A Dispersão do clã dos séculos XI ao XV

– V – 

     As diásporas não ocorreram de uma só vez. Eram contínuas, com freqüência, figurando como etapas em razão de estadias frustradas.Das tribos os clãs iam partindo de preferência para Sefará ou Hispânia, Itália setentrional e França meridional. Deles procediam ramos familiares por motivo do crescimento dos burgos e de atividades mercantis. Em consequência, com o comércio e indústria deu-se enorme acréscimo de capitais cuja gestão se tornara dificil com a modalidade de pagamentos à vista, razão por que os comerciantes mais abastados e criativos voltaram-se à atividade de banqueiros.

     Sob tais circunstâncias, as matrizes em diferentes lugares necessariamente convocavam membros da família a fim de gerirem filiais em outros países. A moeda foi cunhada em ouro, mas a remessa de cidade a cidade, de região a região, tornava-se arriscada, conduzindo a circunstância à emissão de letras de câmbio, já definidas tanto pelas Ordinanze italianas quanto as Ordonnances francesas.

     Difundiram-se os papéis desse instituto em toda a Europa, cada qual levado por membro da família de banqueiros. Bruges, na Bélgica, Haia, na Holanda, Paris, em França, Londres, na Inglaterra, Amalfi, Nápoles, Florença, Gênova, na Itália, Palermo, na Sicília, Tarso, na Grécia, Lisboa em Portugal, Barcelonha na Catalunha etc.

     A celeridade do novo sistema faria ruir o feudalismo, substituído pelos processos financeiros do mercantilismo, passando a moeda a dominar o mercado e superando a tradicional exploração do camponês. 

     A corvéia extingua-se nos costumes senhoriais, forçando crescer a migração para as cidades, enquanto se inauguravam costumes mais voltados ao luxo, elevando-se, em consequência, as solicitações de consumo e importância da moeda. Para o enquadramento jurídico das mudanças os empresários compravam, guardado o sigilo do negócio, dos senhores feudais a Carta dos Direitos, permitindo-se ao adquirente o emprego dos antigos compônios.

     O problema da mão de obra resolvia-se, pois, aliviando a nobreza ao pagamento de dívidas contraídas em razão de suas elevadas despesas.

     Do mesmo modo advieram inovações técnicas, salientando-se as que se ligavam à construção de caravelas, barcos maiores, e novos instrumentos de bordo como a bússola, difundidos no Mediterrâneo por marinheiros da cidade comercial de Amalfi. Também surgiram as agulhas magnéticas, que sempre assinalavam o norte, bem como o astrolábio e o quadrante, introduzidos pelos árabes.

     Dos mares do Setentrião e Mediterrâneo chegavam aos portos todos as especiarias que do Oriente temperavam a alimentação do continente europeu. Eram rios de dinheiro, operações comerciais que se concluiam nas feiras para onde iam os mercadores e banqueiros.

     Em comentários sobre a transformação da moeda em capital, enquanto fórmula geral do último, Marx, no encalço de Ricardo e de outros financeiros ingleses, assinalou que a circulação das mercadorias é o ponto de partida do capital.

     “A produção de mercadorias e o grau de circulação já desenvolvida que significa o comércio, constituem os pressupostos históricos de seu surgimento. O comércio e o mercado mundial inauguram no século XVI a história moderna do capital”.

     “Prescindindo do conteudo material da circulação de mercadorias, da troca dos diferentes valores de uso, e limitando-nos a estudar as formas econômicas que este processo engendra, encontraremos que o dinheiro é o seu último produto. Este produto último da circulação das mercadorias é a primeira forma de manifesção do capital”.

     Desde os anos mil as feiras espalharam-se e delas vinham  amostras, os próprios produtos na presença de milhares de pessoas. Eram somas expressivas de dinheiro atravessando distâncias para alcançar Londres, Paris, Veneza, Pisa, Lisboa etc.

     Nesse contexto, por quase toda a Idade Média, atuava ramos burgueses dos Mercadantes em processo de formação de famílias, à medida que prosperavam na atividade financeira.

     Quanto à primeira atividade do ramo hispano-italiano, a sede do comércio marítimo estava fixada no Mediterrâneo, abrangendo a Sicília, norte da África, e filial em Tarso, na Grécia. Os navios também subiam o Tirreno e o Andriático.

