Magister Robertus Mercadans

XXIII

     No meado do século XVI três gerações de Mercadantes assistiam na Itália ao apogeu da Renascença, sentindo a aragem cultural em seu percurso por todo o continente.

     Talvez os mais velhos nascidos nos anos derradeiros do Quinhentismo, ainda se detinham na análise das vicissitudes a partir da queda de Constantinopla em 1453. Pois, desde o século anterior ou no Quatrocentismo, mantiveram negócios em Florença e outros centros, onde obtiveram cidadania e prestígio. Eram antepassados dos nossos antepassados torracanos.

     Quando chegados à Itália, a vinculação política de Torraca instituía-se ao Reino da Sicília, via o Principado de Citra, e lá, desde os primórdios do século quinze, tinham permanecido dois pólos de intenso comércio que gerara relações não só comerciais quanto acadêmicas com as elites locais. Tratava-se de Palermo e Messina, fato que mais tarde, quando da expulsão determinada pelos Reis Católicos, explicaria a fixação na Ilha de outros ramos da família.

     A segunda geração, já na região meridional, adaptada ao meio assustado do velho burgo, porém distante da dispersão política geral existente em toda a península, ajustou-se melhor na atmosfera universitária e cultural.                                  

    Destacou-se então na família o Mestre Roberto Mercadante, que sentia em si próprio delegada a experiência familiar obtida no convívio com a cultura de Castela e de Aragão, o que também motivava Hannibal Mercadante, seu tio e senhor de notável saber.

     Tive em minhas mãos, nos primeiros anos de setenta, algumas páginas de sua lavra, em seu latim elegante e puro, em pasta descodificada, mas ainda assim disponível para estudo e observação no Museu de Salerno, a propósito da influência de professores e pesquisadores, cujo intento visava ao esforço de evitarem-se radicalizações religiosas em diferentes situações históricas. 

     Posteriormente encontrei as marcas de seus passos em notas fragmentárias a partir de 1531, repetidas dez anos após, quando em 1541 dezenove conversos perderam a vida em fogueiras da Inquisição.
 Magister Robertus Mercadans, cercado pelo respeito intelectual, verberou a situação reinante na Ilha, que se tornava perigosa mesmo para os cristãos novos.

     Ele fizera-se respeitar entre os fanáticos inquisidores e procuradores do Santo Ofício, dominando com conhecimento profundo os velhos textos da Conferência de Tortosa, inclusivamente os textos hebreus que deixavam evidências de que em Jesus de Nazaré se tinham cumprido os sinais do ainda esperado Messias.

     Desde o aparecimento do Islamismo na península Ibérica e conseqüente queda do poder visigótico, houve expressiva mudança na situação, pois Muhamad reconhecia um fato significativo: judaísmo, cristianismo, maometismo eram a descendência espiritual de Abraão; podendo todos, assim, reconhecer como seus o Deus de Israel. Significativamente, quatro séculos após, em 1937, dois anos antes da Segunda Grande Guerra, declarava Henri Bergson em testamento sua aproximação ao Cristianismo, onde via a realização completa do Judaísmo.

     Apenas uma referência de 1541 subsistiu na Igreja de Torraca, quando o Magister Roberto Mercadante compareceu, reiterando o compromisso notarial da comuna ao pregar a concórdia e a paz.

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Published in: on abril 12, 2008 at 4:10 pm  Deixe um comentário  
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