Lorenzo Mercadante de Bretanha

xv

     Quase todos os críticos de arte chamam-nos a atenção da inigualável beleza do gótico. Muitos autores admitem que o estilo em apreço foi a realização suprema da alma humana, realçando que as linhas e harmonias de Notre Dame são tão belas quanto a própria Divina Comédia, pois aquelas estruturas das fachadas das Igrejas,  especialmente as de Reims, Toledo e Sevílha têm a beleza pura do Partenon grego. Dir-se-ía a essência do clássico, exprimindo a pureza do espírito medieval.

     Fatores adversos o exauriram. No entanto, o século XV trazia mensagem outra, pois  comunas e guildas sentiram o declínio da fé e a Guerra dos Cem Anos debilitara a França e a Inglaterra. O gótico seria superado, de modo definitivo, pelo culto ao estilo clássico do Renascimento Italiano.

     O final melancólico da escola erguida em pedra e alabastro conservou a forma de trabalhos agregados de rara grandeza. A Renascença nô-los deu e o estilo dominaria os séculos seguintes com os seus gênios e talentos até o Romantismo do Oitocentos.

     Nosso antepassado Lorenzo Mercadante de Bretanha está presente no crepúsculo do estilo gótico e na alvorda da Renascença, belíssimo adeus à iconografia de Sevilha, revelando-se na transição, engajado na Escola sevilhana de raízes medievais.

     A projeção de seu gênio, em termos do barroco em gestação, só ocorreria em 1892 com o intervir de Gestoso, crítico de arte, que o reapreciou como: “le grand oublié de Seville”, afirmando em sua autoridade de especialista: “qui fut un des plus grands sculpteurs de son époche” ou seja, em vernáculo: o grande esquecido de Sevilha que foi um dos maiores escultores de sua época.

     Laurent Marc’hadour, seu nome no idioma bretão, retornou a Sevilha em 1454, ponto de partida para o trajeto renovador de sua arte pré-barroca. Devem-se à sua criatividade as belas produções da Catedral, ou seja, o portal de nascimento e batismo de Jesus, o túmulo do Cardeal João de Cervantes, a virgem à l’arbousier, a virgem au ruban.

     A imagem de Cristo estendido, já retirado da Cruz, trabalhada em pinho silvestre,restaurada em 1995 por D. Pedro Manzano é, ora, integrante do patrimônio histórico de Andaluzia.

     Levo aos primos no próprio dialeto catalão, tão fácil de ler, a síntese do juízo de hoje sobre o nosso distante antepassado ainda espanhol: “Limportant grup d’obres constituieix épileg de la presencia catalana en el recurregut per l’éxpositió permanent d’art gotic”

     Lorenzo Mercadante, sem o cognome de Bretanha que adotou em seu tempo de vida artística, isto é, de 1454 adiante, pode ser classificado como o iniciador do movimento sevilhano, ao lado de Pedro Millan outro dos grandes escultores da arte catalã.

     Na Praça do Museu, onde estivera o Convento de la Merced Calzada, de Sevília, o segundo melhor de Hispânia, entre as peças vindas de outros conventos,  acha-se entre o grupo de painéis famosos a Virgem e a Criança em policromática cerâmica, constituindo por um crucifixo do século, peça expressiva de beleza. Ainda há na citada cidade, revelando forte influência de Borgonha, sua produção de pureza gótica Saint Miquel Arcàngel.

     Trabalhos outros permanecem vivos. Na Catedral de Sevilha preso ao tímpano do portal figura em relevo o Batismo de Cristo e, do mesmo modo, outra sua produção fascinante na Catedral Real de Granada.

     Como artista, voltara-se para a arte sacra. A conversão de seus avós dera-se em Tortosa nos debates judaico-cristãos de 1413 e 1414. No período seguinte, nas cidades espanholas, as turbulências sucediam-se com frequência. A causa principal das perseguições estava na desconfiança pela qual os inquisidores viam nos conversos, tomando-os muitas vezes por marranos ou falsos cristãos. Em 1480 foi decretada a segregação desde Sevilha, abrangendo toda a Andaluzia. O Ministério Público da operação era nada mais do que o dominicano Tomás de Torquemada. Acima de 2 000 suspeitos de heresia foram levados à fogueira.

     Naquele quadro, Lorenzo fixou-se-em Bretanha, onde o anti-semitismo não ia a extremos. À medida que lá chegava reduzira-se por algum tempo o risco da caça às bruxas; retornado à  Sevilha, o  cognome que adviera de seu prestígio, iria caracterizá-lo na posteridade.

     Em verdade a Bretanha, desligada da França por muitos séculos antes de integrar-se à França, era o centro vivo da transição do gótico para o pré-barroco. A visão de Luis XI lançaria sobre o ducado a idéia de cimentar os fundamentos da monarquia centralizada francesa.

     Mas Lorenzo Mercadante era catalão de verdade, possuía aquele espírito do nosso clã, e na primeira metade do século XV em pleno processo artístico, já revelava sinais em direção ao barroco, quando sacras constituiam as produções arquitetônicas e iconográficas. Os escritos de Vitruvius sobre arquitetura, descobertos então, exerceram grande influência sobre o processo de mudanças.

     Nas Virgens ilustrativas deste artigo observamos os mesmos recursos barrocos a que Miguel Angelo recorreria em Pietà a fim de obter o sentido formal para justificar a fragilidade adolescente de Nossa Virgem Senhora com o atlético lusitano que serviu de modelo ao Filho crucifixado, hoje na entrada à esquerda da Catedral de São Pedro no Vaticano.

     Verdadeira essa conjetura, ele poderia ter partido para outros lugares, não sendo impossível que então buscasse parentes que partiam para outras plagas inclusive Portugal. Eu prosseguirei em seu rastro iluminado.

Puerta San Miguel en la Catedral de Sevilla  
    Portal San Miguel na Catedral de Sevilla, Espanha.
virgen_con_nino1.jpg 
“Virgen con Niño” na Parroquia de Santa Catalina de Fregenal de la Sierra.

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Published in: on março 23, 2008 at 3:43 pm  Deixe um comentário  
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