O Segundo Ciclo Mediterrânico

-VIII-

     Durante a Idade Média os judeus podiam, em princípio, ser proprietários de terras na Espanha.Todavia, fora-lhes vedado tanto o emprego de escravos cristãos quanto os de sua própria crença, segundo as leis respectivas. A circunstância tornava impraticável a agricultura pelo fato de terem que lavrar a terra em regime de trabalho livre, de alto custo. Acrescia ainda a proibição de trabalhar aos domingos pela lei cristã e aos sábados pela lei judaica, o que tornava a semana apenas de cinco dias.

     Durante o domínio visigótico, revogaram-se-lhes por lei, concessões à propriedade imobiliária, e em 1293 as Cortes de Valladolid proibiram-lhes também o ato de comprá-la.
Desse modo só lhe restaram a alternativa, desde o séeculo IX, de inclinar-se à vida nas cidades, ou seja, à indústria, ao comércio ou às finanças.

     Incunábulos do seculo XIII dão conta de que judeus do Egito e da Grécia eram famosos pela excelência de seus tecidos tingidos e bordados e  mesmo no século Frederico II, imperador do Santo Império Romano e rei da Sicília e Jerusalém, contratara artífices judeus a fim de dirigir a indústria de seda da citada ilha.

     Dessa atividade participaram ramos de nossos antepassados organizados em poderosas guildas, competindo com êxito no mercado e superando os cristãos. Esses, então, obteriam, mais tarde, dos reis o monopólio de muitos negócios vinculados aos tecidos.

     Em Palermo (sítio próximo à cidade) e Messina (berço do Professor Francesco Mercadante) encontrei no meado dos anos oitenta, distantes membros do nosso clã, já assinando o sobrenome mercadante, que herdaram a tradição do fato mencionado, de procederem de poderoso ramo de nosso clã, referido por historiadores da estatura de Abrahams[1], do comércio internacional de seda no Mediterrâneo.  

     O comércio internacional já constituía, na prática, monopólio dos judeus, desde o século XI, servindo como laços comerciais e culturais a Europa e a Ásia. Eram poliglotas, viajando da Espanha e da Itália para o Egito, India e China[2].

     Novas restrições legais vieram, no entanto, ao encontro da supremacia. A ela fechava-se a Liga Hanseática, espécie de Cade atual brasileira, seus portos e negócios.

     Ocorre, nesse período, inclinação para as finanças, em diversos ramos do clã, convertendo-se outros à fé cristã na Espanha, prosseguindo nas atividades ligadas ao comércio de seda no Mediterrâneo, Tirreno e Adriático até a decadência com a tomada de Constantinopla pelos turcos em l453.

     Entre muitas famílias o poderoso ramo de nossos antepassados, que se tornaram os Mercadantes da Espanha, Sicília, os Mercatantis de Florença e de outras cidades da península italiana. Razão por que a designação em hebraico, da atividade comercial que exerciam os seus membros, de mercadores, tornou-se sobrenome, em forma latina, exigência para o novo batismo cristão. 

     Observem os primos o sufixo antis, genitivo de ans no latim corrente na Idade Média, formador de adjetivos oriundos de verbos, mas que podiam ocorrer também substantivados, em caso de nosso sobrenome, acrescido à raíz etrusca merc, formando ainda o ramo florentino mercatanti, porém se tornando variante em espanhol arcaico em forma de ante, em sentido de aquele que pratica determinada atividade ou ação.

[1] Jewish Life, p. 241.
[2] Arnold, Sir,  e Guillaume, The Legacy of Islam, p.102; Jewish Encyclopedia, IV, p.379.
 

 

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