O Período de Sefará

– IV – 

     Podemos imaginar as primeiras diásporas como solução oportuna dos que não quiseram ouvir a fala de Eleazar, recomendando o suicídio coletivo quando viu a segunda muralha de Jerusalém reduzida a ruínas pelas tropas romanas. Que ocorreria de ultrajes, depois que os inimigos se apoderassem da Fortaleza?

     O Manifesto é semítico em sua justificação: as Escrituras nâo nos ensinam que não é na vida, porém na morte que consiste nossa felicidade, pois ela põe nossas almas em liberdade e dá-lhes o meio de voltar àquela pátria celeste, onde tiveram sua origem.

     Na verdade, a luta prosseguiu rumo à segunda desgraça.. Em 135 D.C encerrou-se de vez a história do Estado Judaico na Antiguidade.

     Para onde partiram os nossos antepassados? No meado do Século XII, em 1168, certo Benjamin de Tudela, dotado de admirável senso de observação, escreveu um livro sobre suas viagens pelo Mediterrâneo e Oriente Médio, só publicado em 1556 e em nosso tempo considerada a mais objetiva e confiável obra sobre a Idade Média .[1]

     Sendo judeu, reuniu expressivas anotações sobre as comunidades por todo o local percorrido, tendo passado maior período em Constantinopla, lá encontrando cerca de 1.500 hebreus, divididos em duas tradições, rabínica e aliados que se guiavam apenas pelo Pentateuco.

     Benjamim escreveu que tais judeus eram artesãos em seda e mercadores de todos os tipos. Desfrutando de boa situação financeira, frequentavam o culto em sinagogas, apesar do preconceito anti-semítico.

     Curiosamente o roteiro da viagem de Tudela subentende a rotina  comercial da companhia de navegação da futura família Mercadante   Partindo de Barcelona, passando por Provença, Marselha e Pisa, visitando Salerno, Amalfi e outras cidades meridionais da península italiana a fim de atravessar o mar, via Corfu, para Grécia e alcançar Constantinopla.

     Como se vê, o roteiro do comércio do ramo familiar, cujos patriarcas já deviam residir em Sefará.

     Depois partiu para Chifre e em seguida, visitou a Palestina, Babilônia e Pérsia. Considerou o viajante que por todo o trajeto encontrou os judeus das diásporas inteiramente dedicados ao comércio, vidreiros em Alepo, tecelães de seda em Tebas, curtidouros de couro em Constantinopla, tintureiros em Brindisi, enfim mercadores por toda a parte.

     Eram citadinos e apesar de divididos em matéria de culto religioso, emprestavam expressiva influência ao comércio internacional que em verdade prosseguiu mesmo enfraquecido, perdurando por séculos em razão das cordiais relações que se estabeleceram entre os turcos e os venezianos após a tomada de Constantinopla em 1453.

     Nas incursões que tentei obter os sinais do clã desde a queda de Jerusalém, mediante as diásporas para Sefará sempre encontrei na homonímia familiar número razoável de nomes próprios gregos espalhados pelos séculos até chegar à atualidade. Em nosso próprio ramo, do meado do Oitocentismo ao final do século XX, batizaram-se Mercadantes com os nomes de Aristóteles, Demócrito, Arquimedes, Heráclito, Xenofonte etc.

     A companhia de navegação e seus empórios espalhados pelas cidades visitadas por Tudela naturalmente resistiram em termos financeiros até que o novo ciclo africano inaugurado por Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda lhes pôs fim em termos de viabilidade financeira.

     É preciso considerar que do oitavo século ao décimo primeiro a melhor região para os judeus era a Espanha. De tal circunstância as ligações com Constantinopla traziam benefícios aos centros urbanos próprios às cidades italianas tanto banhadas pelo Tirreno quanto pela Adriático. Desse modo, quando os muçulmanos invadiram a Espanha, judeus ajudaram a aniquilá-los em Córdoba, Granada, Toledo e Sevilha, então se cimentando o convívio com os cristãos. À harmonia alcançaram ainda as comunidades árabes por intermédio de califas liberais.

     O complicador do quadro histórico estava na corrente fundamentalista que não via com bons olhos aquela mistura de religiões, de forma que a insegurança permaneceu até o século onze. Nas décadas finais da centúria seguinte, os almorávidas radicalizaram-se e os judeus sofreram os horrores da intolerância.

     Nessa época ocorreram retiradas para o norte da África à procura de proteção de regentes muçulmanos tolerantes. Não escaparam das vicissitudes antepassados nossos, ficando o rastro em nomes próprios como Amilcar e Hanibal hérois cartagineses nas guerras contra os romanos. Os empórios da companhia de navegação desempenharam papel saliente na oportunidade.
 

[1] Adler, The Itinerary of Benjamin of Tudela, Nova York, 1927

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Published in: on fevereiro 6, 2008 at 7:09 pm  Deixe um comentário  
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