A Escola de Tradutores

– XI –

     Nos primórdios do Século XII havia na cidade de Toledo membros do clã Mercadans que se identificava pelo elevado nível intelectual. As condições sociais tinham facilitado o diálogo entre cristãos e sefardins, favorecido sobremodo pela anistia concedida por Alfonso VII, perdoando as facções que se envolveram na guerra civil.

     Com notável superioridade em ciências, especialmente na medicina, os judeus e conversos gozavam o reconhecimento real a que se acrescera proibição expressa de Sua Magestade no sentido de que súdito qualquer alimentasse preconceitos de natureza religiosa.

      Mas a partir de 1137, adveio íncômoda discriminação anti-semita, que naturalmente se estendia aos cristãos novos, os quais habilmente foram desviando suas atividades para o comércio exterior em cujos mares alguns ramos resolveram-se a percorrer com a fundação da companhia de navegação voltada para sedas e tecidos do oriente.

     Há um pormenor curioso então na área cultural, pois Toledo se tornara a osmose entre o saber helênico sorvido pelos árabes e o pensamento judaico-cristão que pinçava interessadamente dos escritos aristotélicos, contribuições que se mantiveram obscuras durante as fases anteriores do saber patrístico.

     Sinais da ainda distante renascença cruzavam o céu como pálidas centelhas. Notável escritor português Antônio José Saraiva sustentou a tese de que estavam os cristãos, sob todos os pontos de vista, bem aquém dos árabes assentados, servindo, assim, os judeus e cristãos velhos melhores intermediários entre as duas culturas[1] .

     Em resumo, os árabes instruídos dominavam a própria lingua e o grego, os judeus, o hebraico e o latim clássico, os cristãos, o romance, dialeto procedente do latim vulgar. A sistemática era a seguinte: mister primeiramente que o sefardita experto em árabe ajudasse a verter para o chamado romance o texto determinado; depois, um clérigo cristão ou rabino encarregava-se de pô-lo em latim clássico.
 
     Ocorria também existir na elite de conversos, que dominavam o árabe além do hebraico, e que com o propósito de renovação aspirada logravam obter tradutores versados em filosofia árabe a fim de passarem para o latim correto textos clássicos dos gregos já interpretados pelos filósofos árabes. Foi na época de Raimundo de Salvetat, clérigo da Borgonha, que se teve a idéia de fundar a Escola de Tradutores com os recursos intelectuais indispensáveis à renovação[2].
 
     Dessa forma, a filosofia e ciência do tempo abriram os braços para Aristóteles. Também por esses abnegados de que faziam parte membros de nosso clã, dava Sefará o passo vigoroso, em plena Idade Média, para os Tempos Modernos.
 
     Os pensadores cristãos livravam-se aos poucos do platonismo, saltando do trapézio que unia árabes, judeus e cristãos, tanto os novos quantos os velhos, iluminados pela reflexão escolástica de Rogério Bacon, Alberto Magno e Tomás de Aquino.

[1]  Saraiva, Antônio José, A Inquisição e Cristãos-Novos, Editorial Inova-Porto, 1969.
[2] Teicher, The latin-hebrew schools of translators in Spain in the 12° Century, Barcelona, 1956. p.403

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Published in: on março 8, 2008 at 4:04 pm  Deixe um comentário  
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