A Disputa de Tortosa

– XII –

     Houve diversos ciclos na história dos hebreus. Provável que o primeiro consista na deportação da maior parte de suas tribos, ordenada por Nabucodonosor, o Caldeu, para a Babilônia. Voltariam a Jerusalém, graças aos persas, e reconstruiram o seu Templo. Teria início a história tempestuosa, descrita nas Escrituras. É a fase dos fundadores da nação, beduinos patriarcais, vivendo como pastores.

     O seguinte ciclo em período de crise de alimentos causou o êxodo para o Egito de Ramsés II. Tempo de José e posteriormente de Moisés e dos Mandamentos que consolidaram o monoteismo, advindo os profetas e a idéia do Messias.

     Os séculos passaram. Jesus nasceu, pregou e sofreu a crucifixão. O cristianismo propagou-se, inclusivamente entre os romanos que dominavam a cidade santa.

     Três seitas então havia na Judéia: os fariseus, os saduceus e os essênios. Por fim, Tito, imperador romano, em razão de conspirações e revolta, destruiu Jersusalem.

     As diásporas tiveram início, os judeus seguiram de vez para o continente europeu em busca de Sefará, a Espanha e de outros países. Era o novo ciclo dos sefardins.

     O clã então cresceu durante quase um milênio, atravessando períodos de paz e confrontos com romanos, visigodos, árabes e cristãos. Outro ciclo ocorreria durante a Conferência de Tortosa. Já então se extinguira a unidade, subdividida em razão de casamentos, ou seja, entre os que se consideravam fora do próprio clã, ainda que judaicos ligados às tradição essênias. Formaram-se ramos familiares.

     As conversões tiveram início a partir do século XI, mas em número ainda limitado. Foram alguns Mercadans, (vocábulo merc de trajetória etrusca para o latim vulgar mercatus e posteriormente substantivo comum mercadante em espanhol e catalão).

     Quando nos princípios do século XV os organizadores da chamada Conferência de Tortosa, visando a conciliar na Espanha as controvérsias entre judeus e cristãos, fixaram os itens para o debate fizeram-nos inspirados nas teses do converso Jerônimo de Santa Fé.O Papa Benedito XIII havia dado aos judeus todas as garantias com a sua presença bem como do rabino D.Vidal bem Venveniste de la Caballeria.

     Em 7 de fevereiro de 1413, 19º ano da eleição papal de Benedito XIII, houve a solenidade da Abertura. Os mais ilustres delegados judeus foram os Mestre Salomón Ishaq, R. Astruch há-Levi, R.Josef Albó, R.Matatias, Bonastruch Dezmaestre, de Gerona, R. Moisés Abenhavec. Acrescente-se ainda, por sua cultura, R. Ferrer .

     O ponto mais importante na Agendas era sem dúvida a expectativa de vinda do Messias, levantada como primeira a ser discutida. Jerônimo de Santa Fé asseverou que o Messias já havia vindo na paixão de Cristo, contestando os judeus. Em nove sessões discutiu-se o tema, intervindo o Papa com diversas perguntas. Suscitou-se a hipótese de já ter ele vindo no dia da destruição do Templo de Jersusalém, ou seja, o haggadá.

     Esta foi a primeira falha dos judeus e causa de centenas de conversões. Jerônimo erguera-se veemente com a declaração no sentido de que se o Messias já havia chegado, apenas Cristo pudera tê-lo sido, uma vez que não se soubera esclarecer qual seria o outro. Na sessão V consta ainda o Rabino Mathatias confirmar a conjetura .

     Rabino Mathatias, membro ou contraparente de nosso clã e Bonastruch Dezmaestre, dele afim, seguiram o raciocíno do citado Jerônimo. Apenas Astruch ha-Levi revelou-se contrário, não vindo nenhum outro em sua ajuda, como também consta em Ata V citada .

     Ocorreu, então, segundo escritos a respeito, que notável debate se travou durante a 10ª sessão, de 27 de fevereiro até a 14ª, de 15 de março , e mais conversões se deram, de cujas participando também membros de nosso clã. Assim se manifestaram em latim. Evidenter enim videmus atque clare cognocimus raciones magistri Ieronimi fore veras etc .

     Finalmente, em sessão 14ª do dia l5 de março os rabinos renunciaram a discussão. San Vicente Ferrer tinha feito muitas centenas, mas a Controvérsia de Tortosa surpreendia pela conquista de milhares de judeus, entre os quais figuravam algumas dezenas de futuros Mercadans.

     A Disputa prosseguiria pelos meses seguintes. No dia 2 de maio os debates continuaram sob outro ângulo. Presente Sua Santidade, o Papa, o item segundo dizia respeito às condições do Messias, segundo os judeus e cristãos. Jerônimo formulou seis perguntas, respondendo-as os judeus.

     Mas tudo não passou da completa concordância com as teses de Jerônimo de Santa Fé. As questões foram as seguintes: 1ª: Qual seria o lugar assinalado para o nascimento do Messias? Responderam os judeus que ignoravam em absoluto tal circunstância; 2ª: se Messias, ao tempo de salvá-los do cativeiro, faria os milagres ocorridos na fuga do Egito? A resposta é que também ignoravam quais seriam esses milagres. 3ª: Se Messias seria homem ou divino? A resposta foi no sentido de que seria homem e profeta e que não teria natureza divina. E, por fim, se o Messias viria para salvar as almas ou somente os corpos para a vida temporal? A resposta consistiu em sua missão de conservar as leis de Moisés.

     As demais questões mantinham-se na linha tradicional do saber judaico consignado no Velho Testamento.

     Por dois anos mantiveram-se as sessões, os debates, enquanto por todos os quadrantes da Catalunha as conversõe multiplicavam-se, chegando talvez ao número de l00.000 cristãos novos.

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Published in: on março 17, 2008 at 5:48 pm  Deixe um comentário  
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