Os Mercadantes do Mediterrâneo

 Conjectura e Genealogia  

     Este ensaio nos leva, ao produzí-lo, à reflexão kantiana que precede a doutrina transcendental do método, tomando como exemplo o meio de como construir um imóvel de que pelo menos tenhamos idéia.

     Diremos que urge avaliar, preliminarmente, os materiais, buscando  determinar a que tipo de prédio seriam necessárias a altura e solidez. Sem tal idéia preliminar o empreendimento iria ao malogro à mingua de material 

     Mas não se trata simplesmente de cimento, areia, madeira, tijolos e tinta a fim de que não nos arrisquemos a projeto arbitrário e cego voltado para o incabível. Mister o orçamento inicial de acordo com os recursos e informações de que dispomos para proporcionar as necessidades das tarefas.

     Temos, pois, que socorrer-nos de disciplina, de um cânone, e, finalmente, de uma história da razão pura e alcançar ponto de vista com a denominação de lógica prática, relativamente ao uso do entendimento adequado aos fins.

     Relação transcendental ocorre àquele que volta ao passado em busca de criaturas que compoem a cadeia hereditária sucessiva e diferentemente atuando de forma complexa, pois no curso  milenar os sinais se identificarão paradoxalmente.

     Alma e corpo se lançam por certo se repetindo, apesar de acréscimos outros vindos de outra metade, elaborando a sucessão desde caracteres físicos até as células cerebrais. Até onde se encaminha o projeto teleológico?

     Digamos, assim, que as verdades se exibam ao pesquisador lançando-o tanto no real dos documentos quanto na conjetura.

     Em nosso caso, iremos buscar, por meio de pesquisas, velhos documentos e sobre tais debruçarmos a fim de prender-se a métodos possíveis e expressões técnicasa a que recorremos em relação ao que há de sistemático em todas as ciências, inclusivamente à História nela perquirindo quanto a lacunas que nos afrontam friamente, quase sempre, porém nos deixando evidências, indícios e suposições.

     Assim fizemos na manipulação do material usado, inteligível em suas fontes, acrescido de dados gerais históricos no sentido da filosofia grega, ou seja, a especulação aristotélica e contemplação platônica da verdade.

     Do mesmo modo, a visão posterior cartesiana de que o saber científico, constituído de conteúdo doutrinal sistematizado, igualmente contém o aspecto formal para alcançá-lo, elevando-o ao mais alto grau.

     O método referido dir-se-ía, no presente trabalho, amernizado pela intromissão dos atores no processo histórico sempre citado, obediente à fase dos acontecimentos.

     Trata-se de inserção na corrente dos processos históricos as suposições das persongens não identificadas, mas que existiram também se repetindo como modelos que se sucederam. Alinham-se na teleonomia enquanto imperativo da sucessão.

     Todavia, usando a premissa de Jacques Monod, tais passos in fieri ocorrem em função do processo fortuito e sem nenhuma dependência dos efeitos que possam acarretar na atuação natural.

     Falo do homem singular que, gerado, sofreu as mutações propensas à consolidação de sua estrutura mente-corpo. O bípede tornar-se-ía o próprio ser antropológico, dono de sua nova pessoa.

     O sábio francês, inspirando-se em Nietzsche, extraiu do acaso e da necessidade o mistério da vida. “A seleção opera mais sobre os seus produtos, porém entrando no da necessidade ou das certezas implacáveis”.   Heisenberg o veria em dimensão mais ampla e Popper a  no princípio das probabilidades.

     O filósofo que divaga nos domínios da Genética lança ainda em forma de complicador o mistério da atuação de exigências rigorosas da qual o azar foi banido, atribuindo-a Poper, dessa forma, não ao acaso, mas que a evolução extraiu suas orientações classificadas como oriundas das possibilidades.

     O mérito da interpretação consistiu, segundo suas próprias palavras, no fulminar do evolucionismo pós-darwínico, famigerada concepção ingenuamente feroz de seleção natural.

     Quase na mesma época que Monod, Linus Pauling, nos domínios da Química, abordava a estrutura primária das proteínas, ajudando-nos a respeitar o credo evolucionário. Acresce a circunstância de serem sempre as observações conflituosas em relação aos resultados.

