Os Mercadantes na Itália

XVII 

     A história do clã Mercadante divide-se em quatro idades, todas elas logrando exibir características comuns de seus membros, que se identificam em auto-análises, mediante processos que a experiência milenar lhes foi ministrando. A família viera de distantes eras, a cujos sucessos acrescentou-se a contribuição de perseverança, vigor e solidariedade.    

     São períodos que quase se ajustam do ponto de vista convencional ou cronológico, aos acontecimentos maiores: as passagens pelas obscuras origens, a brutalidade romana, as diásporas inevitáveis, a Meia Idade, o trânsito sefardita, a chegada à Itália, a travessia do Atlântico, afinal, os trópicos, fluminenses, mineiro e paulista. 

     O tema diz respeito ao período que antecedeu a vinda há mais de um século dos pioneiros Pietro, Nicola, Giuseppe. Partiram de Torraca, na Itália meridional, lá ficando os parentes próximos e distantes. Desde os derradeiros anos do século XV, lá permaneceriam ramos da família. 

     Debatendo-se na Espanha em meio a intolerância religiosa, alimentada pelo Santo Ofício, procuraram os Mercadantes salvar-se da repressão que incidia também sobre os cristãos-novos desde a época da Reconquista ou expulsão dos muçulmanos. Contingentes expressivos já conversos partiram dos portos do sul (Almeria) com destino ao norte da África ou da costa levantina, como Valência e Barcelona, à Itália e aos países do Oriente. A península receberia milhares de famílias, inclusivamente judaicas, notadamente Nápoles, onde reinara um filho bastardo de Afonso V de Aragão, Ferrante ou Fernando, cuja mãe pertencera a uma casta de marranos. 

     Sucedendo-lhe no trono o filho Alfonso, manteve-se a política de tolerância aos desterrados, época em que o monarca aceitou como conselheiro o famoso sábio Isaac Abrabanel. A insegurança, todavia, era sentida por parte dos sefarditas, evitando não se exporem a riscos religiosos.

     Os Mercadantes que se fixaram em Torraca já eram conhecidos na comunidade intelectual da Espanha e Itália como autênticos cristãos. Não temiam, do mesmo modo, que os antecedentes já seculares pudessem servir de base aos delatores e radicais. Em documento notarial de 1541, quando ocorreram manifestações anti-semiticas na Itália, subscreviam os Mercadantes de Torraca um apelo à concórdia, firmado por personalidades, entre as quais se achavam Giovanni e o Magister Roberto Mercadante.

     Poucos anos depois, houve o fato de expressiva importância. Quando se completaram cem anos da chegada da família à Campania, em visitação episcopal, o Capelão João Antonio Mercadante celebra a instituição da casa Li Mercadanti . Em seguida, em 1607, Elígio Mercadante desfrutava do prestígio do cargo de notário,  a quem se delegam atribuições jurídicas de ordem pública e privada.

     Em 1622 firmara-se a família em Torraca, pois D. Giovanni Antonio Mercadante desempenha a função de Arcipreste, que na Igreja medieval dirigia o corpo de padres que compunham o clero de um bispo ou comunidade rural e clérigos. Os séculos rolavam, o ramo familiar expandia, alguns membros mudavam-se para locais próximos, mas aparecem com freqüência, sendo que em  em 1656  ao lavrar-se a escritura relativa à questão da Universidade em suas relações com a Igreja, a elite torracana congrega-se para formalizar as resoluções, comparecendo quase todos os chefes de família, entre os quais Angelo Mercadante e todos os primos, a saber, Pietro, Fábio, Carlo.

     Em 1671, durante a visita do Bispo de Policastro, duas figuras de prestígio, Leonardo e Aníbal Mercadante comparecem conforme a ata solene do evento .O primeiro citado é antepassado direto de Pietro e Nicola, que partiriam no século seguinte para Sapucaia e Jacareí.

     Outros Mercadantes deixaram também registrados nos fastos da comunidade terraquense a passagem e as marcas da atividade como doações, locações, outros tipos de institutos, que se arquivam em atas ou por linha, prenotações, bem como formalidades canônicas, em ato a que comparece Nicola Mercadante, em 1707, um distante antepassado de Nicolau de Jacareí e de Pedro, de Sapucaia no Oitocentos.   Relações de dízimos a obras da Igreja registram-se gratas como a Capela do Porto de Sapri em 1719 com relação a Gio Biasi Mercadante. 

     O Oitocentos exibe-se na bota meridional com Saverio Mercadante, representante famoso do melodrama lírico italiano, deixando obra expressiva de composições barrocas e do popular clássico.

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Published in: on março 28, 2008 at 6:22 pm  Deixe um comentário  

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