O Castelo Baronal de Torraca

XXIX

      Observações de meu avô Giuseppe sempre se vinculavam às práticas clericais no meado do Novecentismo, que serão postas e resumidas na história do Castelo.

     Também se encontrariam mais tarde em seu fastígio no livro sobre a Igreja de Torraca do Sacerdote Rocco Gaettani.

     O texto diz respeito ao burgo, com seu rei, a sua Igreja, o seu barão, o seu castelo, enfim com as vestes monásticas que envolviam a tradição costumeira.

     Edificado sobre rocha, o Castelo Baronal de Torraca tinha ainda o aspecto severo da era medieval. Protegido pelos cinturões de ameias, erguia-se a torre sobre a costa alpestre, cuja imponência parecia voltar-se à grandeza passada. No portão, figuravam as armas da família Palamolla.

     No meado do século XIX, em 1852, um dos descendentes, o Marquese di Poppano fixou uma inscrição sobre a porta do primeiro salão a fim de homenagear a visita do rei Ferdinando II em passagem para a Calábria, monarca generoso, em todos os sentidos, tanto na guerra como na paz.

     O pernoite real no Castelo marcaria, de modo indelével, a história de Torraca, como compromisso histórico entre o poder da aristocracia e os novos valores da burguesia, pois até os primeiros anos do século vinte, os moradores sabiam pela tradição da recepção fidalga que lhe concedera o Barão Biagio Palamolla, Marchese di Poppano.

       A recepção comoveu o Rei, quando conduzido pela família nobre à grande sala central, que expunha as armas da Meia Idade e em cujas paredes pendiam os retratos dos antigos senhores. O Barão transmitia naquelas homenagens toda a crônica a partir dos Gambacortas, quando os Palamollas lhe compraram o palácio, transferindo-se da província de Cosenza. Dava-se ênfase à origem do baronato que se perdia nos tempos remotos do medievalismo, pois os compradores ainda tiveram antecessores feudais.

     Ferdinando II indagou do que diziam os arquivos de Nápoles a respeito das datas, respondendo o Barão que neles existiam o registro e aprovação da venda na forma apresentada à Régia Câmara exatamente no último ano do século dezesseis.

     O diálogo referia-se ao respeito que a família granjeou nas comunidades próximas, uma vez que os Palamollas jamais usaram a prepotência dos direitos senhoriais sobre os súditos, mantendo ainda com a comunidade amável convívio. Nobres beatos e tolerantes, dizia o anfitrião, aqui conviveram em paz com os conversos chegados de Hispânia repetindo os nomes das famílias que possuíam eclesiásticos, como os Mercadantes, os próprios Palamollas, protetores da capela de São Miguel em Torraca. Também na diocese de Martirano, Giacomo Palamolla desempenhara as funções de Arcebispo de Cosenza. Além de nobre, era ele doutor em direito canônico e temporal.

     Sua Majestade e o Barão pararam na porta da biblioteca, contígua à sala central, e da estante retirou-se um volume encadernado, lendo o último em voz alta para os acompanhantes, o registro que o erudito Bispo de Nicoteia, Domenico Taccone Gallucci, fizera de Giacomo Palamolla, em 1667. O dono do castelo concluía sua exposição e todos passaram à sala de jantar.

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Published in: on maio 3, 2008 at 4:20 pm  Deixe um comentário  
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