Torraca e Sapri: Século XVI

XVIII

     Pelo Escrivão Eugenio Pansa, no dia 24 de janeiro de 1541, foi convencionado pelo Clero e Povo torracano, pleno e perpétuo acordo em favor da concórdia e da paz, presentes as figuras eminentes da comuna, especialmente os mestres e os sacerdotes.

     O instrumento notarial fazia, preliminarmente, menção à soberania do Reino de Sicilia e aos veneráveis Arquipresbíteros Petrus DE ALOISIO, Giovanni GAETANO, ao Diácono Honorário Carlos BRANDO bem como ao Diácono Domenico TIMPANELLA e outros religiosos.

     Em seguida, as pessoas notáveis da comuna sucediam-se. Francesco de BARRA, Nicolau de BARRA, Guglielmus DECESARE, Angelo DEROSA, Francesco MAGALDO, Nicolaus de BARRA, Giovanni MERCADANTE, Giovanni SCARPETTA, Thomas DE SALVATTO, Magister Roberto MERCADANTE, Princivallo BRANDO e demais mestres e universitários. As longas considerações dos objetivos da cerimônia diziam discretamente respeito aos conversos que viviam em Torraca e Sapri ou que se dedicavam ao trabalho de campo nas imediações do Vallo de la Lucania e Policastro Vetere.

     A luta contra o preconceito ao marrano, que vinha da Idade Média, era abraçada por muitos descendentes de conversos, em primeiro lugar porque se punham em maioria ao lado da Escolática progressista e, depois, por entendê-la em seu sentido oportuno. Os Barra procediam de conversões antigas, o nome adotado guardava a seiva geográfica da cidade Barra próxima a Nápoles e até o século XIX permaneceram em Campania.

     Gaetanos também adotaram o nome geográfico de Gaeta, cidade italiana, talvez o mais fiel exemplo dos conversos, antepassados distantes do autor clássico da história da Igreja de Torraca, constante da Bibliografia deste volume. No fim do século dezenove alguns emigraram para o Brasil, fixando-se em Belo Horizonte, participando do grupo pioneiro de construtores da nova capital de Minas Gerais. Do mesmo modo, tanto os Magaldo quanto aos Magaldis, ramo próximo aos primeiros.

     Restam os Brandos e Timpanellas quanto aos sacerdotes. Os primeiros, substantivo comum, procedem do latim blandu, no sentido de persuasivo, diverso de domesticado, encantador, que encontramos nos clássicos (Inegavelmente adotado no ato de conversão em virtude do temperamento dominante familiar). O seu significado, de cunho alemão, em virtude do verbete brent, usual no italiano, não se justificaria no ato de conversão.

     Timpanella procede do espanhol timpanilho, tímpano pequeno que se encaixa detrás nas prensas antigas a fim de segurar a almofada. A escolha da profissão, como no caso dos Mercadantes, levou o converso a adotá-la.

     De Cesare não se ajusta à procedência judaica diante do ressentimento, digamos ódio, em verdade, aos romanos pela destruição de Jerusalém. Tratava-se por certo de universitário procedente da nobreza bem antiga. Quanto a DeRosa, a preposição de nos leva a questionar a interpretação do substantivo, nome de flor, que também se incluía no sul da Espanha como homônimo disponível ao cristão novo.

     Restam Scarpetas e Salvattos. O último, do mesmo modo que seu substantivo Salvatore, era com muita freqüência escolhido pelos judeus em suas conversões na Sicília. O primeiro é diminuitivo de scarpa, sapato em italiano, e corresponde em português ao sapateiro de calçados para crianças e jovens.

     Por fim, o próprio notário Pansa, do aragonês pasa, é termo espanhol que dá esse nome aos canais pelos quais podem passar os barcos.

     Desse modo infere-se da relação de nomes próprios que se tratava de conversos em pleno exercício da condição de cristão.

     Em curso estava o século XVI, plena Renascença que na Itália e na Espanha tanto devia à concórdia existente nas universidades espanholas e em sua modéstia, a humildade meridional estendia a mão direita à Igreja, fazendo-lhe assumir o novo papel na História Moderna .

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Published in: on abril 5, 2008 at 5:36 pm  Deixe um comentário  
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