Francesco Sforza e Mussolini

Milão, 2-12-72 – 2ª feira.

          Alguns dados de ontem me escaparam. A viagem com destino até a escala em Roma não fora cansativa, apesar do atraso de quatro horas no aeroporto do Galeão, sem ar refrigerado e serviço de bar. A decolagem deu-se à meia noite, quando as condições de tempo permitiram. Desembarcamos em Roma doze horas depois, fizemos a conexão, prosseguindo até cá.

          Hoje, sábado de inverno, saio e tomo o café da manhã na Galleria. Encontro-me no centro da cidade como que preso a cartão postal que não me era estranho. Ao atravessar a via Del Corso em direção à Catedral os pombos se assustaram e alguns deles subiram-me aos ombros. Senti-os como bem-vindos e súbito o fotógrafo em seu posto desferiu-me o flash do instante.

          Parto para o tempo anterior desde o final da II Guerra. A Catedral, a alma da cidade. Segui passo a passo por quase dois milênios a história dos germânicos aqui chegados. 

          A alguns metros do solo há ruínas de um templo pagão quando da era romana. Já à época de migração dos povos na agonia do Império. Sim, não cometamos a injustiça de taxá-los de bárbaros.

          Necessários quinze séculos para erguer o monumento. No vasto interior, corre o silêncio frio que nos atravessa, vindo de inacreditável distância, forçando-nos a tocar levemente o chão e caminhar ao altar. Por acaso no percurso da nave tenho a impressão de uma centena de missas, em seu final, quando os cristãos em filas buscam a suavidade da hóstia.

          Recordo Eça de Queiroz a escrever sobre os templos antigos: “a cultura tem o aspecto de decoração maravilhosa. È solene, quase bíblica, de serenidade profunda e consoladora, Sente-se que quem a atravessa, deve falar baixo”.

          Poucas pessoas visitam-na pela manhã. Destaca-se a pedra rubra do Arcebispo Ottone Visconti, morto duzentos anos antes do descobrimento da América. A cronologia desordenou-se na manhã, foi o que os pombos me avisaram. Estou defronte do túmulo de Medeguino, em mármore romano, entre estátuas que lhe velam o sono.

          É cedo e estou só, resolvendo-me a percorrer a cidade, os locais que me intrigam.  Não podia esquecer as circunstâncias de abril de 1945 quando Mussolini tentou escapar dos acontecimentos “que corrigem os erros dos homens”.

          A Segunda Guerra chegara até nós em princípios da década de quarenta. Desci naquela tarde obscura do andar superior do Ministério da Aeronáutica, quando o Professor Böltig dava lições de alemão e grego, cheguei ao Gabinete do Ministro para atender ao chamado de seus oficiais Murilo Noronha e Guilherme dos Anjos.

          Só disseram que eu havia de cumprir certa missão, não revelada, que me levaria a algumas cidades da Europa. Eles completaram com pressa que falasse ao meu Comandante Col. Joelmir de Araripe Macedo a respeito dos pormenores.

          A ordem foi revogada e a missão desmanchou-se, mas me proporcionou dias após um sonho fantasmagórico por anos seguidos.

          De Milão não esquecera ainda que nada anotara e só a memória retivera locais supostamente conhecidos. Com relação aos companheiros das missões ou de tê-los conhecido onde servia, de estar a par dos objetivos do que tínhamos de fazer naquele final de guerra com relação a problemas e aos interesses dos aliados. 

          Dias antes, tinham ocorrido os fatos óbvios da queda do nazi-fascismo. Eu os retive taquigrafando as emissões radiofônicas que conseguíamos ouvir e traduzir. No dia 30 o Reichstag fora tomado de assalto. Hitler suicidou-se então, o que soubemos meia hora depois.

          Em Milão desde l0 de abril de 1945 os partigiane proclamaram a insurreição, intensificando-a nos arredores da cidade. Mussolini que se afastara do Castelo Sforza, onde seu governo fantoche se instalara, de lá escapou e seria preso em companhia da amante. Tentara fugir para a Suíça, sem resultado, sendo preso e executado com Clara Petacci, próximo a Azzano e pendurados os corpos de cabeça para baixo ao fundo de posto de Gasolina.

          A oportunidade ora chegava para a tomada de suposições que me ficaram na lembrança, desde os antecedentes históricos que soubera por leituras. Mas a missão mudara por sugestão dos ingleses. Afinal, os americanos haviam-lhes delegado os poderes dos serviços de Inteligência com sede no Panamá. Tomei o táxi e parti para locais que gostaria de dizer ao futuro que lá estivera por imposição do passado. Gostaria de conhecer Montanelli e dele indagar sobre os reais objetivos de Federzoni em sua busca de antinomia tão contrária às aspirações italianas.

          Concluí que provavelmente tudo começara na Piazza Lorena e dali à Galleria para as primeiras manifestações que levaram o fascismo ao poder.

          Miguel Reale, na Itália após o levante de 1938 no Rio e Natal, me contaria na década de sessenta que a ascensão do fascismo dera-se por equivoco difícil de ser desvendado. A minoria exaltada de variedade de tendências destacara-se em razão da fraqueza dos liberais e da incompetência generalizada dos monarquistas.

          Chovia desalmadamente. Rodeei a Praça vazia por inteiro e segui para o centro. Lá tomei o Metro e rápido cheguei a Cairolli bem próximo ao Castelo dos Sforzas.  Fortaleza, ao início, e modificações seguintes tornaram-na residência. Longa história de guerras, de devastações, restaurações.  Hoje, Museu.

          A História tudo retrata. A primitiva fortaleza, que serviu a dinastia dos Viscontis, fora devastada. Francesco Sforza ordenou sua reconstrução com o participar dos artistas do Renascimento. No próprio século XVI uma explosão destruiu a Torre Central do Filarete e novas mudanças fizeram-nas os franceses e espanhóis. Em 1800 Bonaparte mandou destruir os acréscimos.

          Sentei-me em cadeira diante da grande mesa, onde Mussolini fingira governar a Itália já praticamente ocupada pelos americanos. Séculos antes, Leonardo da Vinci, por aquele salão, andara de lado a outro enquanto pintava o retrato do Duque. Ali sucumbiram politicamente, no tráfico final do Poder, duas figuras distanciadas no Tempo e juntas no espaço relativo. Naquela sala, Ludovico, o Mouro, em final do século XV, mudando-se forçado para as masmorras francesas; nela também Mussolini assinou os últimos despachos de seu governo em decomposição.

          Hoje, um domingo de chuva, fiquei tolhido, girando pela Piazza d’Armi até o Forte onde se refugiavam os Sforzas em horas de muito perigo. A residência fora ali, Palácio da Corte Ducal, onde um afresco de Cristo, de autoria desconhecida, aparece crucificado.

          É hora de partir, pegar as minhas malas e seguir outro destino.

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Published in: on junho 16, 2008 at 12:00 pm  Deixe um comentário  

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