Gente fria e silenciosa

Copenhague, 11-12-72 – Segunda-Feira 
     

          Ponho-me a conhecer, pela manhã, o centro histórico da cidade. Por interesse de cliente, visito os escritórios do grupo Möller, bem como as suas fábricas. Estou só com o motorista e ouço em bom inglês suas referências ao Centro Histórico. Comunico-me com os naturais, percebendo, entretanto, certo ressentimento do dinamarquês, resultado de guerras passadas.

          De carro percorro os bairros mais afastados, buscando captar o modo de vida. A temperatura cai ainda mais, abaixo de zero, mas ora o frio é seco, nada desagradável. O que impressiona, em geral, é a organização, que parece superar a da Suíça.

          Quanto a brasileiros aqui residentes, o total não ultrapassa poucas centenas de pessoas, que se reúnem algumas vezes por ano, em datas de nossa história, em clubes ou, na maioria das vezes, na própria Embaixada, por convite da Embaixatriz.

          Estando presente um escritor confessei-lhe minha ignorância a respeito da literatura dinamarquesa. Só sabia o que lera de Andersen, contista e poeta do Novecentos, mas guardava interesse especial em Poul Martin Möller ao ler na biografia de Niels Bohr, de Abraham Paes, que o citado romancista lhe havia exercido forte impressão quanto às suas idéias a respeito da complementaridade como espécie de relatividade.

           Tratava-se uma série de eus que Bohr percebia dividirem-se em progressiva seqüência retrogressiva por eles próprios reconhecíveis. Na mente do sábio as coisas se complicavam, tornando-se tonto, fazendo-o sentir dor de cabeça.

           Tal confusão de sentimentos, a chamemos assim, realçava idéias em torno de antigos dramas literários como o diálogo, por Bohr conhecido, entre Arjuna e Krishna em Gita. Em seu avanço nas pegadas de Planck a propósito dos”quanta”, Bohr demonstrou os saltos quânticos descontínuos, criando mudança conceitual emergindo da teoria de então.

           Todo esse quadro explica as direções que Karl Popper apontaria em suas pesquisas teóricas sobre possibilidades ou probabilidades como queira o leitor. 

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Published in: on julho 12, 2008 at 3:47 pm  Deixe um comentário  
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