A expulsão injusta

XVI

     Duzentos anos depois, a tradição oral da família ainda fazia menção ao que ficara daqueles anos relativos à chamada solução final. Ocorreu em 13 de agosto que marcaria na posteridade o trágico dos cais do Mediterrâneo de Sefará. A queda fora de altura desmedida. Um simples exemplo certifica o choque que sacudiu toda a comunidade não só judaica quanto cristã. Pela confiança que os Reis Católicos depositavam nos arrecadores de impostos em 1491, o reino de Castela e Aragão renovava-lhes os contratos e nos primeiros meses dos anos seguintes se acrescentavam novos semelhantes aos vigentes. A última circunstância revela que não se achava fixada na agenda real qualquer decisão quanto à substituição de fiscais. A maioria dos arrendamentos concentrava-se em mãos de Rabí Meir Melamed e de seu sogro Don Abraham Senior, destacando-se entre os demais participantes Ishac Abrabanel.

     Em dezembro de 1491 novas leis foram promulgadas para o sistema fiscal, porém reservando a cláusula de rescisão dos contratos que não se ajustassem à reorganização do Estado. Eis aí a determinação expulsória já prevista. Três meses após, em março, editava-se o édito de expulsão em Granada. Ainda que fosse assinada pelos Reis, manteve-se em segredo até 1º de maio do mesmo ano. Intensa pressão se fizera naqueles meses de sigilo a fim de que não se desse a expulsão, sendo que Abrabanel pessoalmente, Abraham Senior e ainda Alfonso de la Caballeria destacaram-se nesse esforço.

     Tudo em vão. Em maio teve início a medida extrema tão reivindicada pelo Santo Ofício. Torquemada levava de vencida seu programa. Toda a garantia foi dada aos judeus a fim de que vendessem os seus bens, sendo que o volume da oferta sobrepujava a demanda e sofreram eles perda quase total de seus patrimônios. “E tiveram de trocar uma casa por um asno, uma vinha por um lenço”, como escreveu Andrés Bernaldez . Por meio de coação e artifícos legais, tomaram-lhes os bens mobiliários, não deixando que os levassem.

     A princípio, embarcaram no porto de Valença. O número de desterrados chegava a cento e vinte mil almas que tiveram abrigo em Portugal por prazo determinado. Os cinquenta mil restantes partiram de Almeria para o norte da Àfrica, os de Valença e Barcelona para a Itália e países do Oriente, sendo a Turquia a receber os expulsos sem exigências.

     O prazo concedido fora de três meses, de modo que a 13 de agosto, data da saída de Colombo em Sevilha para a descoberta da América, terminava também para os desterrados.

     Também os conversos foram atingidos pele édito da Expulsão, mas na península italiana as atividadaes anteriores de comércio facilitaram-lhes a recepção afetuosa em Florença, Verona, Gênova, Nápoles e nosso clã bateu os costados em Sapri e Torraca sob a proteção do Barão local que não alimentava preconceitos de qualquer ordem.

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Published in: on março 28, 2008 at 6:19 pm  Deixe um comentário  
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