     Sim, pois cabível em nossa abordagem dar-se-ía no desenrolar da exposição sobre a sequência da cadeia beta da hemoglobina humana A alfa da hemoglobina do gorila difere da humana em duas substituições de um resíduo de amido ácido para a outra, e as cadeias beta do gorila e humana diferem-se apenas por uma substituição.

     Estas observações e muitas outras semelhantes preparariam, segundo Pauling, suporte independente para a teoria da evolução das espécies. Mas o teleonomismo em sua forte sustentação não sofre qualquer referência com relação ao seu desempenho.

     Os dados da Biologia hoje parecem permitir melhor a noção da seleção. Da complexidade e coerência da rede cibernética intracelular advém idéia razoável de que todo o novo, sob a forma de uma alteração da proteína, é antes checado com o conjunto de sistena já vinculado por submissões que comandam a execução do projeto do organismo.

     Mas é o aparelho teleonômico que aceita ou rejeita a tentativa de mutação que lhe define as condições adequadas às exigências da necessidade. Monod busca em síntese admirável o seu pensamento na definição da performance teleonômica que é julgada pela seleção: a própria evolução parece realizar um projeto, o de prolongar e amplificar um sonho ancestral. 

     Trinta anos mais tarde, em 2002, William Benzon, a respeito,  chama a atenção dos primeiros capítulos que visam ao estudo de Robert Aunger revendo a corrente da Memética, ou seja, da análise da evolução cultural humana e da natureza física da informação.

     Não importam as incoerências expostas no seu volume seguinte, talvez escrito com a pressa provocada pelo seu Meme Elétrico.Trata-se este último de uma nova teoria a respeito de como nós supomos.

     Cremos que o fundamental conceba-se com dados de muita aceitação.”Podemos crer que a célula moderna, caracterizada por seu plano de organização química invariante (a começar pela estrutura do código genético e do mecanismo complexo da tradução) existe há dois ou três bilhões de anos, já provida de poderosas rêdes cibernéticas moleculares garantindo sua coerência funcional”. 

     Em síntese, não fugimos da teleonomia mesmo em levando em conta a do meio exterior como agente da seleção.

     Nessa linha de raciocínio devemos chegar à possibilidade de recebermos dos nossos antepassados milhões de informações não só armazenadas nos memes como obtidas da nossa experiência existencial gravada e pronta ser transmitida aos filhos. Por meio de que tal herança expede-se de geração a geraçao, diferenciando-se por motivo de serem as informações recebidas de uma conjunção de partes em princípio independentes.

     Nesse ponto atua a linguagem como ferramenta de uma administração ainda não consolidada.

     A estrutura profunda, a forma de todas os idiomas humanos, é a mesma. A performance que representa e autoriza de pai a filho está associada a desenvolvimento do sistema nervoso central no Homo Sapiens. Tal circunstância foi específica à condição humana a partir de determinado grupo. Para isso, confirmado, é simples considerar que a capacidade dos macacos antropóides atuais de modo algum seja maior que a de seus ancestrais de alguns milhões de anos.

     Não há dúvida de que a linguagem está inserida no processo evolutivo do sistema nervoso central do homem e o da performance única que o caracteriza desde a forma simbólica inicial até o instrumento ajustado de palavras.

     Essas considerações também ligadas ao Homo Sapiens permitem-nos estendê-las à gravação trazida às células cerebrais e nelas fixadas desde a infância à velhice e suas reproduções partindo da época tribal da primeira fase aquando do homem neolítico em seu aprendizado naturalmente cultural.

     A transmissão aos descendentes de memórias primitivas e da própria experiência existencial já constituia o processo da hereditariedade. A etapa seguinte de transição estimula-se naturalmente com a soma das novas experiências da vida ao passado recebido dos avós sucessivos.

     Todo esse emaranhado de experiências à Filosofia apresenta-se problemático em seus fundamentos. Da mesma forma que a Memética se exibe no maior mistério.

     Seja como for entre as hordas dos paleolíticos e dos primeiros neolíticos, nada se conceitua, nada se define em termos de características que possam definir o ser humano.

     O neolítico saltou em alguns milhares de anos das cavernas para a sua tosca cabana, de seu promíscuo modo de vida à noção de tribo, onde melhor se disciplinou para o alcance à condição de clã, em que se transformaria aos poucos, em milênios, à convivência familiar.

