O Fim das diásporas

   -VII- 

    Em nós o nada não existe. Há probabilidades sem fim, casuais, vindas dos antepassados. Somos concebidos, nascemos e passamos a viver; impossível não ser a nossa existência precedida de sua possibilidade específica, aquilo que é suscetível de realizar-se, o quid, contendo as condições essenciais à sua realização.

    Aristóteles falou a respeito do princípio do logos, quando aludiu à intuição como princípio do próprio princípio. No passado está a virtualidde de cada existência, que há de  tornar-se, um dia, o agora. Não importa a temporalidade, é o anterior até o começo, o posterior até o infinito. E disso advém a intuição, que se propõe reencontrá-la na hereditariedade. Diga-se, de passagem, que já se  realiza o teste para as raízes genéticas. Mas aquilo a que aspiramos no plano de vida é o intuir nosso modelo existencial, inclusivamente a memória fantasmagórica que povoa os nossos sonhos.

    Paul Johnson dissertando sobre os gênios do século XX neles sentiu as características comuns. Freud transformaria o modo de como nos vemos em nós mesmos. Nas vascas da morte, pequeno e frágil, mantinha a indestrutível vitalidade de um patriarca hebreu.

    Einstein, trabalhando modestamente em escritório de patentes, formulou a Teoria Geral do Universo, desempenhando também o papel chave na formulação da Física do Quantum. Está próximo a Maiomônides, reafirmando a crença de que existem dois modos complementares de perceber a verdade: a Razão e a Revelação.  Tinha muita coisa em comum com Bergson que acordava sobre o elemento intuitivo na ciência, ou seja, a interação entre o tempo e a matéria.“Quero saber como Deus criou este mundo”, disse certa vez Einstein. Quase o objetivo místico inserido na teoria descoberta da relatividade. 

     Kafka, finalmente, ressaltou, em síntese, o saber encoberto de um clã na antiguidade. Como Freud e Einstein, terminou a história: “estou aqui, mais do que ignoro estar, mais além do que sou capaz de ir. Minha nave não tem leme e é levada pelo vento que sopra nas mais remotas regiões da morte” A idéia do infinito em sí, da origem que não será devorada pelo fim.

    Na manipulação de arquivos em cidades espanholas, as glosas buscam as raízes das diásporas, buscando a camada e constituir parte essencial do processo histórico dos nossos antepassados, antes da conversão.

     Nos primeiros anos do século IV, começamos a deixar a Judéia. Considerando as épocas entre as travessias, as primeiras não foram encetadas entre divergências, cabendo aos anciães dos ramos a palavra final.

    Antes já os filisteus a vinham deixando, fixando-se na bacia mediterrânea. Em Sarfat, mais tarde conhecida por França, ou em Sefarad, sentiam-se menos ameaçados. Ainda nos séculos X a opção era questionada.

    Com relação à Espanha, a nossa curiosidade fixa-se em Córdova, Granada, Toledo, Sevilha e Barcelona, pois quando os muçulmanos invadiram-nas no ano de 711, os judeus ajudaram a derrotá-los.

    Eram os últimos, artífices, mas dominavam o comércio, a medicina e a fiilosofia. Córdoba tornara-se o centro mundial da cultura. Três séculos mais tarde, os bérberes a conquistaram militarmente. Cruéis e sanguinários.

    Nas décadas finais do Século XI apossaram-se também de grande parte do sul da Espanha. No XII nova onda de fundamentailistas, tipos xiitas, vieram com o fito de combater a apostasia muçulmana. Aos judeus ofeceram a opção entre a conversão e a morte. Vedaram a atividade comercial, muitos fugiram para o território cristão. Outros também para o norte da África, onde governavam regentes mais tolerantes.

    Entre esses refugiados estavam membros do nosso clã, inclusive talvez Maimônides, então menino de 13 anos, nascido em Córdoba, prodígio de inteliência e instrução. Viveu em Fustat, exercendo a medicina e o comércio. Seus restos mortais estão em Tiberíades, onde seu túmulo é lugar de peregrinação.

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Published in: on março 1, 2008 at 4:12 pm  Deixe um comentário  
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