Michael Field e Giuliana Tabernacolo Field

Paris – 06.12.72 – Sexta-feira

          Às 6,30 da tarde deixei Zurich rumo a Paris, hora e meia após desembarcava no Orly. Noite clara, frio seco. Não fizera reserva, mas me hospedei no quarto 43 do Le Grand Hotel.

          Desfiz a mala e ao lavar-me, sofri queda no banheiro desprovido do tapete de borracha. O médico chamado conduziu-me em seu próprio carro ao Hospital Americano e muito bem atendido por colega inglesa, meu dedo polegar foi restabelecido.

          Por volta das quatro horas da manhã, pensava eu cortando a madrugada fria do bairro Victor Hugo: que desapontamento de minha vinda a Paris, quarto de século depois da oportunidade perdida. Mas a verdade é que o acidente poderia ter sido fatal e imóvel naquela hora meu corpo ainda estaria jogado pelo chão.

          Mesmo sofrendo muito dor, em ligação à Ana Elisa ocultei o que acabara de ocorrer. O doutor, de pé em meu quarto comentava com a com a serviçal do andar que minha cabeça, ao cair, quase chegara a bater na borda da pia. Mais três centímetros eu estaria morto.

          Tentei encontrar Michael Fields ao meio dia no escritório do Daily Telegraph. A pé até lá, atravessei Vendôme e alcancei a rua Castigliani em menos de vinte minutos.

          Pela manhã, faminto por não ter jantado, decidi pela visita daquele centro, trazendo à memória as lembranças dos dias passados quando Paris acabara de ser varrida da ocupação alemã.”Era outra gente”, insistia em pensar, “ainda atônita, porém com o espírito aberto aos novos dias” Alguns alemães fanáticos insistiram em esconder-se. As respostas dadas pelos americanos e ingleses revelaram-se durante as revistas feitas em residências de colaboradores.

          Mas a vida da França republicana, Paris de Daladier e Paul Reynaud, desaparecera.

          Retorno do escritório do Daily Telegraph, ficando o recado a Michael de que aguardaria seu chamado no Hotel após as cinco horas.

          O tempo corria célere e quando revi grande parte dos anos quarenta senti-me cansado e segui para o Hotel a fim de aguardar o chamado de Fields.

          A mão engessada começou a incomodar-me, dor, porém suportável. Lembrei-me de que tinha em meu bolso receita do Dr. Lonnelongue, aviando dois comprimidos de analgésico antes de dormir. Poderia adiá-los até a noite, decidi. Também a jovem inglesa, dra. Cciley também me recomendara o antibiótico caso a mão doesse.

          Resolvi pela visita amanhã ao American Hospital. À noite ligaria à Ana Elisa e pediria sua opinião ou o faria quando voltasse para novo exame.

          Faço hora caminhando Pelo Boulevard dés Italiens, buscando lembranças do que vira nos jornais cinematográficos do Cineac durante a guerra. As pessoas agora caminham apressadas, não nos olham ou o fazem raramente.Já é final da tarde. Tantas impressões permitem sentir o espírito da Metrópole. As moças que passam, o senhor distraído ou o homem de óculos que sentado no bar aguarda o garçom; tudo em peças que juntadas, relembram páginas de ficção.

          Há em nossa memória cartões postais, trechos de filmes, lampejos de acontecidos e suposições que se ocultam em dejá vue.

          No girar à toa, colhe-se o espírito geral que prevalece, salta como traçado do Zeitgeist enquanto mosaico, cujas pedrinhas que não formam sentido imediato, mas bosquejo, traçados livres, sem títulos.

          Michael Fields e Giuliana me aguardavam no hall do Hotel para o jantar na Place de la Bastille. Ela, como sempre, amável, italiana de nascimento, fora artista de teatro em Nova Iorque, Roma, Paris, exprimindo-se bem em vários idiomas, solícita e agradável.

          Companheira de Michael em muitas de suas aventuras pelo mundo, que como correspondente cobrira a II Grande Guerra, posteriormente os levantes e conflitos colonialistas, e já nos anos setenta, decano dos correspondentes estrangeiros ainda militantes em Paris.

          Fui seu amigo no Brasil por toda a década de sessenta e princípios de setenta, quando transferido pelo jornal a Paris. Autor de Prevailing WindWitness in Indo China, publicado em Londres em 1965, foi traduzido para o português e lançado no Rio em mesmo evento que a minha Consciência Conservadora no Brasil e aquela simples circunstância nos uniu fraternalmente. A mim dizia que seus melhores amigos os fizera no Brasil, cuja sinceridade da gente o conquistara para sempre, não admitindo que qualquer deles deixasse de visitá-lo onde estivesse.

          Telefonei ao dr. Lannelongue e dei-lhe a impressão de que a mão estava melhor e passei pelo Hospital Americano lá deixando meia dúzia de discos brasileiros para os enfermeiros que ajudaram a doutora. Não me cobraram senão cem francos simbólicos,  o que representava o preço de um táxi de Orly à Opéra.

          Meu almoço com Michael e lunch com Giuliana no Café dès Anglais também me levaram às velhas recordações de Paris ferida logo após a libertação. Giuliana não nos esquecia e o sentido latino das coisas brilhava em seus comentários. Confessara-lhes, então, que só viera à França para vê-los.

           Levaram-me ambos a seu apartamento antes do jantar, onde Michael dispunha de sua biblioteca e de seus arquivos. Livros sobre coisas que vira e observara onde passara durante as jornadas de correspondente. Em português duas centenas ou mais de livros.

          O prédio integrara no século XVIII o Convento de freiras que Maria Antonieta, rainha de França freqüentava com devoção e que no dia de sua caça pelos facínoras do conhecido período de Terror, lá se refugiou sem resultado, pois presa e torturada foi conduzida à guilhotina.

          A história registra sua chegada e a tentativa da Ordem Religiosa em protegê-la, o que fez no sótão do apartamento em que eu, naquela visita, entrei para sentir o espírito daquela fração de tempo histórico.

          Outra vez me sinto como no salão de Sforzas de Milão, onde Leonardo da Vinci passara tenso vários dias enquanto concluía o notável retrato.

          Já no apartamento de Michael, Giuliana decorou o sótão como vira em gravura antiga. Em sua simplicidade de claustro, quase um santuário com a arca para roupas, o leito modesto ao lado da janela voltada para o Louvre. Eram apenas dois quarteirões da rua de St. Honoré 229 e Rivoli.

          Ali estivemos por dez minutos que para minha consciência representava a realidade da Revolução, a crueldade de meia dúzia de subliteratos e bacharéis a se matarem como os stalinistas de meu tempo, entregue um deles, o mais feroz, à carícia do cadafalso.

          Edmundo Burke no Oitocentos soubera protestar contra o espírito de Robespierre e sua corja  naquela radicalização que talvez tenha tido o mérito de buscar em Bonaparte o peso do castigo contra todas as injustiças cometidas. Mas o tempo de tudo aquilo me adverte também do sacrifício que exigiu do povo francês.

          Hoje, em outro milênio, posso estar equivocado em meu mudo diálogo com o decantado Iluminismo. Michael, inglês autêntico e Juliana, latina, tratavam o sótão como santuário, o que os levou a mobiliar o apartamento com o estilo do Setecentos. Justa a homenagem de um britânico a seu País, cuja nobreza e burguesia souberam realizar a transisão política em sua terra, sem recurso ao genocídio.

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Published in: on junho 21, 2008 at 3:30 pm  Deixe um comentário  

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