O acaso como variável encoberta

-I-

     Há incertezas na caminhada da pesquisa, sobretudo em razão de referências encontradas em Sevilha e Barcelona. É o caso de Maiomônides entre os nossos antepassados. Ocultá-lo seria omissão lamentável, dá-lo como certo ou incluí-lo no rol das conjecturas, uma imprudência.

     Seria justo tirá-lo de nossas cogitações ou injusto incluí-lo arbitrariamente? Não, em verdade, é demasiado importante tê-lo em nossas mentes como possibilidade de um trovão manifestar-se em céu claro. Tomemo-lo como hipótese e com ela sigamos ao nosso objetivo.[1]

     O domínio do grego permitiu-lhe exprimir extraordinário pendor especulativo. Autor do Código rabínico e o Guia dos Desamparados, seu pensamento orienta-se às relações entre filosofia e religião a partir de visão aristotélica. Advogou a aproximação das duas, entendendo que não são irredutíveis. Sua reflexão logra conciliar, na perplexidade da época, o supraconceitual e o conceitual, a profecia e a filosofia, por meio de intuições do intelecto. Expõe de modo brilhante as provas da existência de Deus, a partir do sensível, baseadas na impossibilidade da regressão do espírito ao infinito e na idéia de causalidade.

     Todavia não deixou de fazê-lo quanto ao seu conhecimento em sua essência e em seus atributos. Desse modo, as afirmações da Biblia devem ser prudentemente interpretadas ainda que exibidas de forma positiva. Questiona ainda a concepção de um mundo emanando de Deus, tomando-a como resultante do devir sensível para o agir divino.

     Para o homem, argumenta, que a providência divina age no seu próprio interior, sem pôr em causa a sua liberdade, segundo o grau de cada um. A filosofia e a inspiração profética ligam-se a graus crescentes de perfeição intelectual, porém Maiomônides acentua a função determinante da vontade divina em relação à profecia.

     Não pensem os leitores que o filósofo desapareceu na história do pensamento. Além de influir em dezenas de seitas orientais, sua reflexão atravessou a Escolástica, atraindo as correntes franciscanas no século XIV, influindo sobre São Tomás e Duns Escoto e posteriormente sobre Spencer e Leibniz.

     Qual o sinal deixado pelo pensador que possa considerá-lo membro daquele clã aparentemente destroçado, partindo-se aos poucos com as conversões sucessivas?

     Contudo, é preciso ter em mente que a menção a seu nome no vai e vem das circunstâncias arribou a documento naufragado em pastas incompletas, quase destroçadas pela ação de dois mil anos. O fato de estar escrito em árabe não elimina o tema judaico que se referia ao cristianismo, pois lhe era o idioma preferido apesar de dominar tanto o latim quanto o hebraico.

     Seja como for, uma situação a abalar o respeito e as desconfianças, a dúvida e a distante certeza. Fica assim apenas assinalada antes em apenso à Introdução que não ousa passar dos limites da possibilidade.


[1] Algumas informações, todavia, merecem registro. Filósofo judeu, nascido no terceiro decênio do século XII, fixou-se, após diversas viagens, no Cairo, onde faleceu em 1204. Enquanto pensador, seu desempenho tornou-se como pioneiro do aristotelismo e da Revelação.

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