Lutas e desterros

– III – 

     Ao reunir as crônicas escritas para o jornal da família Mercadantes & Depois, (11) a partir do novo milênio, a justificativa foi visar a deixá-las  gravadas nos fastos da família, bem como as posteriores possíveis de  restaurar por novos dados de 1950 adiante.

      Ao dizer por que razão pesquisou e publicou a sua História dos Judeus, Paulo Johnson informou os leitores de que alguns pontos constituíam os motivos que o levaram ao esforço, basicamente inspirado pela autoria de outro livro seu, A História da Cristandade, ciente da grandeza da dívida que tem esta última com o Judaismo.

     Enumerando as possíveis circunstâncias, ocorrências de dramas e tragédias, o citado autor tirou a conclusão do que significavam a cadeia dos episódios e partes a fim de agrupá-las em um todo e dele extrair a compreensão necessária.

     Em minha tarefa de pesquisa, at last but not least, tomei algumas das partes que fazem parte do essencial em determinado clã, identificando conjecturas no passado de seis mil anos para supor o visado trajeto da Meia Idade até o meado do século XX.. Em nossos dias tornou-se a família presente em países diversos, evidenciada a maior parte  na Itália e Brasil.

     Inspirei-me, neste ensaio, na referência de Francesco Mercadante, organizador da Enciclopédia Italiana, a propósito da expressiva homenagem feita a João Batista Vico por Eric Voegelin: “a sociedade humana não é mero fato ou evento do mundo externo que possa ser estudada por um observador em idêntica medida de um fenômeno natural: ela é um pequeno cosmo, cosmion, tornado transparente pelo significado que, de dentro, lhe conferem os seres humanos que continuamente a cria e a perpetua como modo e condição de  autorealização. A sua existência histórica – e em tal sentido a sua própria existência externa – é um fato simbolizante, isto é, examinado através de simbolos, os quais, se apresentam em diversos graus de variabilidade em comunicação “mental” ou racional vizinhamente ao fato”.[1]

     Sente-se no pensamento de Vico a justificativa de tornar a pré-história de um clã, mesmo sem penetrar em suas ocorrências apenas supostas, ou seja, só partindo da era da escrita da Meia Idade em toque documental no evolver, em função inteira enquanto derivada simbólica.

     Porém o que maior impressão provocou em meu propósito, foram a dinâmica do clã em suas diásporas, a invariância, a rotina de hábitos e princípios, fazendo-nos convictos de que tudo sobrevive durante as micigenações, bem como supondo as adaptações e as individualidades.  Em poucas palavras, o rumo histórico do período neolítico à era moderna.

     O entendimento do processo como um todo de mim avizinhou-se em Sefará (Espanha); mas do ponto de vista de sua realidade documental, de Torraca, aldeia de Campania, Itália Meridional; tocou-me de tal modo que me senti inserido na comuna como testemunha do convívio cotidiano. A praça, ponto de lazer nas sobretardes e à noite, as ruínas do Castelo e restos da muralha, a modesta igreja reconstituída e a paisagem varrida pela constante brisa vinda do Tirreno.

     O clã é organizado por fatos naturais em seus próprios arquivos, ainda que procedentes de situações de incerteza. Os genes cerebrais gravam em seus escaninhos cultura e informações do cotidiano que dão impulso ao comportamento do grupo, sendo de prever-se que um dia, por modo científico, a decodificação há de fazer-se.

     O ponto inicial usado para avaliar remotas raízes de grupos familiares, bem como a tenacidade daquela gente, está em Hebron, onde em cavernas sagradas estão os túmulos dos patriarcas, próximos a Jerusalém nas colinas da Judéia. Lá, Abraão, sua mulher e seus filhos foram sepultados.

    Era a tribo primitiva formada por chefes beduinos patriarcais, pastores da região que se situava entre a Babilônia e o Egito. Palestina, como hoje se chama, então terra de Canaan, habitada por cananitas sedentários e afins dos fenícios e dos amoritas, que conquistaram e fundaram, sob Hamurabi, o primeiro império babilônico.

    Tal o começo da tribo que, segundo o Velho Testamento, seguiu, por razões de preconceitos, para o Egito, de onde Moisés a teria tirado. Tudo isso, porém, a partir de estudos confirmados nos séculos XIX e XX por pensadores alemães em disciplina própria denominada Crítica de Religião, relativizados e ratificados mais tarde por arqueólogos que, do mesmo modo que os pesquisadores diletantes, em escavações futuras nos submeteriam à verdade histórica, como no exemplo da descoberta de Tróia.

    A Bíblia também quase sempre reproduz muitas verdades e est modus in rebus, sunt certi denique fines (há u’a medida em todas as coisas, existem afinal certos limites) segundo o saber latino por nós herdado.[2]

    Mas em tudo isso há também a realidade virtual. Nossos antepassados, antes de Abraão, já viviam no Mediterrâneo. A verdade é que a humanidade para os nossos sentidos se desenvolveu lentamente, formando o Império elamita há talvez 5.000 ou 6.000 anos A C. Que ocorreu em lapso de tempo tão longo para nós mortais?

     O curso histórico judaico, afinal, deve ser avaliado quando voltaram a Jerusalém e reconstruiram o seu Templo, sob os auspícios de Ciro, conquistador persa, após derrotar o último dos governantes caldaicos da Babilônia. Nesse ponto, a miscigenação decorrente em grandes ondas de povos estranhos, havia devastado o espaço ocidental, inclusivamente os iberos escuros ou povos da civilização egéia.

    É preciso levar em conta a situação caótica do tempo, desde os  confrontos de então para chegar-se à dramática ignorância que temos das raízes da história. Esse fato nos devia calar e repelir as suposições que partem da lógica, da casalidade e da própria causalidade.

     Ainda consideradas as hipóteses da Memética, que herdamos como dados e mesmo como experiências, em todo o longo tempo de confrontos e de grandes mudanças.

[1] Mercadante, Francesco, in La Democrazia Plebiscitaria, Giuffré Editore, Milano, 1974, pág,213.

[2] Horatio, Sátiras, Livro I, p.106.

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Published in: on fevereiro 6, 2008 at 7:02 pm  Deixe um comentário  
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