As Conversões ao Catolicismo Romano

– XIII –

     Há 600 anos centenas de nossos antepassados tornaram-se cristãos-novos durante o hitórico debate entre rabinos judeus e teólogos da Igreja Católica. É admirável que haja duas obras clássicas a respeito dos temas que visavam à unidade das crenças judaica e cristã.

     A primeira, de Baer, mais conhecida como Toledot data de 1945, em sua primeira edição hebraica, sendo traduzida para o ingês em 1966, tomada como avanço importante na historiografia.. O livro é polêmico, tendo-lhe dado o autor exagerada ênfase à parcialidade da Igreja Católica durante o confronto .

     O segundo trabalho aborda os debates de Tortosa, ainda escritos na primeira metade do século XX, recebendo o Prêmio Menendez Pelayo em 1949. Também se incorpora integralmente ao texto do autor, Antonio Pacios Lopez, o volume completo de Atas, onde no idioma latino se registam os debates .

     No decênio setenta fiz apressada leitura da análise de Pácios Lopez, relendo-a após muitos anos, quando por volta de 1985, obtive os dois volumes de Baer em edição espanhola de Altalena. Confesso que muitas dúvidas me atravessaram o espírito quanto à ação repressora, porque Tortosa significara a conversão de centenas de antepassados e achava que as famílias não facilmente trocariam de crença mediante coação.

     As dificuldades para pesquisas cresciam por motivos diversos, principalmente envelhecimento de material, falta de conservação, variadas falsificações e finalmente, a guerra civil espanhola dos anos trinta. De modo que há antes conjectura que certeza em matronimia, razão por que ainda não me foi possível obter todos os sobrenomes em hebraico ou aramaico..

     Pacios Lopez ora me parece mais sereno, de raciocínio mais frio quanto à conduta do Papa Benedito XIII (antipapa para a Igreja) regente daquela magnífica demonstração de lógica, não só do ponto de vista religioso, quando do filosófico. Do ponto de vista das provas, Lopez editou todo o material constante de mais de sessenta sessões.

     No primeiro artigo do último número, a colocação de Jerônimo de Santa Fé, já convertido, representou o espetáculo do poder escolástico, Porque nos parece exagero fixar no centro dos problemas que separam as crenças hebraica e cristã a questão da vinda ou não de Messias, pondo-se de lado os vínculos com Jeová obedecidas por Jesús, De modo que, enquanto Baer admite coação, Jerônimo expôs seis autoridades a fim de provar que Messias já tinha vindo e cumprido a sua missão.

     As posições tomadas pelo Rabino Mathatias, de Zaragoza e de Bonastruch Dezmaestre, de Gerona, que exerceram diretamente a ação revisionista, por meio de Ferrer, permaneceram, desde o início, próximas às intervenções dos teólogos cristãos. (Significativo que no dia imediato solicitaram o batismo cristão dezessete membros da família Caballeria, da qual faziam parte alguns de nossos antepassados).

     É preciso levar em consideração os laços de parentesco desse clã com membros de nossa familia, circunstância que deixou sinais em Aragão. Baer, em seu livro já citado, assinalando que o patronímico vinha da Ordem dos Templários. Um deles, Yehudá bem Levy aparece mencionado no Século XIII como coletor do rei e encarregado de recolher os tributos do reino. Alguns indícios de suas ligações com os mercadantes em arquivos de Gerona, pareçam dignos de atenção, ainda que apresentem falhas e rasuras.

     Outro ramo então convergente, mantendo-se afastados da organização comunal dos judeus, porém ligados à Caballeria, eram os Abelanazares, Tratava-se, do mesmo modo que os primeiros citados, coletores fiscais do Reino e, pois, denominados “francos” ou favorecidos por isenção de tributos.

     Por fim seria imperdoável fossem esquecidas as análises de Paul Johnson, Cecil Roth, Luiz Suarez Fernandez, e Júlio Caro Baroja em contribuições históricas para nós relevantes do intricado problema.

     Tortosa desempenhou no rolar do tempo, o ponto crucial da opção cristã que vinha em desenvolvimento desde os meados dos Trezentos.
Eram vários ramos que traziam pelo menos dois séculos de tradições ainda que fragmentadas desde o primeiro milênio.

     Baer, em sua obra citada, assinala com a precisão do seu conhecimento o ponto para a análise da participação judaica na administração do Estado a partir de 1257, pois desde essa data se conservam arquivos em que os secretários reais registavam ano por ano os documentos expedidos da Chancelaria real.

     Eram outros tempos. No século anterior, os judeus careciam de competência em razão de suas ligações com os príncipes árabes. Todavia a partir do meado do século XIII surgira de Aragão nova classe constituída de comerciantes e burgueses cristãos. Lá, em Aragão houve mercadores de tecidos que subiram até mesmo prestigiados pelos almirantes da Armada .

     A pujança de alguns mercadores nessa situação levou-os à forte influência junto às nobrezas espanhola e italiana em razão do crescimento de suas atividades mercantis no Mediterrâneo.

     Do grupo assim prestigiado do antigo clã destacava-se Yehudá bem Lavi de la Caballeria, cuja patronimico vinculava o passado da família à dependência da Ordem dos Templários. Em 1260 o rei o nomeara para arrecadar as rendas necessárias às despesas reais. Também na mesma época em Gerona e Barcelona surgem com grande prestígio Benveniste de Porta (Bofarul, citado também por Baer).

     Os mais destacados antepassados de nossa família convertida em Tortosa parecem assinalados em mais de cinco ramos, inclusive talvez, Abraham Benveniste (bem Lavi) e Yehudá (bem Levy) de la Caballeria.

     No século XIV e até meados do seguinte, passando pelo processo de Tortosa, a designação de mercadans foi marcando os atos de conversão, constituindo-se a linha que não escaparia à solução final, ou seja, a expulsão de Sefará.

     Não podemos esquecer que a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 ganhou decisiva importância nas vacilações dos reis católicos diante do Santo Ofício que não distinguia por motivo de fanatismo e ambições de poder absoluto a sinceridade daqueles que durante quase meio milênio não dispunham de forças para superar o formalismo do Talmude.

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Published in: on março 17, 2008 at 5:58 pm  Deixe um comentário  

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