Realidade e existência humana

Copenhague – 10.12.1972Domingo

          Almoçamos hoje próximo ao Castelo de Krömberg em Mariannelund Krom, estalagem do século XVI. Creio que por oitenta quilômetros dirigimos, revezando-nos na ida e volta. Conosco a Embaixatriz. Santiago desculpara-se com outro programa inadiável.

          Após, fizemos longo passeio pelo bosque em temperatura fria e seca. Certo cinzento parecia prenunciar a neve, D. Maria Thereza observara. Em nosso retorno, à noite, o Embaixador, ele próprio, prepararia a refeição, exercitando o seu hobby que iniciara em Paris, quando jovem em começo de carreira. Era versátil e incansável.

          Também apreciava a arte de fotografia, cujo álbum me mostrara. Excelentes, as fotos. Durante o jantar exporia a relação de seus estudos favoritos, confessando-me que de quando em vez se sentia incomodado com o seu trabalho cotidiano por ser demais burocrático, pois o Itamarati muito levava em conta o pequeno intercâmbio com a Dinamarca tanto no plano do comércio quanto cultural.

          Visitamos o Castelo. D, Maria Thereza o conhecia nos pormenores, inclusivamente o diálogo referido nas Memórias de Heisenberg, quando de sua visita ao mesmo em companhia de Niels Bohr.

          De um comentário do último, emana o sentimento próprio da consciência com a realidade.

          Após longo silêncio entre os dois sábios, devagar o percurso, Bohr deu começo a reflexão com a pergunta se não era estranho ser outro o Castelo, desde o imaginar que nele teria vivido Hamlet.

          Como cientistas, prosseguiu, cremos que um castelo consista em pedras e admiramos o modo como o arquiteto as dispôs. Elas, o teto verde com sua pátina, as madeiras talhadas da capela é que o formam.

          Nada de tudo isso devia ter-se alterado pelo fato de nele ter vivido o Príncipe e, no entanto, tudo sofreu mudança. Normalmente, os muros e as muralhas exprimem-se em outra linguagem…

          Ora, o que sabemos, em verdade, é que seu nome apenas tenha aparecido em crônica única do século treze… Porém, cada pessoa está a par das questões que Shakespeare suscitou em sua tragédia com as profundas reflexões conhecidas; desse modo, ele também devia achar um lugar aqui em Krönberg.

          Quanta diferença em nosso consciente; fala-se outra linguagem. Tudo se torna diverso: as pedras, o teto verde, a capela. Passamos a comentar o monólogo de Bohr, sem fazer incidir no tema o meditar do criador do princípio da incerteza.

          O que sentimos consistia em que Hamlet também estivesse, como o fantasma, observando cada passo dos dois físicos. Porque também silenciamos a cada suposição de Hamlet, a sofrer os horrores de suas angústias e projetando-as à posteridade.

          Estávamos os três observando um sistema quântico.

          Talvez o mesmo sentido de ansiedade diante do gato de Schrödinger, porque ele não foi encontrado morto quando abrimos seu caixote, e sim porque olhamos para ele.

          No entendimento da doutrina quântica, há uma física de nossa consciência, sugerindo muitas idéias entre os seres humanos e a realidade. Talvez um deus ex machina intenta desembaralhar tantas hipóteses suscitadas por meros observadores.

          Temos que supor primeiramente ao arrepio da concepção cartesiana que a mente e a matéria são entidades distintas. 

          Outra vez nos exprimimos. A Embaixatriz indicou-nos certo ponto do bosque onde o fantasma aparecera a Hamlet. Outro complicador eu via na possibilidade de que Shakespeare jamais houvesse percorrido aquele Castelo. Se o Príncipe ensandecido estivesse então conosco, ele então estaria se unindo a seus observadores? Sim, desde que eliminada a seta do tempo.

          Porém a realidade é que sentíamos presentes na tragédia de Shakespeare, tendo a consciência, no salão do primeiro plano do Castelo, de que nos ligávamos inteiramente ao desventurado Príncipe.

          Tanto o nosso caso em conceber dois castelos, sendo o da nossa visita a morada de Hamlet, quanto ao colapso da onda em experiência de Schrödinger, advém figura da realidade em seu sentido dúbio dependente de como a vemos.

          Era o sentido das coisas que eu realçava na totalidade do tempo.

          Digamos que nós como visitantes únicos do Castelo, nos envolvemos com os problemas de consciência em função criada pelo impacto da tragédia do Príncipe, não considerando de que se tratava da consciência de Shakespeare, sentindo, naturalmente, que a realidade do Castelo fora a causa de toda a tragédia como se um Deus ex machina  fizesse funcionar os nossos conscientes.

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Published in: on junho 28, 2008 at 4:41 pm  Deixe um comentário  
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