Saverio Mercadante (Vida)

XXV

     Em Altamura nascera o compositor, filho de Giuseppe Orazio Mercadante e Rosa Bia. Viúvo desde 1790, o pai não resistira aos encantos da jovem. Ele, de família nobre, com antepassados dignitários da Igreja, ela, de origem camponesa. Batizado sub-conditione, a 17 de setembro de 1795, seria reconhecido legalmente a 22 de maio de 1808 na Paróquia napolitana de Santo Cosmodin. O preconceito fora superado e essa a razão de ter Nápoles disputado com Altamura o privilégio de ser a cidade natal do compositor. Sustentam os biógrafos, inclusive Santo Palermo, que a data do nascimento é a do primeiro batismo e que a segunda cerimônia foi o reconhecimento da paternidade.

 

     Quais os seus antepassados? De onde vinham e qual a razão do sobrenome. Pois Mercadante, como patronímico, procede do latim tardio, mercadans-tis, significando comerciante, em espanhol arcaico. No dialeto toscano e, por conseguinte, no idioma italiano, o vocábulo correspondente era mercatante, da forma como Dante o empregou em sua La Divina Commedia, no canto 27, verso 90.

     O clã procedia de diversas diásporas, desde a primeira após a tomada de Jerusalém pelos romanos. O convívio com cristãos e árabes fora atravessado por turbulências sociais, econômicas e religiosas, cuja “expulsão final” se daria nos anos derradeiros do século XV, quando a onda persecutória do Santo Ofício alcançou os próprios cristãos novos. Considerando que a conversão do clã ao cristianismo se tenha dado em diferentes épocas, a partir do século XIV, quando o primeiro ramo a destacar-se do tronco sefardita adotou para o batismo cristão o nome de Mercadante, passaram a destacar a profissão que exerciam os membros abastados de comércio de seda no Mediterrâneo.

     Quase unânime o ponto de vista de que Horácio, pai de Saverio, procedia dos conversos banidos da Espanha em 1492.  Acresce a circunstância de que desde o século XVII a convivência do clã, abrangendo Basilicata, Sapri, Torraca e outros burgos próximos, dava-se em Nápoles. Apesar da ação do tempo e de circunstâncias políticas que ocorreram na Península por todos séculos, desde a Meia Idade, os parentes sempre se comunicaram e, como exemplo dessa particularidade, os descendentes brasileiros do ramo meridional publicam até os dias de hoje, um jornal bimensal com as notícias sobre a família.

     Os Mercatanti di Calimala também pertenceram à nobreza florentina, constando o brazão dos Códices toscanos. Todavia, fazem parte do ramo de provável conversão anterior à Conferência de Tortosa nos primeiros meses de 1414.

     Escassas são as informações sobre sua infância.  Demonstrando, desde cedo, inclinação para a música, foi matriculado na Pietà dei Turchini. Depois de instruído nos elementos gerais, leitura musical e solfejo, dedicou-se ao violino, à flauta e a outros instrumentos, tornando-se solista da orquestra.

     Após ter estudado composição com Furno e Tritto, teve ainda aulas com Zingarelli. Em San Carlo deu-se a sua estréia em 1819 com a primeira ópera “L’apoteosi d’Ercoli”.

     Era introvertido, modesto, de reconhecida lealdade aos amigos, de estilo conciso no escrever, estampado em seu epistolário passivo, resgatado do habitual desaparecimento. Todavia, apreciava a palestra com os amigos, diversa do modo expansivo napolitano, pois era de raro gesticular ou elevar a voz. Um tanto hipocondríaco, sobretudo quando ausente do lar, porém sem manifestação mórbida. Dir-se-ía, distante dos seus, em condição nostálgica, ou seja, percebida nos traços comuns de suas árias, como no solo feminino do 1º ato de Il Bravo na piazzetta veneziana.

     Com 22 anos, aluno do Conservatório de Nápoles, Mercadante conheceu Rossini por apresentação de Francesco Florimo, historiador da Escola Municipal Napolitana, que descreveu o encontro. Ouvindo a sinfonia composta por Saverio, comentou o já famoso músico que o discípulo começava onde ele terminava. Provável um exagero do historiador, pois a diferença de idades entre os dois era apenas de três anos.

