Ética e Estética

Basel, Zurich. 4-12-72 – 4ª feira.

          Ontem, pela meia noite, apresentei a Comunicação, lendo-a e procurando limitá-la à experiência de vinte anos. Mestre Hannibal sugeriu a Grieg que me procurasse no Hotel para debater pontos dos Estatutos e decidimos fazê-lo enquanto caminhávamos ao outro lado da cidade. Rodamos por lá trocando impressões sobre a gente que meu interlocutor tanto conhecia.

          Seguimos, por sua sugestão, até a estação ferroviária próxima e tomamos o trem para Basel. Valia a pena, ele dissera, acrescentando que iríamos a um restaurante italiano excelente no centro da cidade. Assim o fizemos na manhã enquanto a paisagem do percurso nos encantava pela simetria, pelo traçado das moradas. A locomotiva corta veloz o trajeto, sem ruído e nossa palestra se dava sem alterar as reflexões livres do diálogo.

          A lenta peregrinação da Ordem por seus trezentos anos de existência nos parecia natural diante das tradições a que se referia. Tal comentário introduzido como aparte muitas vezes era frase que acompanhava os fins históricos da agremiação. Parecia emergir do próprio assunto, ignorando sua condição barroca na observação nascida pela manhã.

          Basiléa, eu refletia, tenho de retornar aqui, percorrê-la sem pressa com Ana Elisa esse trajeto. Sobretudo cruzar a ponte e ver correrem as águas claras do Reno.

          Nosso almoço, meu companheiro o tornou latino na massa especial feita por milaneses. Muito me apetecera, atravessando a ponte extensa do centro, ir até a Universidade rever o cômodo modesto onde Frederico Nietsche convivera com a sua loucura. Tudo como era, nós víamos nos pormenores, no vazio de agora, misturando-se as criações do espírito com a nostalgia de suas incursões no amor platônico que o sadismo de Lou Salomé extraía de sua própria beleza.

          Então, a longa caminhada nos fez voltar à Estação. No mesmo Hotel, em Zurich, a mala extraviada fora posta em meu quarto com os sinais de criatura sofrida, úmida, porém incólume. O cartão da Swissair desculpava-se do fato e esclarecia que ela viajara até Moscou sem consentimento e do mesmo modo retornara sem justificativa.

          A bela jovem que me atendera à chegada enviava-me um recado a fim de provar que o senso de humor não era alheio à frieza suíça.

          Retornamos a Zurich para o Colóquio.

 

Zurich, 5-12-72 – 5ª feira.

          Dia de passeio e andanças. Levantei-me cedo Chovia, mas a Litmkmatquai protegia as lojas com marquises. Segui ao outro lado da cidade, movimentado sem agitação, no estilo de sempre.

          Um forte orgulho nesta cidade – Ora e labora – seu símbolo pressupõe o espírito religioso e o trabalho. A hospitalidade transpira-se no clima ordenado das ruas e avenidas, trânsito, quase silêncio, não se ouvem buzinas, obedientes os carros, que não se distraem ao manter os mandamentos da ordem. A lei municipal, em tempo não muito distante, fixava a meia-noite como hora de recolhimento, fechavam-se os bares e restaurantes a um bom cristão. A prédica de Zwingli domina a cidade das colinas arborizadas ou, quem sabe, das cordilheiras dos Alpes.

          Lá pelas alturas da descontração, livrando-me da chuva que se tornara mais forte, recolho-me em marquise e consigo um táxi. Lograva entender o sotaque do motorista que me falou de monastérios antigos às margens do lago.  Parti para um deles, a seu critério, onde ainda se dispôs a esperar-me.

          Senti a frieza do passado, o espírito adormecido como ser congelado, porém a minha tranqüilidade parecia estagnar-se em profundo sentimento de aceitação das coisas. A hospitalidade consagrada em condição quase religiosa. Ali estavam os nomes em placas pregadas às portas como santuário da tolerância política.

          Exilados como reis destronados, escritores como Dumas, pai, Goethe, Madame de Stael, Vitor Hugo, músicos como Brahms. Hospitalidade, humanística para gregos e troianos. Em uma dessas casas hospedaram-se Lenine e Krupskaia no começo do Novecentos. Em certa manhã de abril de 1917, dela saiam no trem lacrado para escrever o mais lamentável capítulo da história contemporânea.

