Blasé Suiço

Zurich, 3-12-72 – 3ª feira.

          Mestre Hannibal, pelo meio-dia, pegou-me de carro e seguimos para o Aeroporto. A uma e meia da tarde zarpamos para Zurich. Cinqüenta minutos de vôo sobre montanhas cobertas de neve. Ao chegar, na esteira rolante minha mala grande não apareceu. Extraviara-se, mas sem burocracia preenchi o pequeno formulário, deixando o endereço onde ficaria hospedado. O frio estava suportável.

          Meu companheiro seguiu para a casa, e alojando-me no Hotel Leonard, Limmatquai, 136, às margens do Lago, onde a tranqüilidade suíça paira ao redor de suas águas claras.

          Girei só pelos quarteirões, sentei-me para o almoço e outra vez retornei ao passeio solitário, pensando sobre a sucessão de quadros que vinham até mim, enquanto, de quando em vez, advinha uma idéia nova para incluir em meu texto que serviria à noite para a palestra na Ordem.

          Por que me parecia que o espaço urbano abrigava o casario regular e coerente com a naturalidade do habitante usual? À tarde, a chuva intermitente não perturbava o transeunte, que fingia ignorá-la no exercício de acomodação à natureza.

          O self-remembering do Ensino Desconhecido, se praticado nas condições então vividas, iria distanciar-se muito da condição que o próprio Ouspensky assinalara. Trata-se de aviso aos gurdjieffianos.

          Na situação exercitei-me em etapas anos e anos para que pudesse discernir alguma coisa de novo. Fixava-me também em impressões que ficariam como retratos.

          Faço horas também no começo da noite, subindo a amurada e tendo a perspectiva aumentada.Creio que as lojas já com luzes para o Natal davam ênfase ao deslumbramento provocado por espécie de uniformidade humana. Estou de luvas e chapéu, sinto-me outra pessoa, em suposto espaço e em outra era, e vou seguindo a rota sem destino.

          Imagino uma cidade em miniatura com as moradias ostensivamente frágeis como se fossem de bonecas. Agora de um mirante vejo as luzes estilhaçadas pelas neves vagarosas a descer.

          Ando e ando por ruas distantes, já de capa bem molhada, sentindo-me então na zona do meretrício. As mulheres habitantes, com riso geométrico e artificial, encapotadas sobre a nudez, estão vermelhas de batom. Nas mesmas casas pequenas e antigas, tantas vezes refúgios de santos e anarquistas, mostram-se agora exibições chocantes. O falso amor é mesmo ridículo.

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Published in: on junho 17, 2008 at 12:00 pm  Deixe um comentário  

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