti-me aliviado, e realmente o médico da Embaixada brasileira considerou perfeita a providência da colega inglesa residente no Hospital Americano do bairro Victor Hugo em Paris.

          Saí com Olinto a flanar pelos arredores comerciais até Hyde Park, seguindo pela Regent St, retornando a Oxford St., enquanto ele me indicava os pontos bombardeados onde se ergueram os novos edifícios.

          Impressionava-me o passado, primeiros anos da década de quarenta, quando assistíamos no Cineac, Rio em jornais cinematográficos alemães, ao cair das bombas sobre a heróica cidade.

          Alcançamos o final do passeio, sentando-nos no pub próximo a Picadilly Circus, repleto de inglesas elegantes que buscavam os salões de chá.

          Retornamos cansados em pleno rush. Incorporou-me ele a grupo que marcara o jantar em restaurante indiano próximo ao Holliday Inn. E com sua conhecida gentileza levou-me com minhas malas para o seu apartamento.

          Seria seu hóspede, eram ordens de Zora, que deviam ser cumpridas: éramos mineiros da Mata, acrescentou como convincente razão.

          Lá pelas vinte e três horas o compromisso assentado deu-se com o grupo que nos aguardava no restaurante indiano. Encontrei meu primo Rubem Garcia que era do Consulado. Mundo pequeno. O restante era também da colônia mineira em Londres: Helena Valadares, Virgílio, diplomata, também conhecido como pintor de escola ingênua e ainda Selene, também Valadares, alta funcionária da Embaixada, que não era mineira e de outro ramo da família em Mato Grosso.

          De modo que em Londres, em sítio indiano, só falamos sobre Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina, da zona mineradora e da Mata.

          Helena falou sobre o seu pai, que foi o único governador mantido quando se deu o golpe de estado em l937: o temperamento de Benedito, suas virtudes de político e pessoa, que não sabia avaliar a astúcia do mineiro, que pouco falava sobre política. Desde que assumira, ainda no governo provisório, ou seja, antes da Constituinte, grande parte do seu tempo fora de estudo a fim de dominar o português e o francês e aperfeiçoar-se em disciplinas como o direito e economia.

          Vargas, após o Estado Novo, não deixava de ouvi-lo durante crises esporádicas. Quando, finalizada a guerra, já em l945, urgia a democratização do País e Benedito urdiu, de modo espetacular, seu esquema de eleger-se para a Assembléia. Após a constatação de seu desgaste durante a ditadura, destituído Vargas do Poder, sugeriu-lhe que se formassem dois partidos aparentemente opostos, cada um voltado aos segmentos conservadores e esquerdistas, orientá-los no apoio ao General Dutra a fim de vencer a União Democrática Nacional.

          Não só Vargas elegeu-se constituinte bem como sucessor de Dutra, quatro anos depois. Helena, sua filha, conosco confirmava o que Olinto aferira para a biografia do senador por Minas Gerais. Unidos os pelegos e a burguesia rural.

          Voltava eu às minhas raízes e ao meu idioma. Compreendia sempre a importância de amar a terra natal. Ademais, o céu é sempre o mesmo em qualquer parte do planeta.

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Published in: on julho 12, 2008 at 4:12 pm  Deixe um comentário  
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