     A reflexão oposta, a escola da substituição, contesta a visão da continuidade. Exprime-se de que tanto os fósseis de Neandertal quanto outros conhecidos como homens de Pequim e Java que pertencem a espécies humanas extintas e substituídas por uma extensão do Homo Sapiens. Procedente da África. Isso teria ocorrido por volta de 45 mil anos antes de Cristo. 

     A matéria prossegue em aberto para novas opiniões. Bryan Sykes em seu livro As Sete Filhas de Eva, argumenta no sentido de que se os europeus nativos descendiam dos neandertais ou dos cro-magnons, o problema ainda permanece em debate.   

     Do ponto de vista histórico-cultural, na família que ora tomamos como tema, intromete-se a complexidade de conceituação pelo motivo de encontrarem-se permanentemente dois blocos que se juntam, enquanto nova constante encarna-se no formalismo de um sobrenome projetar-se no tempo.

     Seria o complicador que poderia desfigurar o projeto, inutilizando a unidade. Sim, é certo, mas seja problema; ele, a rigor, em seu último contexto, libera o que vai, sem desfazer as raízes, tornando-se apenas formal a denominação do sobrenome. Quando o que se desvia, no caso do patriarcado, passa a mulher à condição nova, consigo portando o acervo que não mais se esvai.

     Todavia, o significado do conjunto subsiste, levando-se em conta que só ao antigo conjunto acrescenta-se o novo a fim de formarem-se no futuro outros conceitos.

     Perde-se, pois, a linha, porém sendo, do ponto de vista genético, idêntica à masculina, vez que os filhos se apresentam como elemento do grupo. Dir-se-ía o desempenho ocorrido como espécie de face oculta da lua, posto que no cerne projeta-se como a parceira irremovível.

     Isso não importa, em termos transcendentais, sim, porque ambas se identificam na trajetória do destino.  Um dia, a pesquisa científica há de agrupar os conjuntos. Ou um filósofo ensandecido colha em sua intuição o segredo da coisa.

     Afinal, o nome de família é mero sobrenome paterno no patriarcado e materno no matriarcado.

     Na face iluminada da lua reside aquele que atravessa os tempos, enquanto na oculta só a genética pressupõe-lhe a identificação em   milhares de galhos dispersos.

     Como em metafísica então partimos de três perguntas: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?  Vejamos em que pé estão as coisas na genética contemporânea.Trata-se do deslinde que Bryan Sykes e seus seguidores fizeram.

     A história do nosso planeta está gravada no gene mais fácil de ser lido, isto é, o DNA mitocondrial, cuja simplicidade decorre da mensagem que faz passar inalterada de geração a geração, apenas modificada pelo “lento tique-taque” do relógio molecular conforme mutações que se acumulam.

     Segundo as modernas estimativas há pouco menos de trinta mil genes nos cromossomos do núcleo celular, aguardando o momento de serem lidas.

     Cada um deles poderá ter um ancestal comum diferente em algum ponto da trajetória do homem. Sykes chama a tenção para a impossiblidade de conduzir as linhas até o começo, ao contrário do DNA mitocondrial, aquando os genes são igualmente herdados de ambos os pais.Pois embora só se tenha uma ancestral mitocondrial da geração anterior, sua mãe, há ainda dois ancestrais nucleares, ela, própria e seu pai.Recuando a geração passada, haverá quatro ancestrais nucleares, os avós, porém ainda uma só mitocondrial: a mãe de sua mãe, sua avó. E assim sucessivamene, pois em cada geração, dobra o número de ancestrais

     No entanto, um gene é imune às complicações nesse caminho. Trata-se do cromossomo Y com um só objetivo: criar homens, pois consigo leva o gene que impede que todos os embriões humanos se  tornem femininos.

     O autor acima citado exemplifica as circunstâncias de modo exemplar:”Assim como o DNA mitocondrial segue a linha materna através das gerações, a herança do cromossomo Y dos pais pelos filhos deveria traçar a imagem da trajetória paterna de geração à geração” Sykes,Bryan, As sete filhas de Eva, Recor, Rio, 2003, p.2l9 e segs.