          À noite, não saí por cansaço, jantando no Hotel, procurando sem sono concatenar a minha concepção de espaço que se delineara em minhas vivências.

          Dispunha como ponto de partida o estado da condição do nada. Dele, em razão do desconhecido, havia o vazio. De longe as luzes vinham, a energia que se pusera em movimento. De onde vieram? Da massa, certamente? Não importa. Porém se criava no ex-nada a figura de espaço-tempo. O último estava tecido no novo estado de coisas. Certamente, nada podíamos prever quanto a seu futuro.

          Eu entro no Duomo pela segunda vez e retorno ao Castelo Sforza. O meu lembrar da história remete aos espaços referidos, tanto do Castelo quando da Catedral, as personagens que lá estiveram e cuja obra, seja de que natureza for, é do meu conhecimento, povoam minha memória e minha consciência.

           Em Zurich e Basel encontrei espíritos e corpos em casas ligadas a fatos e atos que estão no curso histórico. Li ao lado dos portais o aviso que nos tocava: aqui residiu de tanto a tanto o pianista e compositor Franz Liszt.

          Meu intuito não é tentar entender os físicos de que exista espaço independentemente da Energia e movimento em conseqüência. Mas para tudo isso há o tom eventual, ou seja, aquilo que pode ser o que não é.

          Que dizer da Suíça, enfim, indagava-me. Como possível defini-la a vôo de pássaro?  Aquela suavidade, a ética que irrompe nos intuitos de cumprir a lei, Quanto ela contribuiu para nivelar-se à Itália?

          Em Florença, na era de Lourenço, o Magnífico sentavam-se à mesa do Palazzo Vecchio para jantar o próprio anfitrião com os amigos. Maquiavel, Picco de la Mirandola, Guirlandaio e o jovem ainda observador Miguel Ângelo a discutirem arte, ciência e Literatura. 

          A menos de quinhentos metros, Savonarola pregava, em seu fanatismo desvairado, os castigos do Inferno em razão do que havia de podre em toda a cidade, a lascívia dos ricos, os exageros da luxúria, as traições nos ventres da própria nobreza, a corrupção deslavada que devorava o bem público.

          Agrediu, do mesmo modo, a arte, ajudado por fanáticos pela ética dos fins, lançando na fogueira trabalhos de pintura, atraindo artistas como Botticelli, desvairado na queima de alguns trabalhos.

          Era a Toscana em seu esplendor, tendo em seu fastigio o parto da Renascença ali vindo à luz no último ano do século quinze. Trágico foi o destino de Savonarola, queimado em fogueira na Piazza della Signoria, final do confronto de Ética e Estética. O processo dos fatos, ou seja, o real, abonara o clima corrupção, tornando-se, à luz da história, o racional.

          Na abordagem do fenômeno do Renascimento, toda a corrupção que manchava a o Vaticano não o impediu em sua dinâmica do belo, que se punha em patamar superior aos Borgias e seus comparsas.

          E no que tange à Suiça, que proporcionou a ética da responsabilidade? Na Idade Média houve, em verdade, o mosteiro beneditino de Saint Gall com um acervo a exigir respeito, mas no seguinte, era propriamente do Renascimento, conta-se apenas Hans Holbein em Basiléia e no século dezessete destaca-se João Petitot em Genebra que se dedicou à pintura em esmalte. Quanto ao maior entre todos Mathieu Fussli, dedicado à pintura já no século XVIII, radicou-se na Itália com a família, e com seu filho, do mesmo modo, tornou-se célebre. Na verdade a Suíça só produziu artistas de grande mérito a partir do século dezoito, número expressivo, bons artistas, mas nenhum gênio.

          O que se vê mesmo é o predomínio da estética nas artes e mesmo na literatura, enquanto a ética destaca-se na ciência e na filosofia, em geral, porque o problema da criatividade vindo da emoção sintoniza-se melhor com o belo do que com o “certo” radical. Razão teve Kant em buscar a conciliação entre ambos.

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Published in: on junho 18, 2008 at 12:00 pm  Deixe um comentário  

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