Os Brasões

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     A palavra brasão, em sentido figurado, alçou desde o nascimento, o significado de honra, glória, tornando-se ainda para a nobreza e alta burguesia a condição jurídica de propriedade transmissível.É quase certo que o vocábulo tenha vindo do latim bárbaro, através do latim blason, segundo Meyer Lübke, notável filólogo alemão.

     A Heráldica, tida como sua disciplina, deu-lhe orgulhosa e pretensiosamente o status de ciência.

     Nasceu no tempo das Cruzadas, mas só no final do século XIII subordinou-se a preceitos formais rígidos. A rigor, vinculado a escudo militar, tinha o brasão a mesma simetria que a figura humana, porém sustentada pelas suas correias, protegendo as partes do homem que o porta consigo.

     O escurdo, do latim clássico scutum, era arma de couro, madeira ou metal, de caráter defensivo, procedente de épocas imemoriais, cujo manejo obtiveram os romanos não só para medida de defesa quanto de ataque. Tito Lívio, escritor latino, descreveu-o também em sentido figurado: scuto vobis vagis quam gladio opus est (tendes antes que vos defender do que atender).

     Em matéria de guerra, sabemos todos, é sempre confortável incluir a honra como verniz para disfarçar a brutalidade. Tal foi o papel do brasão a justificar o lado podre das Cruzadas, quando desde o seu começo, “a pureza desse flamante entusiasmo”, no dizer de H. G. Wells, se viu tisnada por indisfarçáveis propósitos mesquinhos.

     Nosso clã, já vindo de distantes diásporas, labutava em Sefará e muitos de seus membros se envolveram da primeira à sétima cruzada, a última de São Luiz, rei da França, feito prisioneiro no Egito e resgatado em 1250.

     Diversas conversões deram-se a partir do século seguinte, e muitos Mercadantes (comerciantes de seda também ligados à Itália onde possuiam empórios) obtiveram comendas de ducados peninsulares, conferindo-lhes direitos de usar brasões. Entre os tais primos distantes destacou-se o ramo florentino, cujo registo chegou a nossos dias, classificado em segunda colocação no Stemmi delle 21 Arti, Arti Maggior.

     Como se infere, a Heráldica já era considerada ciência. E em vários arquivos de bibliotecas, figura a família detentora de brasão dos Mercatanti, o de Calimaia (Rua dos mercadores e financistas que mantinham a nobreza de Florença durante a Meia Idade).

    Trata-se esse o mais conhecido ramo do clã apresentado pelo Manual Firenze, de autoria de Loretta Santini, editora Nova Lux. Giusti di Becocci, Via Canto de Nelli, Florença.

     Segundo desenhos heráldicos, tipos aparecem com traços comuns. O campo do escudo exibe armas pintadas e também ornatos exteriores (elmos, paquifes, colares, suportes, mantenedores etc). Necessário observar a mesma simetria da figura humana sustentada pelas correias.

     Na análise dos elementos e formatos dos brasões mercadantianos é curioso observar que, com exceção do florentino ou de Calimaia, as versões apresentam características que muito as aproximam das insignias eclesiásticas, ou seja, suportes, ornatos pavilhão.Tal circunstância poderia explicar-se pela aproximação efetivada entre o converso e a Igreja Católica Apostólica Romana que concedia honrarias às suas ovelhas, perdoando-lhes ainda os pecados.

     Necessário levar em conta que durante a Idade Média e tempos modernos, incluindo a Renascença, o Vaticano viu-se envolvido em disputas militares, o que significa que das mesmas os cavaleiros das Ordens participavam.

     Observe o leitor que nos referidos distintivos sempre se destaca no escudo o ângulo em amarelo sobre fundo azul, constanto os braços e as mãos nos quadris. Há os clássicos oviformes e outros já chegados ao pré-barroco do século XV. Observa com certa razão o primo Ernesto de Lima Mercadante que “variações que se apresentam nos brasões das famílias ocorrem naturalmente com o passar do tempo ou de acordo com a imaginação do desenhista que o reproduz”. [1]

[1]The World Book Encyclopedia,Chicago World Book Inc. 1983.
     Mackinnon, Charles, The Observer’s Book of Heraldry, London, Frederik Warne,1966.
     Rothery, Guy Cadogan, Concyse Encyclopedia of Heraldry, London, Bracken Books, 1985.
     Loretta Santini, Firenze, 0.c.
     Association of Genealogists and Record Agents, 29, Badgers Close, Horsham, England.
     Society of Genealogists, Diamond House, 14, Charterhouse Buildings, Goss Well Road, London.
     Lello Universal, vol.1º Chardron, Porto, Portugal.
     Wells, H.G. História Universal, vol. II, Cia Editora Nacional, 1939, p. 362.
     Mercadante, Ernesto in “Mercadantes & depois”, São Paulo, Brasil (Jornal da família).

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