Torraca com as vestes degradadas

XXVIII

No derradeiro ano do século XIX Giuseppe Mercadante retornava à cidade natal de Torraca com o fito de matar as saudades dos parentes e amigos lá permanecidos. Desembarcava com a família no mesmo cais agitado de Nápoles, recordando instantes desbotados da partida, trinta anos passados, ao ver os garotos no mergulho em busca de moedas jogadas do convés pelos passageiros.

Era órfão, quando partira, pois sua mãe, Domenica, falecera após anos de espera por Pietro Mercadante, emigrado para o Brasil, que ficara de buscá-la com o filho único, quando obtivesse os recursos necessários.

Em 1900, naquele retorno tão ansiado, seguira de imediato a Torraca e, localizou Michelina, já bem idosa, a tia que lhe tinha ensinado a ler e escrever, bem como companheiros de infância com quem brincava na praça após o jantar.

Torraca sonolenta na hora vespertina da aldeia, a praça quase deserta, a população escassa, as ruas vazias. O castelo quase em ruínas, com pedras espalhadas pelos arredores como se um terremoto houvesse ocorrido. O que restara era então morada de Biagio Brandi e sua família. Percorria com a esposa e os filhos pequenos os arredores da antiga comuna, revendo restos de muralha medieval, vestígios do antigo feudo.

Revia pessoas conhecidas, os primos distantes envelhecidos como por encanto, reconhecendo-lhes pelo jeito e sorriso, indagando de estranhos sobre outros que partiram para longe ou adjacências, visitando a Igreja, lá abraçando o tio vigário Giuseppe Mercadante Arcipreste e Curato della Chiesa di Torraca, segundo bula do Papa Leão XIII .

O sacerdote falou-lhe do livro de Dott. Rocco Gaetani que seria publicado em breve, cujo volume, há quarenta anos, em 1961, adquiriria na Igreja de Torraca meu irmão Aluízio de F. Mercadante, que então tomava em Roma lições de música e canto. Ele encontrara parte remanescente do Castelo convertida em Orfanato, segundo a vontade do Pároco Mercadante e de sua irmã Michelina que a deixariam em legado à Igreja de Torraca .

Porém Giuseppe anotava observações de seu dia a dia por todo o tempo que estivera na Itália. Ainda as encontrei nos papéis de meu pai, trazendo-as comigo quando, em 1941, de Minas parti para o Rio.

No encontro com Michelina ouvira Giuseppe idêntico relato do Pároco e ainda do Dott.Ruigi Mercadante, de como, após o Resorgimento se, afundara a região no pântano de crise .

Nas reflexões do recém-chegado sente-se a perplexidade no texto da chamada questão meridional . Giuseppe percebia que a decadência da velha comuna devera-se à ação dos tempos modernos. Com Napoleão tivera início o desequilíbrio entre os espíritos tradicionalista e moderno de regiões desiguais.

Acompanhou Mercadante, retornado, por algum tempo, a gestão do ministro Giovanni Giolitti, personificação do político de nosso estilo: hábil, oportunista, atendendo a todos, e tudo permitindo em matéria de protestos, acreditando que os problemas de atraso e miséria se resolveriam com a ação do tempo. Ouviria os comentários a respeito do chamado decênio sangrento, bem como a interpretação de que a culpa devia-se aos novos métodos políticos, que fizeram desabar os valores da ordem e da hierarquia social. Quanto ao anterior, Francesco Crispi era demagogo sagaz, aspirante à liderança carismática, adotando o tipo paternalista de governo. A corrupção dominara a máquina eleitoral e tentou a aventura militar africana, que produziu a trágica derrota de Ádua.

Porém sua reflexão necessariamente voltava-se para o passado da Itália, aquando do Risorgimento, pois a unidade decidida sem a participação popular (1859-1860) produzira ressentimento entre o norte e o sul, uma vez que as diferenças econômicas e culturais não foram levadas em conta pelos líderes. “Panela de barro não deve andar com panela de ferro”, sentenciou Giuseppe. Então percebeu com nostalgia as razões encobertas da emigração do pai, dos primos e dele próprio. Curiosamente, meu irmão Aluízio, já citado, em companhia de Gemma Gaetani, educada por Michelina; ainda encontrou em Sapri, em 1961, o último dos Mercadantes da região, pintor de grande talento.

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Published in: on abril 26, 2008 at 2:59 pm  Deixe um comentário  
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