     Cabe, porém, à mulher a função na idéia da sucessão pelo fato de ser portadora do gene Y para tanto destinado, ou seja, de perpetuar de mãe às filhas o rumo da descendência. Em certo momento histórico o up-grade da sucessão concedeu-se à mãe. A pesquisa científica recentemente vitoriosa em número expressivo de experiências de laboratório, demonsta que apenas sete clãs realizaram o salto evolutivo exposto pelos geneticistas contemporâneos.

     Esgotados os recursos naturais da ciência, resta-nos dizer que a conjetura é também indispensável.

     Permanecer no apodítico ou demonstrável a mim pareceu durante a travessia da busca genealógica, disperdiçar como em onerosa construção sacos de cimento, montões de areia, pedaços de madeira de lei, latas de tinta pela metade.

     Digamos em linguagem kantiana “pensar segundo idéias”. Sejamos, em tal circunstância, despido da autosuficiência de arqueólogo, confiantes em que a conjetura está inserida no corpo da verdade. Ou como se exprimiu Miguel Reale: o pensamento conjetural merece a mais dedicada atenção, como forma autônoma de pensamento, ao correr em paralelo ou complementarmente com a investigação positiva.

     Nisso consiste, antes, o pensamento conjetural que tanto se aproxima de postura metafísica, sem a qual se compromete a própria verdade científica quando se recusa a submeter-se isenta de possibilidades de críticas a seus fundamentos.

     Nesse caso, cabe a justificação kantiana da intentio racional que se compõe com a imaginação, desenvolvendo-se “sobre as asas da fantasia, embora não sem um fio condutor ligado, mediante a razão, à experiência”

     Assim são todos os clãs, identificados pelo sobrenome, enquanto a totalidade é dúplice guiada pelo ácido do princípio genético. No longo processo histórico, tudo acaba por encobrirem-se pelo sobrenome as identidades.

     No futuro, o DNA será capaz de refazer os parentescos, fixando, de modo orweliano, os tabus específicos a pormenores por razões que ainda ignoramos..

     Seja como for, da família nuclear, casal e filhos surgidos do salto qualitativo que dera     origem ao homo sapiens, há o rumo traçado pelos memes.

     A proliferação das famílias é idêntica a expansão da energia pelo espaço-tempo. Há de chegar um dia em que a espécie humana será outra, porém a condição instituidora do homem neolítico estará na camada profunda, servindo de base ao homo sapiens sapiens. Então é certo que de bilhões de troncos, em processo de regressão, chegar-se-ía ao principio do princípio, um clã talvez único que deu partido ao processo há alguns milhões de anos.

     Por isso o clã comporta uma consistência referencial em si próprio, provavelmente alheio aos anos que lhe vão acrescentando o sentido de adaptação ao meio social em que vive e em temporalidade também funcional. Ou como acentua Miranda Santos: o jogo da família é a saída única para atingir o seu papel e fundamentar o seu estatuto.

     Afinal, o processo social em si é reformador ainda que historicamente helicoidal, pois adentro de cada círculo familiar forma-se ajuste permanente a prosseguir na trajetória histórica sempre em termos de informação e cultura.

     Curiosamente os objetivos a serem atingidos, as finalidades atinentes ao agregado familiar, pemanecem. Em tal circunstância, o peso dos objetivos superiores parece estar fixado em tradição teimosamente inserida no contexto existencial.

     Em nosso caso êste ensaio aprofunda o corte no tecido da etnia, revelando as raízes da vocação do ramo estudado no terreno da educação, desde a Idade Média até os dias atuais, tanto na Espanha quanto na Itália, sem dar ênfase aos difíceis tempos dos confrontos e dos cativeiros.

     Certamente nossas considerações a respeito prendem-se a possibilidadaes que se extraem de relaçõs ncessárias de dados históricos gerais e outros ainda buscados e perenes nos incunábulos, palimpsestos, arquivos e livros do passado.

     Com muita frequência, simples dado constante de códice até mesmo extraviado ou relativo a difrente assunto, provoca, como centelha,  informação até então oculta. Pinçada, fica a aguardar a confirmação que não tem data para aparecer.

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Published in: on janeiro 19, 2008 at 2:42 pm  Deixe um comentário  
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