     Do mesmo modo mantinham o entrosamento com os primos florentinos e de outras províncias do norte da península, o que, quando das conversões, recorriam ao nome de mercadores com o étimo em espanhol ou em italiano.

     Desse modo as famílias Mercadantes e Mercatantes têm a mesma origem e formação. No sistema de identificação por motivo do prefixo merc advieram os Mercantes de Verona.

     No decorrer dos séculos formaram-se os ramos que adotaram nomes com a mesma raíz como, Mercader, Mercadel, Mercante na Espanha, Mercatanti e Mercatante, Mercanti, na Itália e ainda Mercade, Mercati e Mercatili. Trata-se de patronímicos pelo som classificados tecnicamente.

     Na Itália, as famílias, principalmente a dos Mercatantis de Florença, conhecidos na história como de Calimaia, (nome da rua onde residiam), ainda permanecem em atividades ligadas às artes e ao comércio como veremos adiante.

     Dos mais ricos destacam-se os Mercantis no século XIII, residindo em Verona, que também gozavam de prestígio político. Outros primos, com o nome de Marchenti abraçaram a política destacando-se no Conselho Nobre da citada cidade.

     Durante todo a agitada situação dos séculos XIII e XIV os burgueses das comunas atuavam no domínio financeiro, impondo mudanças nos costumes e avanços nas relações econômicas. As famílias que se distribuiram pelas cidades maiores, inclusivamente as dos mercadantes, convertiam-se de quando em vez, buscando por meio dos marrranos alargar o circulo de cristãos, considerando-se a realidade do poder papal sobrepondo-se aos duques e príncipes da península inteira.

     Trata-se da fase de grande acumulação de recursos nas casas bancárias holandesas e genovesas.

     Acrescia a circunstância da divulgação do livro de Marco Polo após a vitória naval de Genova sobre Veneza em 1298, quando o citado aventureiro tornou-se cativo. As expectativas de aproximação com o Oriente crescera no tempo, ainda que seus relatos se deram, enquanto consequência lateral, durante a expansão mongólica e aparecimento dos turcos otomanos nos Dardanelos.

     Os últimos foram um pequeno bando de fugitivos que emigrou para o sudoeste, atravessando tida a Asia Central, em busca de terra para fixar-se. Em Anatólia assentaram-se. Gradualmente cresceram em número, mantendo por dois séculos, boas relações com Constantinopla. Converteram-se para o Islã em razão das semelhanças raciais e linguísticas existentes, tornando-se Adrianopla sua capital. Em 1453, sob o comando de Maomet II, afinal o Império Romano do Oriente caiu em suas mãos. Desse modo muito se enfraquecia o próspero intercâmbio entre o Oriente e a Europa.

     Sofreram os Mercadantes grande golpe com o adverso quadro  criado pelos turcos. Da mesma forma, as rotas que davam ensejo ao comércio com a Itália e França e de lá seguiam pelos países baixos até Inglaterra fortemente sentiram a depressão com a queda dos negócios.

     De um ponto de vista geopolítico tudo se transformaria, deslocado que fora o trânsito da Europa Central para a Inglaterra, Espanha e Portugal. Caberiam a estes últimos, afinal, os descobrimentos marítimos no Atlântico pelo sul da África e outra vez as ligações diretas com os países do Oriente.

     Porém eram os novos tempos que chegavam. O feudalismo ruira, os burgos obtiveram os seus teóricos que propagavam idéias precursoras do Estado Monárquico. Antes a nobreza domada pelo rei que os barões a confundirem-se com o próprio Poder.

     Os Mercadantes do sul da Espanha, que constituem o ramo inicial de nossa família, mercadores de seda em todo o Mediterrâneo, bem como no Tirreno e Adriático, sofreram na conjuntura os entraves naturais dos embargos otomanos. Esses já se tinham embrenhado em atividade bancária e, próximos à Inglaterra e Holanda, tornaram-se entrosados nos negócios que se voltavam para as Américas do Norte e do Sul.

     Já se respiravam os ares dos Tempos Modernos, não mais contando as muralhas inexpurgnáveis dos senhores feudais em razão dos canhões dos mercenários organizados pelos burgueses. Também vieram as Cruzadas com a participação de símbolos que davam aos banqueiros e comerciantes o status e os brazões, fossem dos reis ou do Vaticano.

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Published in: on fevereiro 6, 2008 at 7:14 pm  Deixe um comentário  
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