Intermezzo

– VI –

     Em meio aos códices, sobretudo aqueles que não se primam pela ordenação, as consultas feitas na Espanha muitas vezes aborreciam por falha ou mistura de temas, interrompendo a clareza da busca. Jamais ignorava o que parecia extravagante, pondo-a em cadernos especiais.

     Para mim o critério consistiu em permanente curiosidade, motivo por que no meado dos setenta, me embrenhei na kabala e nos recursos a pesquisas ecléticas. Investigava, livre de preconceitos, porém cauteloso em interpretações de textos.

     Tratava-se de matéria, em geral bilingüe, incluído o latim vulgar, porém me trazendo sempre a impressão de ter sido súbito jogado em beco sem saída. Mas, de quando em vez, me rebelava com o excesso de prudência e admitia introduzir minha intuição, respeitadas as normas da conjectura, nos vazios de páginas castigadas pelo tempo.

     Qual a minha perplexidade quando percebia sinais de lógica ou me julgava próximo à fascinante solução. A convicção, porém, muitas vezes me levava à meia-verdade. Havia a linguagem rica em simbolismos a ponto de apresentar uma teoria dos números, cada qual correspondendo à coisa sensível, nela exercendo certa função.

     Eu chegara por via heterodoxa ao sistema de Maimônides, cujas idéias me intrigaram ainda na adolescência, levando-me, desde então, a estudá-las, pois encontrara referências suas em textos castigados em Antiquários de Palerno.

     Tudo aquilo me fizera revolver incunábulos esquecidos, buscando referências relativas à literatura rabínica e à filosofia.

     Participando, anos depois, como convidado, de Colóquio sobre Pampsiquismo, troquei algumas impressões com notável professor que me expusera princípios a robustecer provas de Maiomônides quanto à existência de Deus a partir do sensível, baseadas na impossibilidade da regressão do espírito ao infinito e na idéia da causalidade. Outros desafios foram suscitados, entre os quais o problema do pampsiquismo do ângulo da Física Moderna, desde Parmênides até Bohm.

     Introduzi no diálogo os padrões de onda do passado enquanto enredados ao agora como possibilidades de introjeção (latu sensu) ou incorporação, no vazio material do assunto.

     Impressionado com a abordagem global, dele indaguei a possibilidade ou não de completar os sentidos ocultos em textos mutilados, por meio de achegas como processo de acréscimos intuitivos, ou seja, incursões na complementação de lacunas do próprio passado hereditário.

     Sim, ele aquiesceu, desde que variáveis genéticas atuantes, explicassem o transplante, justificou fugindo ao vocábulário analítico.

     Sua resposta chegou-me seca e quântica. Tenta fazer, não irá falhar. Apenas, por questão prática, é conveniente advertir os interessados das duas situações, a sensorial e a intuitiva.

     De modo que minhas reflexões serão apresentadas convencionalmente, enquanto documentais, e intuitivas, quando assim declaradas.

     Mas quero como ressalva fazer observação indispensável: três vezes encontrei em incunábulos espanhóis indícios de Maiomônides, que viveu nos séculos XII e faleceu nos primórdios do século XIII. Podia omitir as considerações seguintes não fosse a circunstância de também fazer anotações em Sevilha de modo precário em razão do estado degradado a que chegara o material em minhas mãos. Comprá-lo do Antiquário não resolveria a questão porque a ação das traças desfigurara o texto onde eu lera a referência prejudicada por razuras quase sobrepostas.

     Estava no centro histórico de Barcelona, também me identificando com um espanhol cordial proprietário da Casa de Documentos Medievais, já por volta dos anos oitenta, quando outra vez ouvi o relato que me fez a respeito de referência antiga de um rabino, seu cliente, e a quem pedia socorro quanto à autentidade de páginas antigas, a propósito da mesma ligação entre os parentes de Maiômonides e determinado ramo de nossos antepassados. Enfim, o problema era insolúvel.

     Ao solicitar informações, o antiquário lembrou-se de que meu espanhol guardava sotaque argentino. Por pouco não comprei aquelas páginas tão queridas e decidi, em razão do preço exorbitante que o texto não me levaria do degrau onde me punha ao patamar aspirado.

     O filósofo judeu e talmudista me fascinava. Nascera em Córdova, estivera no norte da África e na Palestina e residira também no Cairo, onde falecera. Dominava em seus estudos a Medicina, a Astronomia, a Literatura rabínica e profundamente a Filosofia.

     Ariculara, pela primeira vez na Idade Média, o aristotelismo e a Revelação, escrevendo uma obra, O Guia dos Desamparados, sustentando que a Filosofia é a via que conduz a Deus buscando conceituar o supraconceptual e o conceptual. Suas reflexões atrairam a atenção das correntes de Santo Tomás de Aquino, Duns Escoto e ainda mais tarde Leibniz e Spencer.

     Não sei o que dizer a respeito da minha frustração de não poder sem a evidência de prova concreta, inclui-lo em nossa família, mas não poderia deixar de dizer aos nossos pósteros a minha intuição de que era nosso parente.

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Published in: on fevereiro 23, 2008 at 5:51 pm  Deixe um comentário  
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