A viagem e o Santo Ofício

Milão, 1-12-1972 – Domingo

          Feita a conexão no Aeroporto Leonardo da Vinci, prossegui em trajeto doméstico até cá. Só, na minha poltrona, tentava memorizar impressões para o Diário. Prendia-me ao trajeto pelo norte da África, a razoável altura, e em algum momento o aparelho obliquou à esquerda a trazer-nos o traçado da bota peninsular.

          O trajeto percorrido havia me feito imaginar o tempo em que os neolíticos retornavam do abrigo africano ao término da era glacial. Acabara de ver os traçados irregulares dos rios extintos presentes nos leitos primitivos do deserto, como historiadores silenciosos.

          Bandos de caçadores regressaram ao verde do continente rejuvenescido. Para a Europa voltavam as estações climáticas regularizadas e ainda, por mais estranho que pareça, havia a presença de paleolíticos durante a era do gelo.

          Que estranha coincidência, vindo de rota que jamais pensara fazer, sobrevoar o Tirreno, reconhecer os golfos próximos à Sicília e à Calábria inclusivamente a enseada de Sapri, em cujos caminhos os meus antepassados passavam para chegar à comuna de Torraca onde viveram durante quatro séculos.

          A imaginação me permitia neles reconhecer os picadões e barrancos de minha cidade natal por onde eu cavalgava na puberdade à procura de cavernas que abrigaram os índios puris e morcegos mamíferos.

          Meu avô, certa vez, no final do Novecentos, não suportou a saudade e visitou a Península, levando a família, incluído meu pai. O desembarque deu-se em Nápoles no mesmo cais da partida. Veio-me à cabeça o que dissera Fernando Pessoa: todo cais é uma saudade de pedra. Meu pai jamais esqueceria dos moleques próximos ao convés, buscando as moedas jogadas pelos passageiros.

          Desde a Idade Média, o clã trocava de continente. Duas vezes contra a sua vontade, a fuga para Sefarade e, outra, em razão da solução final de 1492, quando, já cristãos, foram expulsos pelos reis católicos por conselho do Santo Ofício. “Faça-o ou cairá sobre vossas majestades a excomunhão”.

          O motivo da escolha fora o quadro de perseguições que envolveram os conversos, afinal salvos pela generosidade do Duque de Nápoles. O clã já era, em seu maior número, constituído por cristãos novos, mas as perversidades dos informantes, alguns marranos a serviço de Torquemada, arrolavam, a seu gosto, os considerados suspeitos.

          Enfim, as surpresas da Meia Idade foram naturalmente exacerbadas pela tomada de Constantinopla pelos turcos no meado do Quatrocentos.

          A ajuda salvadora viera do Barão de Torraca, pessoa cordata, que abrigou os perseguidos, deixando-os permanecer na comuna ao redor de seu Castelo.

          Minha indagação sempre fora por que motivo os reis católicos se deixaram levar tão facilmente pelo Santo Ofício. Concediam aos judeus e aos cristãos novos a confiança do Reino, no desempenho das mais importantes tarefas administrativas, bem como das atividades de profissionais liberais nas áreas de medicina, do direito e de negócios.

          O pulso feroz de Torquemada os fizera recuar. Fernando e Izabel recorriam à tática protelatória, mas em vão e em 31 de março de 1492 firmavam em Granada o édito, incluindo entre os sefardins, os conversos de diversas categorias, mesmo os que reconheciam a imparcialidade da Conferência de Tortosa. Se o destino ajudasse, a morte do feroz dominicano, ocorrida poucos anos antes da chamada solução final, talvez interrompesse o desterro ou o amenizasse.

          Todavia não se explica o motivo por que a cultura judaico-cristã deixara-se equivocar diante da imposição ferrenha. A circunstância havida leva-nos a crer que os reis reinam, mas não governam. Batiam-lhes as pressões da nobreza, do alto clero, e convenhamos, dos fanáticos, fossem camponeses e artesãos.
Hábito dos donos do Poder acatar o ponto de vista de que a religião é um dos meios de que o Príncipe pode utilizar a seus fins: a bajulação aos Inquisidores. Nesse ponto, a própria tolerância e constrangimento dos Reis Católicos não seriam levados em conta.