     Pouco mais tarde estréia Mercadante no S. Carlo em noite de gala. Entre os interpretes estava a soprano Isabella Colbran, futura senhora Rossini.

     Notável a produção de Mercadante, difundindo-se por toda a Europa. Tal o seu êxito que foi o compositor preferido, disputando com Pacini, a regência na abertura em Roma da temporada do Teatro Argentina. Tornou-se notável, tendo participado das recepções de Paolina Borghese em seu “palazzo”.

      É, porém, em Milão que o compositor ganha a notoriedade. A ópera Elisa e Cláudio é levada no Teatro “La Scalla”. Outras são aplaudidas em Viena, Madri e Lisboa. A Portugal dedicava especial carinho, compondo-lhe um bailado em cinco partes sobre a conquista de Malaca com o título I Portoghesi nelle Indie. Na convivência com os lisboetas em 1827 e 1828 tomou conhecimento do Brasil em suas vicissitudes de nova nação, que, mais tarde, o condecoraria.

  

      De 1837 a 1839 produz três obras imortais: Il Giuramento, Il Bravo e La Vestale, a primeira citada seria em 1837 em La Scala, a segunda, também, dois a anos depois, a terceira, no S. Carlo em  1840. Em nosso tempo voltou a ser encenada em 1981 em Nova York e três anos após, durante o Festival do Vale do Ítria.

     Mercadante ainda tentaria reconquistar em 1848 os admiradores do norte.com “La Schiava Saracena”, levada no “La Scalla”. A censura prejudicou o texto, a frieza manteve-se. O patrulhamento político envolvera o Mestre para sempre. Recolhe-se, então, o último dos napolitanos, a seu refúgio, o Teatro S. Carlo, onde as suas óperas derradeiras foram encenadas.

     Dos laços familiares, envolvendo sua figura, poucas reminiscências salvaram-se na dispersão de nosso clã em face das vicissitudes históricas resultantes do Risorgimento, nome que se deu à independência e unidade da Itália. Meu avô, que nascera em 1856, estivera em casa de Saverio, durante uma tarde, para despedir-se, quando aguardava o embarque para o Brasil. Estava o maestro, então, entre os maiores compositores da Itália. O parentesco entre os ramos de Altamura e do Vale da Ligúria tornara-se distante do tronco comum que fora do século XVIII, porém perdurava.

     A figura do Maestro jamais foi esquecida pelo sobrinho e suas lembranças renasciam naquele orgulho revelado a meu pai meio século depois, quando retornava à pátria para rever os primos napolitanos. Mas foi por intermédio do Arcipreste Ruigi Mercadante, seu tio, que recebeu, por assim dizer, os traços marcantes do musicista, melancólico naquela época, em região meridional tão sofrida por disputas políticas.

     Corria o final do decênio de sessenta, seu pessimismo acentuara-se, a última ópera Virgínia fora levada no S. Carlo em 1866. Nove anos sem produzir. Apenas duas sinfonias e uma romanza, homenagens a Pacini e ao Príncipe de Nápoles.
O romance adequou-se, a partir do século XVIII, aos salões e no século seguinte, foi inserido em pequenas peças programáticas como, por exemplo, Drei Romanzen, op.28, de Schumann.

     Em 1862 Mercadante perde inteiramente a visão. A cegueira tirara-lhe inteiramente a inspiração, deprimido confessou ao Arcipreste Ruigi Mercadante que nada mais esperava da vida. Nos relatos de meu avô, datados do começo do século XX, que correspondem ao episódio da homenagem ao Príncipe de Nápoles, acima referida, Saverio também teria revelado a sua desaprovação ao modo como se fazia a unidade italiana. O sul viu-se mais empobrecido, a emigração cresceu, quebrando a unidade das famílias das províncias meridionais, enfim una calamitá.

     Mercadante faleceu em dezembro de 1870. Nápoles inteira chorou a perda; principalmente os amantes da música lírica, sinfônica e sacra, enquanto o povo cantava “La Rosa”, sua canção do popular clássico.

 

 

Anúncios

The URI to TrackBack this entry is: https://pmercadante.wordpress.com/2008/04/19/saverio-mercadante-vida/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: