Francesco Mercadante

– XL –

Minhas relações de amizade com Francesco Mercadante tiveram início em 11 de fevereiro de 1983, em uma quinta-feira. Registrei, assim, em meu Diário, de forma sucinta quando da primeira chamada telefônica que lhe fiz.

Conhecia os seus trabalhos e sabia situá-los no pensamento filosófico. Nos ensaios havia a erudição amenizada pelo estilo literário. Estava caindo de sono e no quarto, após ler o jornal, peguei o grosso catálogo, abri-o na letra M, anotando o telefone de Francesco Mercadante. Olhei o relógio, já passara da meia noite e me resolvi pelo repouso.

De sua casa retornou-me, marcando a entrevista para terça feira seguinte, à sobretarde, em seu gabinete na Editora Giuffrè, onde dirigia a elaboração da Enciclopédia Jurídica Italiana. Passando o fim de semana em Nápoles e Sorrento, regressei no dia aprazado para o encontro. Nesse, conversamos sobre a história e as raízes genealógicas do clã, que teria vivido em Sevilha e Barcelona antes da expulsão dos cristãos novos e judeus.

O seu ramo encontrara acolhimento na Sicília, tendo ele nascido em Messina. Lembrava-se ainda de que menino, vindo de Buenos Aires com seus pais, em retorno à Itália, fizera escala no Rio.

Contei-lhe também sobre o nosso clã, aqui chegado nos finais dos anos cinquenta do Oitocentos. Despedimo-nos após as 21 horas, eu recebendo o exemplar de sua Democrazia Plebiscitaria e separata do verbete popolo escrito para a Enciclopedia. Quando regressei ao Brasil mandei-lhe alguns livros e encetamos contactos telefônicos e por cartas.

Em 5 de maio de 1988, cinco anos após, com Ana Elisa, em vôo para Roma, chegamos ao Hotel pelas seis da tarde e antes de abrir as malas ligamos a televisão; e o que vemos? Entrevista com o Professor Mercadante sobre a Sicília na literatura italiana. No Brasil eu havia dito, quando o conhecera, que não deixaríamos de avisá-lo de nossa próxima presença. Alí estava ele na tevê: exemplo das razões das coincidências.

Dois dias após, chegamos a seu apartamento e lá almoçamos, avisando-o de que partiriamos no dia seguinte para visitar a sua terra querida. De imediato ligou para Palermo onde terminaria nosso giro pela ilha, recomendando-me bons hoteis.

Já estava a par de grande parte de suas idéias, inclusivamente o ensaio brilhante sobre a história da representação em Eric Voegelin, meu pensador preferido na área da filosofia política.

Circulei por uma semana em sua ilha, vendo dos assentos de pedra do Teatro de Taormina a herança helênica repousando com orgulho sobre o Mediterrâneo e o Egeu.

Confesso que pouco vira tão belo até então, sentindo em mim a gratidão profunda aos duques e barões de Torraca que protegeram nossa família contra os ódios religiosos do tempo.

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Published in: on maio 24, 2008 at 3:41 pm  Deixe um comentário  

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