          Porém a suposição bate de encontro com a lógica de usar a capacidade e o preparo indiscutível dos intelectuais judeus.

          O apego à versão medieval, adotada pelo Santo Ofício, tornou-se medida imperativa que lhes confundia a vontade.

          Meus antepassados ficaram perplexos. Com o correr do tempo conformaram-se em razão de certa transigência dos soberanos portugueses e da nobreza de províncias italianas, turcas, gregas e sicilianas.

          Estou em Milão, tarde escura com chuva e frio suportáveis. A sobretarde passara, a noite tinha começo, e me hospedei no Hotel  Ambasciatori, o primeiro prédio da Galleria del Corso.  Após o atendimento da portaria, dirigi-me ao apartamento 7, de cuja janela observei as paredes laterais de Duomo. Estava bem próximo, do lado direito a quem segue rumo à Praça. Após ligações telefônicas à família, restava-me sair ao encontro com o Mestre Hannibal.

          Aguardo vinte minutos para completar as duas chamadas ao Rio e Belo Horizonte. Ambas com idêntica frase marcando iguais sentimentos. Em seguida, após o banho e troca de roupa, o gerente avisou-me de que alguém me aguardava no salão e desci para receber o irmão do Círculo de Ensino.

          Seguimos rumo à Galleria, e lá abrigados fazíamos hora para o jantar.

           O Albergo, pela locação, impusera-se. Estou no Centro Histórico, onde os lombardos, desde o século VI, fixaram-se desafiadores. Duomo, imponente em seu gótico exemplar, dominava a praça e sentamo-nos no cento bem sob a cúpula.

          A fachada da Catedral estava em obras, coberta por compridas lonas destinadas à proteção dos transeuntes.

          Chegara bem, muito bem, o vôo fora sem turbulência, a entrada pelo Tirreno, o encontro com o passado no pressuposto de que pagava uma visita.

           Era o final da semana, o dia primeiro de dezembro, aos milaneses nada importava a temperatura. Vinham para a noite de braços com as mulheres elegantes, protegidas por casacos de pele.

          Servido o conhaque que pedimos, o Mestre falou a respeito de nosso encontro que completaria o ciclo de estudos sobre o Ensino. Tranqüilizei-o sobre o meu compromisso de apresentar a palestra, realçando a satisfação de conhecer pessoalmente novos irmãos. O texto seria lido em duas etapas. O assunto versaria sobre hipnose em aves e pássaros.  

          Lá pelas tantas, desafiando a chuva a cair impiedosa, chegamos à parte central e sentados, dei-lhe alguns pormenores e avaliamos os termos sobre o debate.

          A Galleria Victorio Emanuelle II caminhava para um século de vida, presenciara  toda a era do fascismo,  e por ali, antes dos anos vinte, Benito Mussolini marcava os seus encontros.

          Cortamo-la em seu meio até o La Scalla. Jantamos. Bebemos o vinho branco de Orvieto e o Barolo tinto, detivemo-nos diante da estátua de Cesare Becaria, sentindo que nela também fazia eu a meu pai, soberbo criminalista, nostálgica homenagem.

          Estenderam-se minhas memórias a lembrar Savério Mercadante quando ali estivera durante a apresentação de Elisa e Cláudio, por volta de 1821, tornando-se, então, próximo a Rossini, Donizetti, Pacini e Vaccai.

          Verdi viria depois com visão universal que conquistara os povos europeus. Ao deitar-me, o cansaço venceu meu hábito de meditar sobre o curso da jornada, deixando-me o esforço só capaz de anotar os pontos assinalados por minha memória.

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Published in: on junho 14, 2008 at 4:48 pm  Deixe um comentário  

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